Mundo de ficçãoIniciar sessão(POV DE CELINA BRAGA)
O chão estava em chamas. Senti a pele dos meus braços fritar contra o piche áspero da estrada. O calor subia do asfalto, cozinhando o que restava das minhas forças. Eu ainda estava lá. Na beira do abismo. — Moça... A voz parecia vir de outra dimensão. Longe. Abafada pelo zumbido nos meus ouvidos. Tentei mover os dedos, mas a dor latejou nos meus ombros, um lembrete das garras que me derrubaram no escuro. — Moça, você está me ouvindo? Abri os olhos. O sol do meio-dia era uma agulha quente perfurando minha retina. Fechei as pálpebras com força. Minha cabeça girava como se o mundo tivesse saído do eixo. Pairando acima de mim, borrado contra o céu azul implacável, estava um senhor de rosto sulcado. — A senhorita está bem? O que aconteceu com você? Tentei falar, mas minha garganta era um deserto de areia e sangue seco. As lembranças da noite anterior voltaram em flashes: o rugido, o bafo de carniça, o grito que ninguém ouviu. — Eu... eu preciso ir para casa — consegui ganir. O trajeto até o centro de Costa da Lua foi um borrão de dor. Quando finalmente cheguei ao prédio, o olhar de horror do porteiro me atingiu como um soco. Eu era uma aberração coberta de lama e sangue seco, usando os restos de um vestido de luxo. Entrei no elevador. O espelho me devolveu a imagem de uma morta. Cabelos embaraçados, bochecha cortada, o olhar de quem tinha visto o inferno e voltado. Abri a porta do apartamento com a mão trêmula. Oliver estava na cozinha, fechando uma mala executiva sobre o balcão de granito. Ele nem sequer se virou para ver se eu estava viva. — Você está um lixo — ele soltou, a voz transbordando tédio. — Você me deixou no meio da estrada, Oliver. Sozinha. Alguma coisa me atacou... Ele parou o que estava fazendo e me encarou. O olhar dele não tinha um pingo de remorso. Oliver tirou a carteira do bolso, sacou duas notas de cem reais e as jogou no chão, perto dos meus pés sujos. — Pegue. É pra você não morrer de fome. — Ele fechou o zíper da mala. — Vou viajar a trabalho. O congresso é em duas horas. Não me ligue. Ele sabia que eu não tinha um cartão. Sabia que eu não tinha acesso a um centavo das contas dele. Eu era uma prisioneira do seu "sustento". O som da porta batendo ecoou pelo apartamento vazio. Fiquei ali, olhando para as notas no chão. O cheiro de perfume caro dele ainda zombava da minha miséria. Os dias se passaram e a comida acabou a fome veio como uma velha dor. Arrastei-me até a padaria no térreo do bloco vizinho. O cheiro de fermento e farinha quente era o único lugar onde eu ainda me sentia humana. Minhas mãos, agora trêmulas e sujas, já haviam moldado milhares de pães naquele balcão. Eu sustentei Oliver ali. Paguei cada livro, cada semestre do seu doutorado com o suor do meu rosto e o calor daquele forno. Mas assim que ele conseguiu o diploma, o veredito foi dado com a frieza de um Alfa: "Minha esposa não trabalhará nunca mais". Ele me queria em casa. Invisível. Totalmente dependente dele. Ele me transformou em uma prisioneira alimentada por notas de duzentos reais jogadas no chão. — Celina? Pelos deuses! — Martha, a dona, correu até mim e me estendeu um pedaço de pão quentinho. — Volte para cá. Preciso de uma mestre-padeira. O emprego é seu se quiser recomeçar amanhã. Um lampejo de esperança brilhou no meu peito. Uma saída. Uma forma de ter meu próprio dinheiro e fugir. — Vou pensar, Martha... — limpei uma lágrima que ameaçava cair. — Posso te dar a resposta sobre isso amanhã? — Claro, querida. — Ela apertou minha mão. — Você foi a melhor funcionária que já tive. Sempre estarei de portas abertas para você. Um pensamento sombrio e delicioso passou pela minha mente enquanto eu mastigava o pão. Eu poderia esconder dele que estou trabalhando. Oliver nunca saberia. Ele estava ocupado demais transando com a "melhor amiga" para notar o cheiro de farinha e recomeço na minha pele. Mas a esperança durou pouco. Ao sair da padaria, o sol já havia se posto e o mundo real me atingiu com a força de um soco. Um SUV preto, blindado e imponente, bloqueava a entrada do meu prédio. Adrien Blackwolf estava encostado na porta. Ele parecia ter saído de um pesadelo de poder e gelo, a postura impecável escondendo a tempestade que rugia por dentro. — Entre no carro, ômega — ele ordenou. A voz dele era um trovão baixo que vibrou dentro do meu peito, fazendo meus ossos tremerem. — Boa noite, Blackwolf. O que você quer? — tentei manter a voz firme, mas ela saiu quebrada. — Eles não voltaram. Eu já liguei, mandei mensagens e ela não me atende. Adrien deu um passo à frente. O cheiro de uísque caro e fúria gelada me atingiu. — Quero ver com os meus próprios olhos. E você vai comigo! Os olhos dele brilharam em um amarelo perigoso, a pupila fatiada pela paciência que já tinha acabado. Eu não conseguia encará-lo. Não depois da humilhação daquela noite, não depois de ver o quanto eu era insignificante para o meu próprio marido. Mantive a cabeça baixa, fitando as rachaduras na calçada. — Eu não vou. Você pode ir sozinho. Agora saia do meu caminho, você está bloqueando a entrada. Adrien soltou um rosnado baixo, gutural. — Vamos caçar os traidores, ou você prefere continuar esperando aqui sozinha? Você não quer expor eles? Você não quer ver a cara de Oliver quando perceber que o jogo acabou? Tentei recuar, mas ele foi rápido demais. O movimento foi um borrão de força bruta. Antes que eu pudesse gritar, senti o impacto de um peito maciço contra as minhas costas. Suas mãos, grandes e quentes, me agarraram pela cintura por trás. Aquele toque, o primeiro contato físico que já tivemos, enviou um choque elétrico violento pela minha espinha. O toque dele foi um estalo elétrico que fritou meus nervos. Arqueei as costas, o corpo reagindo antes da mente conseguir processar o pavor. As mãos de Adrien queimavam como ferro em brasa, marcando o início da minha ruína. Adrien me dobrou pela cintura e me jogou sobre o ombro como se eu fosse um fardo sem peso. O osso duro do ombro dele cravou no meu abdômen, expulsando o ar dos meus pulmões. — Me solta! Seu animal! — Soquei as costas dele, sentindo os músculos de ferro sob o tecido do terno. — Fique quieta. Eu não te dei escolha. Eu estou te levando comigo agora! Ele rosnou contra minha barriga, a vibração da voz dele enviando um novo arrepio pela minha pele. Adrien caminhou em direção ao SUV, os passos pesados e decididos ecoando no beco. Eu estava de cabeça para baixo, o sangue descendo para o rosto, a visão turva de lágrimas e raiva. Foi quando o mundo se tingiu de azul e vermelho. O giroflex de uma viatura iluminou as paredes do prédio, cortando a escuridão. O som do freio brusco chiou no asfalto molhado. — Está tudo bem aqui, senhora? O policial desceu do carro, a mão pousada no coldre, o olhar fixo no gigante que me carregava como se eu fosse uma posse. — Ele está machucando você? Adrien parou. Senti o corpo dele tensionar como uma mola prestes a quebrar. O silêncio que se seguiu foi cortante. Eu só precisava de uma palavra. "Sim", e eu estaria livre de Adrien, mas Oliver continuaria rindo de mim no chalé. "Não", e eu entraria naquele SUV para consumar o meu pacto com o monstro.






