Capítulo 3 — O Cheiro da Minha Ruína

(POV ADRIEN BLACKWOLF)

— Está tudo bem aqui, senhora? Ele está machucando você?

O policial estava com a mão no coldre, os olhos fixos em mim. Eu sentia o peso de Celina sobre o meu ombro, o corpo dela retesado como uma corda prestes a estourar.

Abraxas rugiu dentro de mim. Meu lobo queria saltar, rasgar a garganta daquele oficial por ousar questionar minha autoridade.

— Não, oficial... — a voz de Celina saiu abafada contra as minhas costas. — Eu só... tropecei. Ele está me ajudando.

Mentirosa. Uma mentira doce que me salvou de uma dor de cabeça burocrática.

O policial hesitou, mas recuou.

Caminhei até o SUV, abri a porta do banco do carona e a joguei no banco de couro como se fosse um saco de batatas.

Ela caiu de qualquer jeito, abraçada a duas sacolas de papel pardo que cheiravam a pão fresco e farinha. Um cheiro humilde que não combinava com o luxo do meu carro.

— Seu grosso! — ela sibilou. Bati a porta sem responder.

Contornei o SUV e assumi o volante. O silêncio na cabine era tão denso que eu podia ouvir a respiração descompassada dela.

Arranquei, os pneus fritando no asfalto.

Pelo canto do olho, vi que ela não se mexia.

Continuava encolhida, os nós dos dedos brancos de tanto apertar as sacolas de comida. A única coisa que ela tinha no mundo cabia em dois sacos de padaria.

"O Gama Supremo é cego, ou apenas não é homem o suficiente para satisfazer sua esposa...?"

A frase dela, dita naquela cozinha, voltou como um chicote.

Abraxas deu um solavanco dentro de mim. Meus dedos apertaram o couro do volante até as costuras cederem.

Aquela ômega insignificante tinha ousado questionar minha virilidade. Tinha esfregado na minha cara que eu estava sendo traído sob o meu próprio teto.

A fúria gelada começou a queimar. Eu não estava indo para aquela pousada apenas para ver a traição. Eu estava indo para provar que ela estava errada.

Para provar que eu era homem o suficiente para destruir qualquer um que tocasse no que é meu.

— Olha, eu precisava de uma mala... com minhas roupas, isso está parecendo um sequestro — ela murmurou.

— Eu compro tudo novo para você. Roupas, malas, o que você quiser. Apenas coloque o cinto e cale a boca.

Minha voz saiu como um estalo de chicote, fria e definitiva.

Não desviei os olhos da estrada. Eu não podia. Se eu olhasse para o lado, para aquela ômega quebrada e insolente, temia que Abraxas perdesse o pouco de civilidade que me restava.

Seriam longas horas de viagem até o chalé na fronteira da alcateia.

Cada segundo seria a minha tortura pessoal.

O espaço fechado do carro foi invadido pelo cheiro dela. Sem aviso. Sem piedade.

Canela e chocolate.

O cheiro da minha ruína.

Minha pele queimava sob o tecido caro do terno. Estalei o pescoço, sentindo a tensão se acumular na base do meu crânio.

“Eu sou um Gama de comando. Essa mulher não tem nada de mais. Controle-se, Adrien.”

Repeti as palavras para mim mesmo como um mantra que eu dominava há muito tempo.

Celina era uma desconhecida. Uma ninguém.

Ela não significava nada além de uma pulga que me irritava sob a pele.

Mas acabar com a imagem que ela tinha daquele Zetha inferior me faria extremamente satisfeito.

Eu queria ver o momento exato em que a esperança morreria nos olhos dela.

O velocímetro subia enquanto a escuridão da estrada nos engolia. 140... 160...

Ao meu lado, ela permanecia em silêncio, mas o cheiro de canela continuava chicoteando meus instintos.

Apertei o volante com tanta força que o couro gemeu sob meus dedos. Meu maxilar trincou.

— Por que está fazendo isso, Adrien? — ela perguntou horas depois, a voz quase sumindo no ronco do motor.

— Porque a verdade é a única coisa que vai te libertar desse lixo, Celina. E porque eu quero que você veja quando eu arrancar a pele dele.

O tempo passou devagar, marcado apenas pelo ronco do motor e pelo silêncio pesado.

Aos poucos, a respiração de Celina mudou. Ficou pesada, rítmica.

Ela havia se rendido à exaustão.

Olhei de canto de olho. Jamais de frente. Eu me recusava a dar a ela a importância de um olhar direto.

Ela parecia desfeita.

A viagem longa e o estresse dos últimos dias cobraram o preço. Ela estava amarrotada, o rosto pálido e os olhos fundos, circulados por olheiras escuras.

Era quase uma humana. Tão frágil que parecia que eu poderia quebrá-la apenas com um pensamento mais brusco.

O cabelo dela caía sobre o rosto, e o cheiro de canela se tornava mais doce com o calor do corpo dela em repouso.

Apertei o volante. O mantra falhava.

Horas depois, os pneus finalmente morderam o cascalho da pousada isolada.

As luzes da recepção brilhavam fracas entre os pinheiros. Estacionei sob a luz de um poste solitário e desliguei o motor.

O silêncio caiu como uma mortalha.

Celina continuava dormindo. A cabeça dela pendia levemente para o lado, a boca entreaberta em um suspiro silencioso.

Eu poderia ter gritado. Poderia ter batido na porta para acordá-la com um susto.

Mas eu era um Blackwolf. E um Blackwolf nunca perdia a compostura.

Saí do carro em silêncio. O frio da madrugada cortou meu rosto, mas não arrefeceu o calor que o cheiro dela havia acendido no meu sangue.

Contornei o capô do SUV com passos medidos.

Abri a porta do carona com cuidado.

A luz interna do carro acendeu, revelando a crueza da sua beleza destruída.

Ela não acordou.

Inclinei-me sobre ela, mantendo o olhar fixo no painel do carro, recusando-me a olhar para o seu rosto de verdade.

Puxei o cinto de segurança devagar. O clique do metal ecoou na noite.

— Acorde, Celina — murmurei perto do seu ouvido, minha voz um rosnado baixo e educado. — Chegamos.

Ela deu um sobressalto, os olhos abrindo-se em pânico antes de encontrarem os meus que eu desviei no mesmo instante.

— Onde... — ela ganiu, tentando se situar.

— Saia do carro — ordenei, estendendo a mão para ajudá-la a descer, um gesto automático de cavalheirismo que eu executava com o desprezo de quem entrega uma esmola.

Ela tocou minha mão e o choque elétrico quase me fez recuar.

Celina vacilou ao tocar o chão, as pernas bambas pela viagem.

Observei-a apenas pela visão periférica enquanto fechava a porta. Ela estava um caco.

— Eu não consigo fazer isso... — ela sussurrou, olhando para a pousada.

— Você vai conseguir. Você vai entrar lá e vai olhar para eles.

A recepção da pousada cheirava a madeira velha e fumaça de lareira.

O recepcionista, um beta magro e sonolento, levantou os olhos quando entrei.

Minha presença costumava esvaziar o oxigênio de qualquer sala. O homem empalideceu instantaneamente.

— Pois não, senhor... — ele gaguejou, ajeitando os óculos.

— Chalé sete — soltei. Minha voz era calma, polida e perigosa. — Quero a chave mestre. Agora.

— Senhor, eu não posso... a privacidade dos hóspedes é nossa prioridade...

Aproximei-me do balcão, mantendo a postura ereta e as mãos relaxadas ao lado do corpo.

O cheiro de medo do beta era enjoativo.

— Eu sou Adrien Blackwolf. Aquela mulher que entrou com o sujeito no chalé sete é minha esposa.

Apontei para Celina com um gesto de cabeça. Ela estava parada perto da porta, parecendo uma alma penada sob a luz amarelada.

— E o homem com quem ela está... bem, digamos que ele está em posse de algo que me pertence.

O recepcionista olhou para mim, depois para Celina. Ele reconheceu o nome. Reconheceu o poder.

Ele sabia que eu não estava ali para pedir um favor, mas para exercer um direito.

— É claro, Comandante... perdoe-me. Um momento.

Ele pegou uma chave de metal pesada em um quadro atrás do balcão. Suas mãos tremiam tanto que o metal tilintou contra a madeira.

Peguei a chave da mão dele com a ponta dos dedos, mantendo a etiqueta de um lorde.

— Se alguém ligar para o quarto, se alguém avisar que estou subindo... eu voltarei aqui para cuidar de você pessoalmente. Fui claro?

— S-sim, senhor. Perfeitamente.

Girei o corpo e parei diante de Celina.

A fragilidade dela me irritava tanto quanto me atraía. Eu odiava o fato de que ela estava desmoronando e eu era o único ali para segurar os pedaços.

— Vamos — ordenei, sem tocá-la novamente.

O vento frio da noite nos atingiu quando saímos para a trilha de pedra.

O Toyota medíocre de Oliver estava parado logo à frente, uma mancha de mediocridade naquele cenário de luxo rústico.

Parei diante da porta do número sete.

O som de risadas abafadas e música suave vinha de dentro. O som da minha desonra.

Senti o estalo de ossos na minha mandíbula. Abraxas estava pronto para matar.

— Abra a porta, Celina — sibilei, entregando a chave a ela.

Eu não olhei para ela. Encarei a madeira da porta, esperando que ela tivesse a coragem que eu precisava que ela tivesse.

— O palco é seu. Olhe para a ruína que você chamava de amor.

A chave de metal tilintou na mão trêmula de Celina. Ela parecia uma boneca de porcelana prestes a estilhaçar contra o cascalho.

— O que... o que você vai fazer? — ela sussurrou, a voz morrendo no vento frio da montanha.

Eu não respondi com palavras.

O som veio primeiro: o estalo seco e violento dos meus ossos se expandindo. O couro das minhas luvas rangeu até ceder, rasgado pelas garras que emergiam, famintas.

Um sorriso sádico cortou meu rosto, e o brilho amarelo e doentio de Abraxas inundou o corredor escuro.

Celina deu um passo atrás, tremendo violentamente. O terror nos olhos dela era o combustível que meu lobo precisava.

Ela finalmente entendeu.

Eu não estava ali para observar a dor dela. Eu estava ali para o abate.

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