Capítulo 6 — Uma substituta

(POV CELINA BRAGA)

O silêncio do hospital era uma prensa sobre o meu peito.

Adrien Blackwolf tinha ido embora há dois dias. O rugido do seu SUV partindo na madrugada ainda ecoava na minha mente como um veredito. Ele me deixou no lixo.

Eu não me importava. Eu tinha Oliver. Pelo menos, era o que eu tentava dizer ao meu coração estraçalhado.

Lobos se curam rápido. Dois dias foram o suficiente para que os hematomas de Oliver começassem a amarelar e ele pudesse se sentar na cama. A pele dele cor de cacau já estava quase toda limpa.

Eu cuidava dele com as mãos trêmulas. Limpava sua testa, tentava oferecer água, mas ele desviava o rosto com um tédio que me cortava como navalha.

Sentei-me na cadeira de plástico, o corpo doendo de exaustão, e a imagem não saía da minha mente.

O estrondo da porta. O cheiro de sexo. Victorie sobre ele.

Oliver olhava para Victorie com pura adoração. Era um olhar de entrega, de prazer absoluto.

Dói porque eu conhecia aquele olhar.

Há dez anos, quando nos casamos, Oliver me olhava assim. Ele me buscava com aquela mesma sede, me tocava como se eu fosse o seu único mundo. Eu não me casei com um monstro; eu me casei com o homem que um dia me fez sentir a mulher mais amada da alcateia.

Mas agora, aquele olhar tinha outra dona. Para mim, sobraram as migalhas: o olhar do dever, da tolerância e, agora, do ódio.

A porta do quarto se abriu.

Victorie entrou. Ela tinha recebido alta. Estava pálida, mas ainda era linda na sua ruína. Eu me encolhi na cadeira, sentindo-me minúscula.

— Oliver... — ela soluçou, correndo para a beira da cama.

— Victorie? — A voz dele mudou. Havia urgência.

Havia um amor que ele não sentia por mim há anos.

Ela desabou sobre o peito dele, chorando de forma convulsiva.

— O bebê, Oliver... eu perdi o nosso filho. O Adrien... ele o matou.

Oliver soltou um lamento gutural que rasgou o pouco que restava da minha alma.

Ele a abraçou com uma força desesperada.

Chorou junto com ela, ignorando os próprios ferimentos. Em dez anos, ele nunca me deu um filho. Sempre houve uma desculpa, um impedimento.

Mas ele quis ter um filho com ela.

Victorie saiu minutos depois, prometendo buscá-lo à noite. Eu continuei ali, uma sombra no canto do quarto.

Oliver permaneceu calado, os olhos fixos na janela, a mandíbula tão tensa que eu temia que ela quebrasse novamente.

— Oliver... — chamei, a voz saindo falha.

Ele se virou para mim. Não havia remorso. Havia uma fúria sombria e vingativa.

— Foi você, não foi? — Ele cuspiu as palavras. — Você foi quem contou para o Blackwolf sobre eu e a Victorie.

— O quê? Oliver, eu...

— Olha o que você fez! — Ele rugiu, tentando se levantar, a dor o fazendo rosnar. — Por causa da sua língua, minha mulher está destruída e o meu filho está morto!

Eu recuei, chocada. Ele estava me culpando?

— Tá satisfeita agora, Celina? Conseguiu o que queria? — Ele sorriu, um gesto cruel que eu nunca imaginei ver naquele rosto. — Pois saiba que agora você vai ter que lidar com as consequências disso.

Ele apontou para a porta com o dedo trêmulo de raiva.

— Saia daqui. Eu não quero você perto de mim.

Você destruiu a única coisa que me fazia feliz.

— Eu sou sua mulher, Oliver! — gritei, minha voz oscilando entre o pavor e a indignação.

Minha pele tremia violentamente, mas pela primeira vez em dez anos, eu não desviei o olhar.

— Você me dizia que ela era sua amiga de infância. Que cresceram juntos na França... você sempre me enganou com ela?

Oliver me olhou com um desprezo que eu nunca imaginei ser possível.

Os olhos cor de menta dele, que um dia brilharam de carinho, agora eram pura fúria.

Ele não via uma esposa. Ele via um estorvo.

— Você é só a porra de uma substituta, Celina — ele cuspiu as palavras como veneno.

— A família dela a entregou para o Blackwolf como se fosse um objeto. Eu fui obrigado a me casar com você para manter as aparências e não precisar me afastar dela. Eu sempre a amei. Eu fiz tudo por ela e Eu nunca teria filhos com você.

As lágrimas desceram quentes, queimando meu rosto já inchado de tanto chorar.

O ar fugiu dos meus pulmões como se eu tivesse levado um soco no estômago.

— Eu dei minha vida toda para você! Toda a fortuna que herdei quando fiquei órfã...

Minha voz falhou, sufocada pela lembrança dos sacrifícios.

— Trabalhei dia e noite para bancar seus estudos. Abdiquei da carreira dos meus sonhos, de ter uma família, de ter um filho... nada disso importa para você?

Oliver não respondeu.

Ele apenas virou a cara para a janela, o perfil rígido e frio.

O silêncio dele foi a resposta mais cruel que eu já recebi na vida.

Eu não era nada. Nunca fui.

Recolhi-me na cadeira de plástico ao lado da cama, as pernas encolhidas contra o peito.

Chorei até que meus olhos ardessem e minha garganta secasse.

Acreditei, com o resto de sanidade que me sobrava, que aquilo era um pesadelo.

Um maldito pesadelo do qual eu acordaria em breve, sentindo o cheiro de café e o calor do sol.

Ficou tudo escuro. O vazio me engoliu em um sono pesado e doente.

Acordei com uma pressão gelada no meu ombro.

Uma mão firme que me trouxe de volta à realidade estéril do hospital.

— Acorda, Celina. Eles foram embora.

A voz era baixa, grave, inconfundível.

Ergui o rosto e encontrei o azul elétrico dos olhos de Adrien Blackwolf me vigiando na penumbra do quarto.

Ele estava ali. Ele tinha voltado.

— Vamos para casa — ele ordenou, a voz sem um pingo de hesitação.

A cama estava vazia.

O lençol revirado era o único rastro de que Oliver Harrington tinha passado por ali antes de fugir com Victorie no meio da madrugada. Dez anos de casamento evaporaram no cheiro de antisséptico do hospital.

Eu estava encolhida na cadeira, sentindo o peso do meu próprio fracasso, quando a sombra dele bloqueou a luz do corredor.

Ergui o rosto. Adrien Blackwolf estava parado na porta, impecável.

— Você... você voltou? — minha voz saiu como um sussurro quebrado. — Por quê?

Adrien se empertigou. Com uma calma torturante, ele apertou o botão do seu paletó sob medida, ajustando o tecido caro sem me dirigir um olhar direto.

— Porque eu sou homem — ele respondeu, a voz gélida e autoritária. — Ao contrário desse bosta, eu não deixaria uma mulher desamparada na rua. Eu sabia claramente que ele faria isso.

Encolhi os ombros, sentindo a pontada de humilhação. Ele previu minha ruína.

— Onde eles foram? — pensei alto, imaginando Oliver e Victorie em algum lugar longe de mim, rindo da minha estupidez.

Adrien deu um passo à frente. O perfume dele de Uísque envelhecido, cedro e sangue fresco, tentava mascarar o cheiro de suor e sangue seco que grudava na minha pele.

Ele parou a centímetros de mim e finalmente me olhou de canto de olho. O asco em sua expressão era evidente.

— Embora. Como dois ratos imundos que são. Vem vou te levar a um chalé. Você precisa de um banho. Está fedendo — ele sentenciou, girando nos calcanhares.

Levantei-me, as pernas falhando. Eu não tinha para onde ir.

— Vamos logo, Celina. Só me responda uma coisa: qual é a sua escolha agora?

Ele parou no meio do corredor e se virou, a silhueta imponente contra as luzes fluorescentes.

— Vai continuar rastejando de volta para um homem que vive te largando na sarjeta? Ou vai finalmente aceitar que o seu mundo acabou?

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