Capítulo 5

Ponto de Vista: Dante

Observar Leyla inconsciente em meu sofá de couro era como admirar uma obra de arte renascentista em um museu de horrores. Ela estava caída de forma desajeitada, os cabelos escuros espalhados como uma mancha de tinta contra o estofado preto. A palidez de sua pele era quase translúcida, e eu podia ver a veia pulsando em seu pescoço — um ritmo frenético, mesmo no desmaio.

Eu não a levei para um quarto. Queria que ela acordasse exatamente aqui, no lugar onde percebeu que sua liberdade tinha sido uma ilusão desde o segundo em que nossos olhos se cruzaram naquele beco imundo.

Inclinei-me para trás em minha poltrona, girando lentamente o copo de cristal com uísque. O gelo batendo no vidro era o único som na sala. Eu desfrutava daquela vulnerabilidade. Havia algo doentiamente satisfatório em saber que eu era a causa do colapso dela e, ao mesmo tempo, o único que poderia decidir quando ela se levantaria.

Um gemido baixo escapou de seus lábios. Seus cílios longos tremeram.

Eu não desviei o olhar. Queria ser a primeira coisa que ela visse ao retornar ao seu pesadelo pessoal.

Quando Leyla finalmente abriu os olhos, o verde de suas íris estava dilatado, confuso. Ela levou alguns segundos para processar o teto alto e as estantes de livros, mas, quando sua visão finalmente focou em mim, o terror voltou como uma chicotada. Ela tentou se levantar rápido demais, o que a fez cambalear e cair de volta no sofá, levando a mão à cabeça.

— Cuidado, piccola — eu disse, minha voz saindo como um rosnado suave. — O chão de mármore não é tão gentil quanto o couro.

— Você... — ela arquejou, as costas coladas no encosto do sofá, tentando ganhar distância de mim, embora não houvesse para onde ir. — O que você fez? Por que eu estou aqui?

— Você está aqui porque se candidatou a um emprego, lembra-se? — Dei um gole lento no uísque, sustentando o olhar dela. — E eu sou um homem que preza pela eficiência. Sua ficha é impecável, seu histórico com crianças é notável... e nós já fomos apresentados. Achei que seria uma contratação providencial.

— Você me atraiu para cá! — Ela acusou, a voz subindo uma oitava, trêmula. — Aquela ligação da agência... o salário... foi tudo você, não foi?

— Eu não atraio ninguém, Leyla. Eu apenas facilito o destino. Você precisava de um emprego; eu precisava de uma babá que soubesse guardar segredos. E você provou ser excelente nisso nos últimos dias, não provou? Nem mesmo para a sua irmã advogada você abriu a boca.

Ela ficou em silêncio, o choque sendo substituído por uma compreensão amarga. Ela percebeu que eu a estive vigiando. Que cada passo que ela deu desde a boate foi monitorado. Eu sabia o que ela comia, o que lia e o quanto chorava à noite antes de dormir.

— Eu quero ir embora — ela sussurrou, as lágrimas começando a inundar seus olhos. — Por favor... eu não vou contar nada. Eu juro. Só me deixe sair daqui.

— Ir embora? — Levantei-me lentamente, caminhando em direção a ela. Ela se encolheu, fechando os olhos como se esperasse um golpe. Eu parei a poucos centímetros, sentindo o calor que emanava de seu corpo. — Você ainda não entendeu, não é? No momento em que você caiu naquele beco, você se tornou minha. Eu poderia ter deixado Luigi terminar o serviço, mas decidi que você seria mais útil viva.

Inclinei-me, aproximando meus lábios de seu ouvido.

— Você tem duas opções: pode aceitar o emprego, ganhar mais dinheiro do que jamais viu e viver sob minha proteção... ou pode tentar sair por aquela porta e descobrir o quão curto é o braço da minha misericórdia. O que você acha que aconteceria com a Bianca se você desaparecesse hoje?

Ela soltou um soluço sufocado, o nome da irmã agindo como o freio que eu precisava.

Antes que ela pudesse responder, a porta pesada do escritório se abriu com um rangido. O clima pesado de ameaça foi quebrado por passos pequenos e apressados.

— Tio Dante?

Nathan entrou. Ele segurava um dinossauro de plástico desgastado em uma das mãos, enquanto a outra brincava com a bainha de sua camiseta. Ele não olhou diretamente para nós; seus olhos estavam fixos no chão, um comportamento típico de seu isolamento.

Leyla congelou. O pânico em seu rosto deu lugar a uma confusão genuína ao ver a criança.

— Nathan — eu disse, meu tom de voz mudando para algo mais neutro, mas ainda rígido. — Eu disse para esperar na brinquedoteca.

O menino não respondeu. Ele caminhou até o centro da sala e, para minha surpresa, parou perto do sofá onde Leyla estava. Ele levantou o rosto levemente, e embora não fizesse contato visual direto, ele pareceu farejar o ar, sentindo a presença de alguém novo.

Leyla, apesar de estar aterrorizada por mim, teve o instinto de babá falando mais alto. Ela limpou o rosto rapidamente com as costas das mãos e se inclinou levemente para frente, suavizando sua postura.

— Olá — ela disse, a voz ainda embargada, mas carregada de uma doçura que Nathan nunca recebera de ninguém nesta casa.

Nathan parou de balançar o corpo. Ele estendeu o dinossauro de plástico na direção dela, um gesto de confiança que ele não demonstrava nem para a Sra. Bianchi em meses.

Observei a cena com uma curiosidade sombria. Nathan era quebrado, assim como eu. Mas Leyla parecia ter o dom de colar as peças sem nem precisar de esforço.

— Nathan não fala muito — expliquei, cruzando os braços e observando como ela olhava para o menino. — Ele é o motivo de você estar aqui. Ele precisa de alguém que não o tema, e que não tema o mundo em que ele vive.

Leyla olhou de Nathan para mim. Vi a batalha acontecendo dentro dela. O ódio e o medo que sentia por mim estavam colidindo com a compaixão instantânea que sentiu pelo órfão à sua frente. Eu sabia que tinha vencido. Ela não conseguiria abandonar uma criança que claramente precisava dela, mesmo que isso significasse viver no covil do diabo.

— Ele é... ele é lindo — ela murmurou, voltando a atenção para o menino e ignorando minha presença por um breve segundo.

— Ele é sua responsabilidade agora — sentenciei. — A Sra. Bianchi vai mostrar seus aposentos. Se você tentar fugir, se você tentar contatar a polícia ou sua irmã sobre o que viu, lembre-se: eu não preciso de uma babá viva para cuidar do Nathan. Eu posso simplesmente encontrar outra. Mas você... você só tem uma vida, Leyla. Não a desperdice.

Saí do escritório sem olhar para trás, deixando-a ali com o menino e o peso de sua nova realidade. Eu tinha minha dose de obsessão trancada sob meu teto. Agora, eu só precisava ver quanto tempo levaria para ela perceber que, embora Nathan fosse seu trabalho, eu seria seu dono.

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