Capítulo 5 — Dignidade na Lixeira

(POV ADRIEN BLACKWOLF)

O som que vinha do quarto 102 era música para os meus ouvidos.

Não era um grito de dor física. Era o uivo de uma fêmea que acabara de descobrir que o útero era agora um túmulo.

Recostei-me na parede do corredor, cruzei os braços e respirei o ar impregnado de álcool e desespero. Se eu tivesse pipoca, eu me sentiria em um cinema.

Abraxas ronronava dentro de mim, saboreando cada nota aguda daquela agonia.

— Comandante, a paciente está... instável — uma enfermeira tentou me barrar.

Afastei a mulher com um olhar e escancarei a porta.

Victorie estava amarrada à cama por eletrodos, o rosto inchado, os olhos verdes como duas azeitonas amargas transbordando lágrimas.

— Você matou meu bebê! Seu maldito! Eu te odeio! — Ela gritou, o sotaque francês ficando carregado e sujo pela fúria.

Ela tentou avançar, as unhas arranhando os lençóis brancos, mas as enfermeiras a seguraram. Eu apenas ri. Uma risada seca, vinda do peito.

— Você matou seu próprio bastardo, Victorie — cuspi as palavras, aproximando-me da cama. — O trauma do seu pecado foi demais para ele. Você o profanou antes mesmo dele respirar.

Ela soluçou, um som quebrado que me trouxe um prazer sádico.

— Você é um monstro... — ela ganiu, enquanto uma enfermeira injetava um calmante no acesso dela.

— Eu sou o monstro que você escolheu trair — sibilei, observando os olhos dela pesarem sob o efeito da droga.

Virei as costas enquanto os gritos dela morriam em um murmúrio confuso.

Eu não ia ficar ali velando a recuperação de dois traidores. Meu tempo era caro demais para ser gasto com carcaças.

Fui até o quarto de Oliver, logo à frente.

Celina estava sentada em um banco de plástico, observando o marido através do vidro. Ela parecia uma estátua de sal, desmoronando silenciosamente.

Ignorei a presença dela por um momento. Um dos meus homens se aproximou e me entregou um tablet.

Voltei para o quarto de Victorie. Ela ainda estava consciente, lutando contra o sono químico.

— Assine — ordenei, jogando o tablet sobre o colo dela.

— Me deixa em paz, Adrien... — ela soluçou, a mão agarrando o lençol com força.

— Eu deixo você em paz quando você assinar o divórcio. Agora.

Ela não se moveu. A insolência ainda brilhava fracamente naquelas azeitonas verdes.

Inclinei-me sobre ela, o cheiro de hospital sendo sufocado pela minha presença dominante.

— Assine logo, Victorie. Se eu tiver que te obrigar, pode ter certeza de que não serei nada gentil.

Minhas garras roçaram a tela do tablet, um lembrete do que eu fiz com o amante dela horas atrás.

— Você quer sair daqui viva ou quer que eu termine o serviço que comecei no chalé?

As mãos dela tremeram. Com um soluço final, ela deslizou o dedo pela tela, selando o fim de qualquer vínculo entre nós.

Peguei o aparelho de volta. O contrato estava assinado. A conta estava paga.

Girei o corpo e saí para o corredor. Celina continuava lá, pequena e destruída.

Girei o corpo e saí para o corredor. Celina continuava lá, pequena e destruída contra a brancura estéril daquelas paredes.

— Acabou, Celina — parei diante dela, sem olhá-la diretamente. — Vamos embora daqui.

Ela levantou o rosto lentamente. O choque ainda estava estampado em suas feições, como uma máscara de vidro quebrado.

Eu sabia que ela era uma ômega fraca, mas esperava que o ódio servisse de âncora. Eu estava errado. Pensei que ela pudesse ser minimamente mais forte do que aquela carcaça oca que me encarava.

— Vamos embora — repeti, a voz subindo um tom.

Odeio me repetir. É um sinal de falha no comando.

Eu estava cercado de pessoas fracas, e o cheiro da fragilidade dela estava começando a me dar náuseas.

O rosto de Celina ainda estava marcado por lágrimas e manchas de sangue. Sangue de Oliver. Ela o tocou. Tentou socorrê-lo como uma cadela fiel após o dono a espancar.

Ele deveria estar em coma, ou pior. Eu não me importava. Não passaria mais um segundo respirando o mesmo ar que aqueles traidores.

— Eu... não vou sair. Ele precisa de mim — ela sussurrou.

Parei. O silêncio que se seguiu foi o estalo de um chicote.

Olhei para ela incrédulo, o sangue fervendo sob a pele do meu pescoço. Eu não podia estar ouvindo aquilo. Não era humanamente possível alguém ser tão patética.

— Você enlouqueceu? — Minha voz saiu baixa, vibrando com o rosnado de Abraxas.

Dei um passo em sua direção, invadindo o espaço dela até que ela fosse obrigada a recuar contra a parede fria.

— Não tem um pingo de dignidade dentro de você? — rosnei, a centímetros do rosto dela.

— O homem não precisa de você, porra! Ele estava trepando com a "melhor amiga" dele há menos de duas horas.

Apontei para a porta do quarto de Oliver, onde o som dos aparelhos de monitoramento era o único sinal de vida.

— E você quer ficar aqui? Quer lamber as feridas dele enquanto o cheiro do sexo de outra mulher ainda está na pele dele?

Encarei as mãos dela, sujas com o sangue do homem que a destruiu. Senti um nojo tão profundo que tive vontade de arrastá-la pelos cabelos para fora daquele hospital.

— Ele te jogou no lixo, Celina. E você está implorando para ser devolvida para a lixeira.

Abraxas arranhou meu peito. A vontade de quebrar algo, ou alguém, era quase incontrolável.

— Saia dessa parede agora. Ou eu juro pelos meus ancestrais que te deixo aqui para apodrecer junto com ele.

Eu não ia mais perder meu tempo com palavras.

Agarrei o braço dela com a força de uma tenaz de ferro, disposto a arrastá-la para fora daquele antro de mediocridade.

Mas Celina reagiu. Com um movimento brusco e desesperado, ela arrancou o braço da minha mão.

— Adrien, eu sei que você não sabe o que é isso, mas o Oliver é meu mundo todo... — ela engoliu em seco, um som doloroso que ecoou no corredor vazio.

Os olhos dela estavam injetados, vermelhos de tanto chorar, a sanidade pendendo por um fio.

— Eu não tenho mais ninguém. Enquanto ele estiver aqui, eu vou estar aqui. Você pode ir embora.

Ela bateu o pé, um gesto infantil e teimoso que me deu vontade de rir e de matar alguém ao mesmo tempo.

Celina voltou a sentar na cadeira de plástico ao lado da porta do quarto, encolhida, os ombros subindo e descendo em soluços silenciosos.

— Ótimo. Fique com seu macho traidor — sibilei.

Dei as costas sem olhar para trás. Meus passos ecoavam pelo granito do hospital como batidas de um tambor de guerra.

Cruzei a recepção, ignorando os olhares de pavor dos funcionários, e saí para o ar gelado da madrugada.

Entrei no SUV e bati a porta com tanta força que o vidro blindado estremeceu. Dei partida, o motor roncando alto, uma extensão da fúria que Abraxas sentia.

O ódio me consumia como fogo em palha seca.

Como ela podia escolher ficar com ele depois de tudo? Como podia se humilhar daquela forma por um verme que nem conseguia mais respirar sem aparelhos?

Não era possível. Era um insulto à minha inteligência e à minha linhagem.

Acelerei, deixando a pequena cidade para trás. Eu ia voltar para a capital. Ia esquecer que aquela ômega patética sequer existia.

Mas, à medida que a distância aumentava, algo dentro de mim começou a queimar. Não era ódio.

MEra algo visceral, um puxão nos meus instintos que me impedia de cruzar os limites daquela jurisdição.

— PORRA! QUE MERDA!

Gritei, descarregando um soco violento contra o volante de couro. A buzina soou como um lamento fúnebre na estrada deserta.

Pisei no freio com toda a minha força. O SUV derrapou, os pneus gritando no asfalto molhado enquanto eu fazia uma conversão proibida em alta velocidade.

Eu odiava o que ela era. Odiava o que ela me fazia sentir.

Mas eu não ia deixá-la naquele hospital. Não para o Oliver.

Eu estava voltando para terminar o que comecei. E dessa vez, eu não ia pedir licença.

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