Saulo Prado
Mantive a postura rígida, os ombros retos, a toga pesada sobre o corpo, mas por dentro, meu mundo estava em desalinho. A sala parecia existir em duas dimensões: a formalidade do tribunal e a presença dela, que transformava cada som, cada gesto em uma faca cravada no peito.
As testemunhas da parte reclamante já haviam saído, e agora a defesa se levantava para apresentar suas alegações finais. Eu deveria ouvir atentamente, tomar notas, analisar cada argumento, mas minha atenção se recusava a se fixar nos papéis. Meu olhar procurava apenas um ponto, ela. Angelina. A mulher que eu ainda amo, que eu ainda desejo, e que eu havia deixado ir.
Ela estava sentada, mas firme, elegante, com a mão esquerda apoiada na mesa.
A aliança dourada brilhava sob a luz fria da sala. Aquilo foi como um soco, como ela pôde? Eu que deveria ter colocado uma aliança naquele dedo.
O símbolo de tudo que eu havia perdido, de tudo que não tinha ousado enfrentar nos últimos seis anos.
Quando ela falou, m