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Capítulo 5 – O casamento que ninguém queria

O grande dia chegou mais rápido do que Maya esperava. Parecia que, desde o momento em que disse “eu aceito” na mansão Hayes, o tempo tinha apertado o passo de propósito, empurrando-a para um destino que não era o dela.

O casamento seria em um hotel luxuoso, um daqueles que ela só via em revistas ou em reportagens de TV. Fachada imponente, tapete vermelho na entrada, seguranças de terno, carros caros parando um atrás do outro. Empresários, políticos, herdeiros e socialites entravam sorrindo, com taças de champanhe na mão, como se aquele fosse o evento mais esperado do ano.

Para eles, era apenas mais uma aliança poderosa sendo firmada.

Para Maya, era o fim da vida que conhecia.

Nos bastidores, em uma suíte reservada para a noiva, ela estava sentada diante de um espelho enorme, enquanto duas maquiadoras e uma cabeleireira se revezavam em volta dela. Pincéis, sprays, batons, sombras. Tudo muito bonito, muito caro… e muito distante da sua realidade.

Maya olhou o próprio reflexo… pele preparada, olhos marcados, lábios em um tom suave. O cabelo preso em um penteado elegante, com alguns fios soltos de propósito, como se a perfeição também tivesse charme em ser “natural”.

Por fora, ela parecia exatamente o que esperavam. Por dentro, era só uma menina assustada. A maquiadora inclinou a cabeça, avaliando o resultado.

— Você ficou linda — disse, sincera. — Mas parece nervosa.

As mãos de Maya estavam tremendo sobre o colo.

— Acho que qualquer noiva ficaria — ela respondeu, forçando um sorriso.

A maquiadora riu de leve.

— Ficar nervosa é normal. Quer dizer que é importante.

Maya abaixou os olhos. Importante, sim. Mas não pelos motivos certos.

Ela não era Elizabeth. Não era a filha verdadeira daquela família que todos achavam que ela representava. Ela era a substituta. A sombra. O remendo.

Uma das mulheres entrou com o vestido de noiva cuidadosamente pendurado, protegido por uma capa de tecido.

— Está pronto.

Maya ficou de pé, sentindo o coração acelerar. As mãos agarraram o tecido quando ela começou a se despir para vestir o vestido. Era um modelo elegante, ajustado na cintura, com uma saia que caía de forma fluida até o chão. Nada exagerado, mas claramente caro.

Enquanto fechavam cada botão nas costas, ela pensou na mãe.

— “Eu vou pagar tudo. Eu prometo.”

A lembrança da mãe sorrindo, mesmo fraca, foi o que impediu as lágrimas de caírem ali mesmo.

Quanto terminou de se arrumar, a senhora Hayes entrou na suíte. Estava impecável, com um vestido escuro e joias discretas. Olhou para Maya de cima a baixo, avaliando.

Por um segundo, algo como remorso passou pelo olhar dela. Mas sumiu rápido.

— Você está perfeita — disse.

Maya engoliu em seco.

— Eu… espero não decepcionar.

A senhora Hayes se aproximou e ajeitou um fio de cabelo que já estava no lugar.

— Você não pode decepcionar — respondeu, num tom que era mais aviso do que conforto. — Lembre-se, a partir de hoje, você é uma Hayes. A filha adotiva que mantivemos longe dos holofotes. Se alguém perguntar, foi criada em internatos, sempre discreta. Sem escândalos.

— E se alguém desconfiar? — Maya perguntou, baixinho.

— Não vão — a mulher devolveu. — A família Kameron não está interessada em detalhes. Eles querem uma Hayes no altar. Você vai estar lá.

Maya respirou fundo. Queria dizer que aquilo ainda parecia muito errado. Mas cada vez que pensava em recuar, via o rosto da mãe, a postura curvada do pai, as contas amontoadas.

Não havia mais volta.

Do outro lado do hotel, o salão principal estava pronto. Flores brancas decoravam o caminho até o altar, as cadeiras estavam alinhadas, o piano tocava uma música suave. Os convidados conversavam em voz baixa, comentando negócios, ações, fusões. O casamento era só mais um tópico no meio de tantos.

Na frente, perto do altar, estava a família Kameron.

O pai de Josh conversava com alguns empresários. A mãe dele mantinha o queixo erguido, o olhar atento a tudo. Para eles, o casamento era um movimento estratégico, uma forma de honrar uma parceria antiga com os Hayes.

A troca de noiva? Uma questão irrelevante, que já tinha sido “resolvida” em conversas discretas.

— O importante é que ele se case com uma Hayes — o pai de Josh tinha dito, dias antes. — O resto é detalhe.

E agora, ali estava Josh, parado diante do altar, usando um terno perfeitamente cortado, o olhar frio. Ele parecia completamente à vontade naquele ambiente luxuoso, como se tivesse nascido sobre aquele tipo de tapete, sob aquela luz.

Por dentro, porém, ele apenas contava os minutos para aquilo acabar.

— “Mais um contrato” — repetia mentalmente.

Nada além disso.

Quando a música mudou e as portas do salão se abriram, todos se viraram ao mesmo tempo.

Maya surgiu na entrada, segurando o buquê com tanta força que os dedos quase ficaram brancos. O véu caía delicado sobre o rosto, mas não escondia completamente seus traços.

Ela sentiu dezenas de pares de olhos pousando nela. A cada passo, o coração batia mais forte.

— “Não tropeça. Não chora. Só anda.”

Josh, ao vê-la pela primeira vez, estreitou os olhos ligeiramente. Não demorou para perceber o óbvio, ela não era a mulher com quem tinha visto fotos nos documentos e apresentações anteriores.

Mas era incrivelmente parecida.

Do ponto de vista dos outros, aquilo passaria sem questionamentos. Para ele, no entanto, havia algo errado.

Ela se aproximou, passo a passo, até parar ao lado dele. Quando o véu foi puxado para trás, seus olhares se encontraram.

Os olhos de Josh mostravam apenas frieza. Não havia curiosidade, nem gentileza, muito menos carinho. Era o olhar de alguém que já estava cansado de joguinhos e mentiras.

Maya tentou manter a postura.

— “Lembra da sua mãe. Lembra do hospital. Lembra das dívidas.”

O padre começou a falar, mas as palavras pareciam distantes, como se viessem debaixo d’água. Maya ouvia algumas coisas: “união”, “aliança”, “famílias”, “compromisso”. Nada que tivesse a ver com amor.

Em um momento, enquanto todos prestavam atenção no discurso, Josh inclinou levemente o corpo, aproximando a boca do ouvido dela.

— Não sei qual jogo sua família está jogando… — sussurrou, em voz baixa e cortante — mas não espere nada de mim.

Maya ficou gelada. Ele continuou:

— Se houver sexo, será apenas pela pressão dos velhos querendo um neto. Então nem encoste em mim na cama.

Ela engoliu seco, o impacto das palavras atingindo fundo. Queria responder que não tinha sido ela quem armou aquele teatro. Queria dizer que também estava presa ali, que também era só um peão naquele jogo. Mas não podia explicar. Não podia contar a verdade.

Ainda assim, não deixou que a voz falhasse quando respondeu, sem desviar os olhos do padre:

— Eu não espero nada… nem o sexo.

Josh lançou um olhar rápido de lado, como se não esperasse aquela firmeza e frieza. O padre, alheio à troca de farpas, seguiu com a cerimônia.

— Josh Kameron, você aceita Maya Hayes como sua legítima esposa? Promete respeitá-la, honrá-la, na alegria e na tristeza…?

O salão inteiro pareceu prender a respiração. Até as paredes pareciam ouvir a resposta. Josh manteve o rosto sério, o olhar firme.

— Aceito — disse, sem emoção.

Não era um “sim” de quem sonhava com aquele momento. Era apenas o cumprimento de uma obrigação. Assinatura verbal de um contrato.

Chegou a vez dela.

Maya sentiu o coração apertar como se estivesse sendo espremido por dentro. As mãos suavam, o buquê parecia mais pesado.

— “Se você disser não, tudo acaba. E com tudo, acaba a chance da sua mãe.”

Ela fechou os olhos por um segundo. Viu a imagem da mãe sorrindo, mesmo com dor, dizendo:

— “Vou rezar para sua entrevista dar certo”.

Viu o pai, humilhado, pedindo mais prazo para pagar uma conta que não podia pagar. Quando abriu os olhos, a decisão já estava feita.

— Maya Hayes, você aceita Josh Kameron como seu legítimo esposo? Promete respeitá-lo, honrá-lo, na alegria e na tristeza…?

A voz dela saiu baixa, mas firme.

— Aceito.

O padre sorriu, satisfeito, sem imaginar a complexidade daquelas respostas. Alguns instantes depois, as alianças foram trazidas. Josh pegou a dela, colocou no dedo anelar com um gesto mecânico, quase automático. Em seguida, ela fez o mesmo com a dele, sentindo o metal frio na pele quente.

— Declaro vocês marido e mulher — anunciou o padre. — Podem se beijar.

Um breve silêncio se instalou.

Josh se inclinou, tocou os lábios nos dela por poucos segundos, um gesto formal, vazio, quase impessoal. Não havia carinho, nem pressa, nem vontade. Era apenas uma etapa cumprida diante das câmeras e dos convidados.

Os aplausos encheram o salão.

Para os outros, era um momento emocionante, bonito, simbólico. Para eles dois… era um acordo selado.

Sem amor.

Sem juras verdadeiras.

Apenas um contrato.

Quando começaram a caminhar juntos pelo corredor, sob os olhares de todos, Maya percebeu uma coisa que a deixou com um frio na barriga.

A partir daquele momento, ela pertencia a um mundo que não era o dela. Um mundo de sobrenomes pesados, interesses escondidos, alianças poderosas… e um marido que tinha deixado claro, no próprio altar, que não a queria.

Ela apertou o buquê mais forte.

— “Eu não estou aqui por mim” — repetiu mentalmente. — “Estou aqui por eles.”

Mas, no fundo, uma parte dela sabia. Ninguém sai ileso de um casamento como aquele.

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