Capítulo 7 — O xeque mate do Gama

(POV CELINA BRAGA)

O trajeto até Costa da Lua foi um borrão de luzes da cidade e o silêncio gélido de Adrien.

Eu me encolhia no banco de couro, abraçando meus próprios braços. O cheiro de uísque e cedro que emanava dele era opressor, uma lembrança constante de que eu estava à mercê de um estranho.

Quando o SUV parou diante do meu prédio, meu coração deu um solavanco de esperança.

— Obrigada por me trazer — sussurrei, já com a mão na maçaneta.

Adrien não respondeu. Ele apenas desligou o motor e ficou me observando de canto de olho, nunca diretamente. Ele esperou que eu saísse do carro e deu partida sem dizer uma palavra.

Saí do carro sem olhar para trás. Subi o elevador sentindo o estômago dar voltas. Eu só queria meu chuveiro, meu pijama e o silêncio das minhas paredes.

Parei diante da porta 402. Minhas mãos tremiam tanto que a chave tilintava contra a fechadura.

“Será que Oliver está aqui?” Penso.

Respirei fundo. Eu esperava encontrar o vazio. Esperava o escuro.

Girei a chave. A porta se abriu.

O cheiro me atingiu como um tapa físico.

Perfume francês barato. Aquele aroma de flores doces que eu aprendi a odiar no hospital.

A luz da sala estava acesa.

— Oliver? — minha voz saiu pequena, sufocada.

Caminhei até o centro da sala e parei. O mundo girou sob meus pés.

Oliver estava sentado no meu sofá de veludo cinza, o mesmo que eu trabalhei meses extras para comprar. Ele segurava uma taça de vinho.

E Victorie estava atrás dele, as mãos descansando em seus ombros, vestindo o meu roupão de seda branca.

— O que você está fazendo aqui? — Oliver perguntou, a voz desprovida de qualquer emoção que não fosse irritação.

— O que eu... Oliver, esta é a minha casa! — gritei, as lágrimas voltando a arder. — O que ela está fazendo com as minhas coisas? No nosso sofá?

Victorie me olhou com uma piedade fingida que me deu náuseas.

— Eu quero essa mulher fora da minha casa agora! — meu sangue rugia nas minhas veias, eu mal conseguia respirar de tanta raiva.

— Celina, querida... você não recebeu o aviso? — ela perguntou, a voz aveludada e cruel.

— Que aviso? Do que você está falando?

Oliver levantou-se devagar, os movimentos ainda um pouco rígidos pela surra que levou, mas a postura era de quem detinha todo o poder.

Ele caminhou até a mesa de centro e pegou um envelope pardo.

— O contrato de aluguel e o financiamento estão no meu nome, Celina. Tudo nesta casa foi pago com o dinheiro que eu administrava — ele disse, jogando o papel na minha direção.

— O dinheiro da minha herança! — berrei. — O dinheiro que eu te dei!

— Prova — ele sibilou, os olhos cor de menta brilhando com um ódio frio. — No papel, você não tem nada. Você já assinei os documentos, tudo é meu. Victorie vai morar aqui agora. Ela precisa de conforto para se recuperar da perda que você causou. Pegue suas coisas e vá embora!

Ele aponta para um canto da casa.

Eu olhei para o lado e vi minhas malas. Três malas velhas jogadas perto da porta de serviço, como se fossem lixo esperando para ser recolhido.

— Suas coisas já estão prontas. Saia daqui agora, antes que eu chame a segurança — Oliver sentenciou, voltando a se sentar ao lado da amante.

— Celina. Acabou.

O chão pareceu inclinar sob meus pés.

— Acabou? Oliver, passamos dez anos juntos! Eu sustentei você! Eu dei tudo o que eu tinha para essa casa! — Gritei, o desespero subindo pela garganta como ácido.

— Você deu porque quis — ele sibilou, bebendo um gole longo. — Victorie precisa de paz para se recuperar. E eu preciso de uma mulher de verdade ao meu lado, não uma Ômega fraca.

Eu olhei para Victorie. Ela sorria. Um sorriso pequeno, vitorioso, escondido atrás da gola do meu roupão.

— Oliver, por favor... — eu me aproximei, caindo de joelhos diante dele. — Eu não tenho lugar para onde ir. Eu não tenho dinheiro, não tenho família... você sabe que eu dei tudo para você!

— Isso não é problema meu.

O ódio explodiu dentro de mim.

Não foi racional. Foi o resto de vida que eu ainda tinha. Eu avancei.

Meus dedos se fecharam como garras na direção do rosto de Victorie. Eu queria arrancar aquela expressão de triunfo. Queria sentir a pele dela rasgar sob minhas unhas.

— SUA VADIA! — eu berrei.

Eu não cheguei a tocá-la.

A mão de Oliver fechou no meu braço com a força de uma prensa hidráulica. Ele me girou com violência e me lançou contra o chão.

Minhas costelas bateram na quina da mesa de centro. O estalo seco foi acompanhado por uma dor lancinante que roubou meu ar.

— Não encoste nela — Oliver rugiu, pairando sobre mim como um carrasco.

— Eu fiz suas malas, querida — Victorie disse, a voz aveludada pingando veneno. — Estão bem ali. Tente não fazer cena no corredor, é um prédio de família.

Oliver me pegou pelo braço e me arrastou. Eu não lutei. Eu não tinha mais forças.

Ele abriu a porta e me jogou no corredor frio, junto com minhas malas velhas e pesadas. O som da porta batendo e da tranca girando foi o ponto final da minha existência.

Caminhei pelas ruas de Costa da Lua, arrastando as malas que pareciam feitas de chumbo.

O vento frio da madrugada cortava meu vestido fino. Meus pés sangravam dentro dos sapatos. Eu era uma alma penada vagando por um cenário que não me pertencia mais.

As lágrimas turvavam minha visão. Eu não tinha para onde ir. Nenhum hotel aceitaria alguém sem documentos ou cartões e Oliver tinha ficado com tudo.

Parei no centro da praça principal, exausta. O peso da minha vida cabia em dois sacos de pano e uma mala de rodinhas quebrada.

Ergui os olhos, buscando um lugar para me esconder, mas o que vi me paralisou.

No enorme telão de LED que dominava a fachada do prédio da prefeitura, a imagem era nítida demais. Colorida demais.

Era uma foto.

Adrien Blackwolf e eu.

Ele estava com o braço em volta da minha cintura, possessivo, ajeitando o paletó enquanto sorria para a câmera. Eu me lembrava daquela festa.

Oliver estava do outro lado, mas a imagem tinha sido cortada com perfeição cirúrgica.

Parecíamos o casal perfeito.

As letras em destaque brilharam em branco elétrico, iluminando a praça deserta:

"O HERDEIRO BLACKWOLF ANUNCIA NOIVADO: ADRIEN E CELINA ESPERAM O PRIMEIRO FILHO DA LINHAGEM."

As letras pulsavam em um branco ofuscante contra a escuridão da madrugada.

Grávida? Noiva?

A foto no telão era um recorte perverso. Adrien me segurava com uma posse que eu confundi com proteção. Ele parecia um rei reivindicando sua rainha, enquanto eu era apenas um corpo oco sendo usado para o xeque-mate dele.

O som de passos começou a me cercar.

Costa da Lua nunca dormia. Pessoas saindo de bares, trabalhadores da madrugada, curiosos.

— É ela? — uma voz sussurrou perto de mim.

— É a mulher do telão... olha as malas. Ela está grávida e na rua?

Senti os olhares como agulhas na minha pele.

Alguém apontou o celular na minha direção. O flash disparou, roubando o pouco de dignidade que me restava no chão da praça.

Eu era a notícia. Eu era o escândalo. Eu era a propriedade de um monstro.

O pânico subiu pela minha garganta, sufocante. Eu não senti alívio. Senti o laço de Adrien Blackwolf se fechar em volta do meu pescoço, apertando até que eu não pudesse mais respirar.

Ele não voltou para me salvar. Ele voltou para me capturar.

O som de um motor potente cortou o burburinho da multidão.

Um SUV preto, com vidros tão escuros quanto a alma do dono, parou bruscamente a centímetros de onde eu estava caída.

O brilho do cromo sob os postes de luz parecia dentes de um predador.

A porta do motorista se abriu. Um homem alto, de terno cinza e expressão de pedra, desceu com movimentos precisos.

Ele ignorou os curiosos e parou diante de mim, fazendo uma reverência mínima.

— Senhorita Celina — a voz dele era metálica, profissional.

Eu o encarei, os olhos ardendo de lágrimas e exaustão. Meus dedos arranharam o asfalto.

— O senhor Blackwolf deseja falar com a senhora. Agora.

Olhei para o carro. Olhei para o telão que ainda anunciava a mentira da minha vida.

O motorista abriu a porta traseira, revelando o interior luxuoso que cheirava a couro novo e perigo.

Eu sabia que, se entrasse naquele carro, a Celina que viveu dez anos por Oliver morreria ali mesmo.

Mas se ficasse na calçada, a multidão me devoraria viva.

— Ele está esperando e ele não gosta de esperar… — o motorista reforçou, o tom beirando uma ameaça educada.

Levantei-me devagar, cada osso do meu corpo gritando. Peguei a alça da minha mala quebrada.

O jogo de Adrien Blackwolf não tinha regras. Ele estava apenas começando.

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