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Capítulo 4 – O contrato

Maya sentiu o ar sumir dos pulmões. Por um instante, teve certeza de que tinha ouvido errado.

— Casar… no lugar da sua filha? — repetiu, a voz falhando.

A sala estava silenciosa. O relógio na parede marcava o tempo em segundos pesados. O senhor e a senhora Hayes a observavam com atenção, como se estivessem analisando cada reação dela.

— Exatamente — respondeu o senhor Hayes, sem rodeios. — O casamento da nossa filha com Josh Kameron já está marcado. Data, local, contrato entre as famílias, tudo. Não pode ser cancelado sem consequências graves.

A senhora Hayes cruzou as pernas, ajeitando a saia impecável.

— Elizabeth… tomou uma decisão impulsiva — disse, com um leve tremor na voz. — Ela fugiu. Não temos como trazê-la de volta a tempo. Mas podemos substituir a noiva.

Maya continuava imóvel na poltrona, como se o corpo inteiro tivesse travado.

— Mas… o que isso tem a ver comigo? Eu não entendo.

O senhor Hayes se inclinou um pouco para frente.

— Tem a ver com o fato de que você é praticamente idêntica à nossa filha. Mesma idade, traços muito parecidos. Para o mundo, é perfeitamente plausível que você seja uma filha… adotiva.

Maya negou com a cabeça, instintivamente.

— Não… isso não faz sentido. Eu não faço parte da família de vocês. Eu tenho meus pais, eu tenho minha vida…

A senhora Hayes respirou fundo, tentando manter a calma.

— Nós não estamos pedindo que você abandone sua família, Maya. Estamos oferecendo… uma troca. Você se tornaria nossa filha adotiva aos olhos da sociedade. Em documentos, em registros. Oficialmente.

Ela engoliu em seco.

— E por que fariam isso? Por que escolheriam uma desconhecida?

— Porque precisamos de você — o senhor Hayes respondeu, com firmeza. — E você precisa de nós.

Ele fez um gesto discreto para Helena, que estava ao lado, em pé, com uma pasta nas mãos. A secretária se aproximou e entregou os documentos sobre a mesa.

— Em troca — continuou ele, abrindo uma folha — vamos pagar todas as dívidas da sua família. As despesas do hospital, o tratamento completo da sua mãe, a regularização das contas atrasadas. E ainda garantiremos um valor mensal para manutenção de vocês.

Maya sentiu o coração disparar.

Tratamento completo da mãe.

Dívidas pagas.

Segurança.

Palavras que ela não ouvia há muito tempo. Mas o peso da proposta era grande demais.

— Isso é… mentira — ela sussurrou, a voz embargada. — Eu estaria enganando outra família. Enganando o homem com quem vou me casar. Eu… eu não sou Elizabeth. Eu nunca fui uma Hayes.

O silêncio ficou mais denso. O senhor Hayes a encarou com frieza.

— Pense nisso como um acordo — disse, enfim. — Todos ganham. Ninguém precisa saber dos detalhes.

Ele puxou um novo documento, mais grosso, com várias páginas, e o deslizou pela mesa até ficar diante dela.

— Um casamento por contrato.

Maya sentiu as mãos ficarem geladas. Ela olhou para o papel, mas as letras pareciam embaralhadas. Ainda assim, algumas coisas se destacavam: números, muitos zeros, cláusulas, prazos.

— Leia a parte dos valores — sugeriu o senhor Hayes, como se aquilo fosse a chave para todas as dúvidas.

Com a mão tremendo, ela focou na quantia oferecida. Era mais dinheiro do que ela já tinha visto na vida. Mais do que sua família conseguiria juntar em anos de trabalho.

Imagens começaram a passar pela cabeça dela, rápidas demais… a mãe no leito do hospital, o pai discutindo com o cobrador na porta de casa, as contas jogadas sobre a mesa da cozinha, o rosto cansado dele tentando esconder o desespero.

— Isso pagaria tudo… — ela sussurrou, quase sem perceber que tinha falado em voz alta.

— Pagaria — confirmou o senhor Hayes. — E garantiria um futuro melhor para seus pais.

Maya fechou os olhos por um segundo.

— E se ele descobrir que eu não sou uma Hayes? — perguntou, abrindo os olhos de novo, encarando diretamente o casal à frente.

A senhora Hayes, que até então mantinha uma expressão contida, se inclinou ligeiramente.

— Ele não descobrirá — disse, com segurança que parecia ensaiada. — Vamos acrescentar nosso sobrenome aos seus documentos nos próximos dois dias. Registro atualizado, certidão, tudo. Quando o casamento acontecer, você será, oficialmente, Maya Hayes.

— Isso é falsificação… — Maya rebateu, num último fio de consciência.

— Isso é adoção — corrigiu o senhor Hayes, com frieza. — Ajuste de realidade. Você terá um novo sobrenome, uma nova história contada ao público. Para todos os efeitos, será nossa filha adotiva, criada com discrição. Não terá com o que se preocupar.

Maya olhou para ele, em choque.

— E sua filha verdadeira? — perguntou, sem conseguir segurar. — Elizabeth. Vocês… vocês vão simplesmente substituir ela?

Um silêncio desconfortável encheu a sala. A senhora Hayes desviou o olhar por um instante.

— Elizabeth fez uma escolha — respondeu, por fim. — Uma escolha que colocou tudo o que construímos em risco. Nós estamos apenas tentando salvar o que resta.

— A empresa está à beira da falência — completou o senhor Hayes, mais seco. — Sem o apoio dos Kameron, perdemos contratos, credibilidade, investidores. Este casamento não é apenas uma cerimônia romântica, senhorita Maya. É um pilar de sobrevivência.

As palavras dele pareciam atravessar o peito de Maya. Ela não era ingênua. Sabia que o mundo dos ricos funcionava com interesses, acordos, jogos de poder. Mas nunca tinha imaginado ser arrastada para dentro disso.

— E eu? — perguntou, com a voz embargada. — O que acontece comigo depois? Eu vou ter que… viver como se fosse outra pessoa, uma Hayes. Casar com um homem que nem conhece meu sobrenome de verdade. Fingir que sou alguém que não sou.

— Você terá uma vida que nunca poderia imaginar — a senhora Hayes disse, tentando soar mais suave. — Conforto, estabilidade, respeito. E sua família ficará protegida.

— Protegida… em troca de uma mentira — Maya retrucou, sentindo o peito apertar.

Helena, que acompanhava tudo em silêncio, a observava com um misto de pena e profissionalismo.

— Você não será a primeira nem a última pessoa a entrar em um casamento por conveniência — disse o senhor Hayes. — A diferença é que, no seu caso, a recompensa é alta.

Maya abaixou o olhar para o contrato de novo. As linhas escritas pareciam mais pesadas agora.

Ela imaginou a mãe abrindo os olhos aliviada, ouvindo que o tratamento estava garantido. Imaginou o pai respirando mais tranquilo, sem ter que atender ligações de cobradores todos os dias. Imaginou a pequena casa deles sem o fantasma constante das dívidas.

A garganta dela ardeu.

— Eu preciso… falar com meus pais — disse, num impulso.

A senhora Hayes balançou a cabeça, num gesto lento.

— Não pode.

Maya arregalou os olhos.

— Como assim, não posso?

— Se contar a verdade a eles, corre o risco de alguém falar demais — explicou o senhor Hayes. — E este acordo depende do sigilo absoluto. Você poderá dizer que conseguiu um emprego importante, que vai morar em outro lugar, que o salário será alto. Isso não é mentira. Mas não pode contar sobre o casamento por contrato, nem sobre a troca de identidade.

As palavras bateram nela como um balde de água fria. Além de tudo, teria que carregar esse segredo sozinha.

— Isso é errado — ela disse, quase num sussurro. — Tudo isso é errado.

— O mundo nem sempre é justo, Maya — respondeu a senhora Hayes, com um olhar cansado, mas firme. — Às vezes, escolhemos entre dois erros. E você, mais do que ninguém, sabe que sua família não tem tempo para esperar um milagre.

O silêncio voltou a tomar conta da sala.

Maya sentiu o coração bater alto no peito. Uma parte dela queria levantar, sair correndo daquela mansão e nunca mais olhar para trás. Outra parte, porém, lembrava da mãe segurando a dor para não preocupar a filha, do pai se culpando por não poder trabalhar, da sensação de impotência que a acompanhava todos os dias.

Ela ficou ali, encarando o contrato, por longos minutos. O ponteiro do relógio continuava se movendo, indiferente à vida que estava prestes a mudar.

— Se eu assinar… — começou, com dificuldade — vocês realmente vão pagar tudo? Não é um jogo?

— Não é um jogo — garantiu o senhor Hayes. — Temos muito a perder para brincar com isso. Tudo o que está escrito aí será cumprido.

— E o… ele? — ela perguntou, referindo-se, pela primeira vez, ao noivo que não conhecia. — Josh Kameron. Ele não vai ser consultado?

— Ele sabe que é um casamento arranjado — o senhor Hayes respondeu. — Para ele, tanto faz ser uma ou outra. Não é um homem que se case por amor.

Maya sentiu um arrepio percorrer a espinha ao ouvir aquilo. Um casamento por interesse. Com um homem frio. Em um papel que não era dela. Ela respirou fundo, sentindo o peito doer.

— E se… — tentou mais uma vez — se alguma coisa der errado?

A senhora Hayes respondeu com calma:

— Não vai dar.

Maya encarou os dois, um de cada vez. O olhar calculista do senhor Hayes. A expressão cansada, mas decidida, da senhora Hayes. O silêncio atento de Helena.

Então, pensou em tudo o que deixaria de fazer se dissesse “não”. A voz saiu quase como um sopro.

— Eu… aceito.

Assim que disse as palavras, sentiu como se tivesse assinado algo invisível dentro de si. Um acordo com o próprio destino.

O senhor Hayes assentiu, satisfeito.

— Ótimo.

A senhora Hayes respirou aliviada, mas seu olhar tinha algo mais profundo. Talvez culpa. Talvez medo.

— Vamos preparar tudo — ela disse, levantando-se com elegância. — A partir de hoje, Maya, você começará a se tornar… nossa filha.

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