Capítulo 23 – Os Caçadores das Linhagens

A revelação de Nythar fez o acampamento inteiro congelar.

As conversas cessaram.

Os guerreiros abandonaram as fogueiras e correram para suas posições.

O vento mudou de direção.

As chamas passaram a inclinar-se para o norte, como se algo invisível atravessasse a floresta.

Lucien segurou a lança.

— Consegue dizer quantos são?

O enorme dragão permaneceu imóvel, farejando o ar.

Suas pupilas estreitaram-se.

— Não.

Porque não caminham como um exército.

Movem-se separados.

Em silêncio.

Como predadores.

Cedric franziu a testa.

— Estão tentando cercar o vale.

— Exatamente.

Orion desembainhou a espada.

— Então já sabem que estamos aqui.

Mirena caminhou até a borda do acampamento.

Apoiou o cajado no chão.

As runas gravadas na madeira começaram a emitir um brilho suave.

Ela fechou os olhos.

Durante alguns instantes, apenas o som do vento podia ser ouvido.

Quando voltou a falar, sua voz estava carregada de preocupação.

— Eles não pertencem à Lua Rubra.

Nem às alcateias do Norte.

Nem ao Oeste.

Kael aproximou-se.

— Quem são, então?

Mirena abriu lentamente os olhos.

— A Ordem dos Coletores.

O nome caiu sobre o grupo como uma pedra.

Elara percebeu imediatamente a reação de Nythar.

O dragão tensionou todo o corpo.

Até Selene perdeu a serenidade habitual.

Aiden apertou os punhos.

Lucien observou um por um.

— Alguém pode explicar?

Foi Nythar quem respondeu.

— Eles não lutam por reinos.

Não escolhem lados.

Não fazem alianças.

Vivem apenas para capturar descendentes de antigas linhagens.

Elara sentiu um arrepio.

— Capturar?

Mirena confirmou.

— Eles acreditam que o sangue guarda fragmentos da essência dos ancestrais.

Durante séculos caçaram qualquer pessoa ligada às antigas famílias.

Kael olhou para Selene.

— Nunca ouvi falar deles.

Ela respondeu sem hesitar.

— Porque trabalham nas sombras.

Quando terminam uma missão, não deixam sobreviventes para contar a história.

Enquanto os líderes conversavam, Magnus permanecia sozinho perto da floresta.

Seu olhar estava perdido nas chamas da fogueira.

Tudo o que ouvira nas últimas horas abalara suas convicções.

Durante anos acreditara servir a um propósito maior.

Agora descobria que Cassian escondera parte da verdade.

Passos suaves interromperam seus pensamentos.

Cassian aproximou-se.

— Está diferente.

Magnus não respondeu imediatamente.

Continuou olhando para o fogo.

— Sempre disse que a mentira era a arma dos fracos.

Cassian permaneceu em silêncio.

— E mentiu para mim durante toda a minha vida.

O antigo Guardião suspirou.

— Fiz escolhas que hoje não repetiria.

Magnus levantou-se.

Havia mágoa em seu olhar.

— Isso não devolve as vidas que tiramos.

Cassian abaixou a cabeça.

Era uma culpa que carregaria pelo resto da existência.

— Eu sei.

Magnus caminhou alguns passos.

Depois parou.

Sem olhar para trás.

— Ainda não sei se continuo ao seu lado.

Mas também não lutarei contra você.

Cassian apenas assentiu.

Era mais do que imaginava receber.

Do outro lado do acampamento...

Kael aproximou-se de Elara.

Ela estava organizando a mochila de viagem.

Separava pequenas bolsas de ervas entregues por Seraphine.

Nem levantou a cabeça quando percebeu sua presença.

— Precisa de alguma coisa?

A pergunta saiu fria.

Controlada.

Kael respirou fundo.

— Quero pedir desculpas.

Ela continuou trabalhando.

— Já pediu.

— Não o suficiente.

Elara fechou a mochila.

Só então o encarou.

— Você quer aliviar sua consciência.

Não apagar o que aconteceu.

As palavras acertaram Kael em cheio.

Ele não tentou se defender.

— Tem razão.

Ela cruzou os braços.

— Passei anos acreditando que havia algo errado comigo.

Achei que não era digna da minha alcateia.

Depois descobri que fui acusada injustamente.

Agora descubro que toda aquela tragédia nasceu de uma mentira muito maior.

Sua voz vacilou por um instante.

Mas ela recuperou rapidamente a firmeza.

— Você não destruiu apenas meu presente.

Também destruiu todas as lembranças felizes que eu tinha da nossa infância.

Kael abaixou os olhos.

Não havia resposta para aquilo.

Elara respirou profundamente.

— Talvez um dia eu consiga perdoar você.

Mas esse dia não chegou.

Ela pegou a mochila.

Passou por ele sem esperar resposta.

Kael permaneceu imóvel.

Lucien havia observado toda a conversa à distância.

Aproximou-se lentamente.

— Dói, não é?

Kael sorriu sem humor.

— Muito.

— Guarde essa dor.

Ela vai impedir que você volte a cometer o mesmo erro.

Pouco antes da meia-noite...

Nythar ergueu novamente a cabeça.

— Eles chegaram.

No mesmo instante, um assobio cortou o ar.

Uma flecha atravessou a escuridão.

Lucien conseguiu desviá-la com a lança.

Outra flecha surgiu.

Depois outra.

Depois dezenas.

— Escudos! — gritou Cedric.

Os guerreiros formaram rapidamente uma barreira.

As flechas, porém, eram diferentes.

Nenhuma tinha ponta metálica.

Eram feitas de cristal negro.

Assim que atingiam o chão, explodiam em uma névoa azulada.

Seraphine arregalou os olhos.

— Não respirem essa fumaça!

Alguns soldados já haviam inalado parte dela.

Começaram a cambalear.

Suas pernas perderam a força.

Orion correu para ajudá-los.

— O que está acontecendo?

Mirena respondeu enquanto desenhava runas no ar.

— Não é veneno.

É magia de contenção.

Ela enfraquece o vínculo entre o guerreiro e o lobo.

Kael imediatamente sentiu algo estranho.

Seu lobo interior permanecia em silêncio.

Nunca experimentara aquilo.

Lucien também percebeu.

— Não consigo sentir minha transformação.

Nythar bateu violentamente as asas.

O vento dissipou boa parte da névoa.

Mas não toda.

Então...

Uma figura saiu da floresta.

Depois outra.

E mais outra.

Nenhuma usava armadura.

Vestiam mantos cinzentos.

Máscaras brancas escondiam completamente seus rostos.

Todos carregavam o mesmo símbolo gravado no peito.

Uma árvore sem folhas envolvida por correntes.

Mirena fechou os olhos.

— Não pode ser...

O homem que estava à frente retirou lentamente a máscara.

Era um senhor de cabelos completamente brancos.

Seu rosto transmitia serenidade.

Quase bondade.

Mas seus olhos eram frios.

Sem qualquer emoção.

Ele fez uma discreta reverência.

— Rainha Selene.

Guardião Nythar.

Sacerdotisa Mirena.

Faz muitos anos.

Selene estreitou os olhos.

— Aldren.

Ainda lidera os Coletores.

O homem sorriu.

— Enquanto houver sangue antigo neste mundo...

Meu trabalho continuará.

Elara observava tudo em silêncio.

Aquele desconhecido parecia conhecer todos ali.

Aldren finalmente voltou o olhar para ela.

Depois para Kael.

Seu sorriso aumentou.

— Excelente.

Os dois herdeiros realmente estão juntos.

Kael deu um passo à frente.

— O que vocês querem?

A resposta veio com absoluta tranquilidade.

— Vocês.

Lucien ergueu a lança.

— Terão de passar por todos nós.

Aldren inclinou levemente a cabeça.

— Receio que não.

Ele levantou a mão.

Dezenas de novos caçadores surgiram entre as árvores.

Mas havia algo ainda mais preocupante.

Entre eles estavam homens e mulheres de diferentes alcateias.

Alguns usavam os mantos do Norte.

Outros carregavam os brasões do Oeste.

Havia até antigos símbolos da Lua Negra.

Como se guerreiros de todos os reinos tivessem sido capturados... ou recrutados.

Aiden arregalou os olhos.

— Isso explica os desaparecimentos.

Mirena compreendeu imediatamente.

Durante décadas, pessoas de linhagens importantes simplesmente sumiam.

Todos acreditavam que tinham morrido.

Na verdade...

Tinham sido levadas pelos Coletores.

Aldren voltou a falar.

— Não desejamos guerra.

Entreguem Elara Ravencrest.

Entreguem Kael Draven.

E partiremos sem derramar uma única gota de sangue.

O silêncio tomou conta do vale.

Então, antes que qualquer líder pudesse responder, Kael caminhou até ficar ao lado de Elara.

Desembainhou lentamente a espada.

Olhou para Aldren.

Depois para todos os guerreiros reunidos.

E declarou com firmeza:

— Passei tempo demais permitindo que outras pessoas escolhessem por mim.

Isso termina esta noite.

Se querem chegar até Elara...

Terão de passar pelo Supremo do Norte primeiro.

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