Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs últimas palavras de Mirena permaneceram ecoando pelo vale.
"Nele está o rosto do verdadeiro assassino."
Ninguém disse nada.
O vento voltara a soprar entre as montanhas, carregando o perfume das árvores antigas e o som distante das pedras que ainda se desprendiam dos penhascos.
Elara apertou a espada da Lua Negra.
Seu coração batia acelerado.
Durante anos, acreditara que seu passado estava perdido para sempre.
Agora descobria que todas as respostas continuavam existindo.
Esperando por ela.
Bastava encontrar coragem para encará-las.
Mirena caminhou lentamente até seu lado.
— O Cofre Real foi criado para proteger mais do que riquezas.
Elara ergueu os olhos.
— O que existe lá dentro?
A sacerdotisa sorriu discretamente.
— Memórias.
Todos estranharam a resposta.
Lucien franziu a testa.
— Apenas memórias?
— As memórias mais importantes da nossa história.
Ela voltou-se para os demais.
— Durante séculos, cada rainha da Lua Negra registrava suas decisões naquele lugar.
Não eram livros.
Nem pergaminhos.
Eram lembranças preservadas exatamente como aconteceram.
Aiden completou:
— Nenhuma delas pode ser alterada.
Nenhuma pode ser manipulada.
Por isso Aurora escolheu o Cofre.
Ela sabia que, um dia, alguém tentaria reescrever a história.
Seraphine respirou aliviada.
— Então ainda existe uma prova.
— Sim.
Mirena confirmou.
— E ela jamais poderá ser destruída.
Cassian permaneceu em silêncio.
Seu olhar estava distante.
Selene percebeu.
— Está lembrando daquele dia.
Ele respondeu sem esconder o cansaço.
— Estou tentando.
Quanto mais penso...
Mais percebo que existem lacunas nas minhas lembranças.
Mirena fechou os olhos.
— Porque elas foram roubadas.
Todos voltaram a encará-la.
— Existe uma magia muito antiga chamada Véu do Esquecimento.
Ela não cria falsas memórias.
Ela apaga partes da verdade.
Nythar soltou um longo suspiro.
— Eu deveria ter percebido.
Mirena assentiu.
— Não havia como.
Quem sofre essa magia continua acreditando que se lembra de tudo.
Só descobre o vazio quando encontra uma lembrança verdadeira.
Kael sentiu um aperto no peito.
Diversas conversas com seu pai começaram a surgir em sua memória.
Frases interrompidas.
Avisos incompletos.
Perguntas que nunca receberam resposta.
Talvez...
Sua família também tivesse sido vítima daquele feitiço.
Enquanto todos discutiam, Magnus permanecia alguns metros afastado.
Observava Cassian.
Algo o incomodava.
Desde a chegada de Selene, seu mestre já não parecia controlar a situação.
Durante décadas, Cassian sempre tivera respostas para tudo.
Agora demonstrava dúvidas.
Magnus aproximou-se discretamente.
— Mestre.
Cassian não desviou o olhar das montanhas.
— Diga.
— O senhor realmente não matou Aurora?
Cassian respondeu sem hesitar.
— Não.
Magnus abaixou a cabeça.
— Passei toda a vida acreditando nisso.
— Eu também deixei que acreditasse.
O comandante ergueu os olhos.
Confusão misturava-se à decepção.
— Por quê?
Cassian finalmente olhou para ele.
— Porque eu precisava que meus soldados me seguissem.
Magnus respirou fundo.
— Então fui usado.
Cassian não tentou negar.
— Sim.
A sinceridade doeu mais do que qualquer mentira.
Magnus deu um passo para trás.
Desde que jurara lealdade à Ordem da Lua Rubra, uma dúvida verdadeira nasceu dentro dele.
E se todo aquele caminho tivesse sido construído sobre enganos?
Selene caminhava sozinha próximo ao lago.
Elara aproximou-se.
As duas permaneceram alguns instantes observando a água.
Foi Elara quem iniciou a conversa.
— Posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Você realmente foi rainha?
Selene sorriu.
— Fui escolhida para ser.
Mas nunca aceitei esse título.
Elara franziu a testa.
— Igual à minha mãe.
Selene confirmou.
— A história costuma repetir alguns caminhos.
Ela abaixou a mão e tocou a superfície do lago.
Pequenas ondas espalharam-se.
— Eu liderava o Clã da Lua Sombria.
Não era um reino inimigo.
Era um reino irmão da Lua Negra.
Elara permaneceu em silêncio.
A revelação mudava completamente o que aprendera até então.
Selene continuou.
— Durante muito tempo existiram dois tronos.
A Lua Negra protegia o equilíbrio.
A Lua Sombria protegia os segredos.
Nythar aproximou-se.
Sua enorme sombra cobriu parte do lago.
— Até que o Oráculo semeou a desconfiança entre vocês.
Selene assentiu.
— Ele convenceu cada lado de que o outro preparava uma traição.
Lucien aproximou-se lentamente.
— Então nunca existiu uma guerra entre o bem e o mal.
— Não.
Respondeu Selene.
— Existiu uma guerra entre pessoas que acreditavam estar fazendo a coisa certa.
O peso daquela frase caiu sobre todos.
Kael fechou os olhos.
Era exatamente o que acontecera com ele.
Mirena desenhou um mapa sobre a terra usando a ponta do cajado.
Todos se reuniram ao redor.
— O Cofre Real fica abaixo destas montanhas.
Mas o caminho antigo desabou durante o ataque ao palácio.
Cedric observou atentamente.
— Existe outra entrada?
— Existe.
Muito mais perigosa.
Orion cruzou os braços.
— Quanto tempo levaremos?
— Dois dias.
Lucien olhou para o céu.
— Não temos dois dias.
Mirena concordou.
— Por isso precisaremos atravessar o Desfiladeiro das Ecos.
Seraphine empalideceu.
— Aquela região continua amaldiçoada.
— Continua.
Respondeu Nythar.
— E continua protegida pelos Sentinelas de Pedra.
Kael olhou para Mirena.
— Quantos são?
Ela sorriu sem humor.
— Ninguém sabe.
Porque quase ninguém voltou de lá.
Cedric respirou fundo.
— Ótimo.
Mais uma missão impossível.
Orion deu uma leve cotovelada nele.
— Você reclama demais.
— Reclamo porque gosto de continuar vivo.
Até Lucien deixou escapar um discreto sorriso.
A tensão diminuiu por alguns instantes.
Era a primeira vez em muitos anos que guerreiros de antigas facções conversavam sem tentar se matar.
Enquanto isso, escondido atrás das árvores, uma figura observava toda a movimentação.
Não era Magnus.
Nem algum soldado da Lua Rubra.
Usava uma capa cinzenta.
Seu rosto permanecia completamente oculto.
Em sua mão havia um pequeno espelho negro.
A superfície refletia apenas fumaça.
Uma voz surgiu do outro lado.
— Eles descobriram o caminho?
A figura respondeu:
— Sim.
— Ótimo.
Continue acompanhando o grupo.
Não interfira.
Ainda.
— Como desejar.
A comunicação terminou.
O homem fechou lentamente o espelho.
Depois voltou a observar Elara.
Havia curiosidade em seu olhar.
Não ódio.
Não ambição.
Como se tentasse decidir de que lado realmente deveria ficar.
Pouco antes do pôr do sol, Mirena reuniu todos novamente.
— Partiremos ao amanhecer.
Ninguém contestou.
Os guerreiros começaram a organizar o acampamento.
Desde o início daquele conflito, soldados do Norte, do Oeste e da Lua Negra dividiram a mesma fogueira.
Conversavam com cautela.
Ainda havia desconfiança.
Mas a hostilidade começava a desaparecer.
Kael caminhou até Lucien.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.
Então Kael estendeu a mão.
— Ainda não mereço sua confiança.
Mas quero impedir que mais pessoas morram por causa das mentiras que nos dividiram.
Lucien olhou para a mão estendida.
Depois para Elara, que conversava com Mirena alguns metros adiante.
Por fim, apertou a mão de Kael.
— Não faço isso por você.
Faço por ela.
Kael assentiu.
Era mais do que esperava.
Ao longe, Elara observou o gesto.
Não sorriu.
Ainda existiam feridas profundas entre ela e Kael.
O perdão não nasceria de um simples aperto de mãos.
Seria uma estrada longa.
E ambos sabiam disso.
Quando a noite finalmente cobriu o vale, Nythar ergueu a cabeça em direção às montanhas.
Suas pupilas estreitaram-se.
Ele farejou o vento.
Algo havia mudado.
O dragão virou-se imediatamente para Mirena.
— Temos companhia.
A sacerdotisa segurou o cajado com força.
— Quantos?
Nythar permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu em voz baixa:
— Não são soldados.
São caçadores.
E eles não vieram atrás da Coroa.
Vieram atrás dos descendentes das antigas linhagens.
Incluindo Elara... e Kael.







