Mundo de ficçãoIniciar sessãoO guerreiro mal conseguiu terminar a frase antes de perder os sentidos.
Seu corpo tombou sobre o chão de pedra da praça, enquanto o sangue escorria lentamente por entre as frestas do calçamento.
As pessoas que caminhavam pelo vale interromperam suas atividades.
Em poucos segundos, curandeiras cercaram o homem.
Seraphine aproximou-se com a mesma serenidade de sempre, embora seus olhos revelassem preocupação.
— Levem-no para a enfermaria.
Duas mulheres o colocaram sobre uma maca improvisada.
Antes que desaparecessem entre as casas, o guerreiro segurou o braço de Orion.
— Capitão...
— Poupe suas forças.
— Não...
Ele tossiu sangue.
— Aquele homem... não era um lobo comum...
Orion franziu a testa.
— O que quer dizer?
— Os olhos dele...
Ficavam vermelhos...
Como fogo...
Depois disso, perdeu novamente a consciência.
Seraphine acompanhou a maca desaparecer ao longe.
— Vermelhos...
Ela parecia mergulhada em lembranças antigas.
Cedric percebeu sua expressão.
— Você conhece esse tipo de guerreiro?
A mulher demorou alguns segundos antes de responder.
— Esperava nunca mais ouvir essa descrição.
Elara observava tudo em silêncio.
— Quem são eles?
Seraphine virou-se lentamente.
— Assassinos da Lua Rubra.
O nome provocou um desconforto imediato entre todos os presentes.
Alguns guerreiros trocaram olhares inquietos.
Outros fizeram discretamente um símbolo sobre o peito, como se afastassem um mau presságio.
Elara percebeu.
— Nunca ouvi falar deles.
— Porque acreditávamos que haviam sido exterminados há centenas de anos.
Orion passou a mão pelos cabelos.
— Se eles voltaram...
Temos um problema muito maior do que imaginávamos.
Na enfermaria, o ambiente era tomado pelo cheiro de ervas medicinais.
Curandeiras caminhavam rapidamente entre os leitos.
O guerreiro ferido recebia tratamento enquanto outra mulher preparava infusões em grandes panelas de cobre.
Elara observava tudo com atenção.
Desde que chegara ao vale, não permanecera muito tempo em contato com as pessoas.
Ainda tentava compreender aquele lugar.
Uma senhora de cabelos grisalhos aproximou-se sorrindo.
— Você deve ser a nossa Rainha.
Elara sorriu sem jeito.
— Ainda estou tentando aceitar essa ideia.
A mulher riu.
— Todos nós demoramos para aceitar quem realmente somos.
Entregou-lhe um pequeno recipiente de barro.
— Passe isso na marca do seu pulso antes de dormir.
Vai aliviar a ardência.
— Obrigada.
— Meu nome é Amélia.
Sou a curandeira mais velha daqui.
Elara inclinou levemente a cabeça.
— Prazer.
Amélia segurou delicadamente sua mão.
Seu semblante mudou.
Ela fechou os olhos durante alguns instantes.
Depois abriu-os lentamente.
— Seu poder está despertando mais rápido do que imaginei.
Elara arregalou os olhos.
— Como sabe?
— Consigo sentir.
Sorriu com gentileza.
— Seu corpo ainda não aprendeu a controlar essa energia.
Nos próximos dias você sentirá dores de cabeça, febre, sonhos estranhos...
Talvez até escute vozes.
Elara respirou fundo.
— Isso é normal?
— Para alguém da sua linhagem...
Sim.
Mais tarde...
O sol já começava a desaparecer atrás das montanhas quando Orion apareceu diante da cabana.
Trazia duas espadas de madeira sobre o ombro.
— Vamos.
Elara olhou para ele sem entender.
— Para onde?
— Treinar.
Ela soltou uma pequena risada.
— Acho que escolheu a pessoa errada.
— Não escolhi.
Foi Seraphine.
Ela suspirou.
— Hoje?
— Hoje.
— Acabei de descobrir que existe uma guerra acontecendo.
— Exatamente por isso.
Elara percebeu que não conseguiria convencê-lo do contrário.
Seguiu Orion até um enorme campo cercado por árvores.
Dezenas de guerreiros treinavam em duplas.
Homens e mulheres.
Jovens e idosos.
Todos utilizavam armas diferentes.
Espadas.
Lanças.
Arcos.
Machados.
O ambiente era tomado pelo som constante de metal contra metal.
Assim que Elara entrou no campo, o treinamento diminuiu de ritmo.
Vários olhares voltaram-se para ela.
Nenhum carregava desprezo.
Havia curiosidade.
Respeito.
Expectativa.
Orion entregou-lhe uma espada de madeira.
— Segure.
Ela girou a arma entre os dedos.
— Faz muitos anos que não treino.
— Então vamos descobrir quanto esqueceu.
Ele assumiu posição de ataque.
— Venha.
Elara respirou fundo.
Avançou.
Tentou um golpe lateral.
Orion bloqueou com facilidade.
Ela girou o corpo.
Novo ataque.
Outro bloqueio.
Em poucos segundos estava completamente desequilibrada.
O capitão sorriu.
— Seu problema não é falta de força.
Ela respirava ofegante.
— Então qual é?
— Você avisa cada movimento antes de atacar.
— Como assim?
— Seus ombros.
Seu olhar.
Sua postura.
Tudo entrega o que pretende fazer.
Ele caminhou lentamente ao redor dela.
— Um guerreiro experiente consegue prever seus golpes antes mesmo que aconteçam.
Elara voltou à posição inicial.
— Então me ensine.
O sorriso de Orion aumentou.
Era exatamente a resposta que esperava.
Durante quase duas horas repetiram os mesmos movimentos.
Ataque.
Defesa.
Equilíbrio.
Respiração.
Passos.
Elara caiu inúmeras vezes.
Sujou completamente a roupa de terra.
As mãos começaram a doer.
Mesmo assim recusava-se a desistir.
Cada queda despertava uma lembrança diferente.
O olhar frio de Kael.
As acusações.
Os cochichos da multidão.
As risadas.
Essas lembranças tornavam-se combustível.
Quando Orion derrubou sua espada pela décima vez, ela respirou fundo.
— De novo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Tem certeza?
— De novo.
O treinamento continuou.
Desta vez Elara mudou a forma de atacar.
Não utilizou força.
Esperou.
Observou os pés do adversário.
Quando Orion avançou, ela girou rapidamente para o lado e atingiu sua espada de baixo para cima.
A arma do capitão escapou de sua mão e caiu sobre a grama.
O campo inteiro ficou em silêncio.
Orion olhou para a espada caída.
Depois para Elara.
Abriu um sorriso satisfeito.
— Muito melhor.
Os guerreiros ao redor começaram a bater palmas.
Elara corou imediatamente.
— Foi sorte.
— Não.
Seraphine aproximava-se lentamente.
— Foi aprendizado.
Ela havia assistido a toda a sessão de treinamento.
Parou ao lado de Orion.
— Ela aprende rápido.
O capitão concordou.
— Muito rápido.
Cedric também havia chegado.
— Isso é bom.
Porque não teremos muito tempo.
Elara limpou o suor da testa.
— O que aconteceu agora?
Cedric entregou um pergaminho a Seraphine.
A mulher leu em silêncio.
Seu semblante tornou-se mais sério.
— Nossos observadores retornaram.
— E?
— Os guerreiros do Norte deixaram a fronteira.
Orion pareceu confuso.
— Foram embora?
— Não.
Seraphine levantou os olhos.
— Estão recuando para abrir caminho.
— Caminho para quem?
Cedric respondeu antes dela.
— Para os Supremos.
Elara sentiu um arrepio.
— Quantos existem?
— Sete.
O silêncio caiu novamente sobre o campo.
Seraphine dobrou cuidadosamente o pergaminho.
— Durante séculos, os sete Supremos raramente se reuniram.
Cada um governa um território e evita interferir nos assuntos dos demais.
Ela olhou diretamente para Elara.
— Mas seu despertar mudou tudo.
Orion completou:
— Se todos decidirem unir forças...
Nenhuma alcateia conseguirá permanecer neutra.
Elara apertou a espada de madeira.
— Eles virão para me matar?
Seraphine sustentou seu olhar.
— Alguns virão.
Outros desejarão usar seu poder.
Talvez exista quem queira protegê-la.
Mas apenas um deles...
Ela fez uma breve pausa.
— Conhece a verdade sobre o que realmente aconteceu na noite em que o Reino da Lua Negra caiu.
Antes que Elara pudesse perguntar quem era esse Supremo, um uivo longo ecoou pelas montanhas.
Não era um aviso.
Nem um chamado.
Era uma resposta.
Outro uivo surgiu ao longe.
Depois outro.
E outro.
Em poucos instantes, sete uivos diferentes ressoavam de direções distintas, atravessando vales e florestas.
Seraphine fechou os olhos.
— Eles sentiram.
Cedric segurou o cabo da espada.
— Os sete Supremos estão a caminho.
E nenhum deles pretende voltar para casa de mãos vazias.







