Capítulo 4

Ponto de Vista: Leyla

O som da música eletrônica da boate Obsidian ainda martelava na minha cabeça, mas agora parecia um ruído distante, como se eu estivesse submersa em água gelada. Eu atravessei a pista de dança como um espectro, empurrando corpos suados que pareciam obstáculos sem vida. Quando encontrei Bianca perto do bar, minha visão estava turva.

— Leyla? O que aconteceu? Você está pálida como um papel! — Bianca gritou, largando o copo e segurando meus ombros.

— Eu... eu sofri assédio. Um cara... nos fundos — menti. As palavras saíram arrastadas, mas era a única desculpa que ela aceitaria sem fazer perguntas que eu não poderia responder. Como eu diria a ela que vi um homem ter a cabeça explodida a sangue frio? Como diria que o assassino poupou minha vida com uma ameaça que ainda ecoava nos meus ouvidos?

O rosto de Bianca se transformou em uma máscara de fúria protetora.

— Quem foi? Aponte para mim agora, Leyla! Eu sou advogada, eu vou acabar com a vida desse desgraçado antes mesmo da polícia chegar!

— Não! — segurei o braço dela com força, as unhas cravando em sua pele. — Por favor, Bia. Eu só quero ir embora. Agora. Se você me ama, me tira daqui.

Ela hesitou, mas o pânico nos meus olhos venceu sua sede de justiça. O caminho para casa foi um borrão. Eu me encolhi no banco de trás do táxi, olhando para o vidro traseiro a cada dez segundos, esperando ver os faróis de um carro preto nos seguindo. Eu sentia que, a qualquer momento, o homem do beco mudaria de ideia. Ele perceberia que deixar uma testemunha viva era um erro de principiante, e ele não parecia ser um principiante em nada que envolvesse a morte.

Nos três dias seguintes, eu não saí de casa. Cada batida na porta me fazia pular; cada notificação no celular parecia uma sentença. Eu estava vivendo um pesadelo acordada, até que o telefone tocou com uma notícia que parecia o milagre que eu precisava para mudar de vida.

— Senhorita Rossi? Aqui é da agência Elite Care. Temos uma proposta irrecusável.

A mulher explicou que uma família de altíssimo poder aquisitivo havia selecionado meu perfil. Eles precisavam de uma babá para uma criança com autismo — um menino que exigia paciência, silêncio e dedicação exclusiva. O que me deixou sem fôlego não foi apenas a descrição do trabalho, mas o salário: o triplo do valor de mercado. Era dinheiro suficiente para eu me mudar com Bianca para um bairro mais seguro, longe das sombras daquela boate.

— Eu aceito — disse, sem nem pensar duas vezes. — Quando começo?

— Eles querem uma entrevista hoje mesmo na mansão. Um carro irá buscá-la.

Quando o sedã preto blindado parou na frente do meu prédio simples, senti o primeiro calafrio. Era um carro caro demais, silencioso demais. O motorista não disse uma palavra, apenas abriu a porta com uma luva de couro negro. Durante o trajeto, tentei me acalmar. É apenas uma família rica, Leyla. Riqueza traz segurança, eu repetia para mim mesma como um mantra.

Mas quando os portões de ferro da propriedade se abriram, meu coração despencou. A mansão não era apenas uma casa; era uma fortaleza de mármore cinza e vidro, encravada no topo de uma colina, cercada por muros altos cobertos de hera. O luxo era agressivo. Cada estátua no jardim parecia me observar passar.

— Por aqui, senhorita — disse uma governanta de rosto severo, a Sra. Bianchi, assim que entrei no hall principal.

O chão de mármore era tão polido que eu podia ver meu reflexo distorcido nele. O teto alto me fazia sentir minúscula, uma formiga prestes a ser esmagada. O ar ali dentro era gelado, carregado com o cheiro de madeira cara e algo metálico que eu não conseguia identificar, mas que fazia meu estômago revirar.

— O senhor está terminando uma ligação no escritório. Ele faz questão de entrevistá-la pessoalmente, já que a segurança do pequeno Nathan é sua prioridade absoluta — explicou a mulher, subindo a escadaria monumental.

Caminhamos por um corredor longo, adornado com quadros que pareciam retratar guerras e conquistas. Minha mão suava. O calafrio na minha espinha agora era uma vibração constante de perigo. Meu instinto gritava para eu correr, mas minhas pernas continuavam seguindo o som dos sapatos da governanta.

Paramos diante de duas portas imensas de carvalho escuro.

— Pode entrar. Ele a receberá agora.

Respirei fundo, ajeitando meu vestido simples e tentando imprimir um sorriso profissional no rosto. Empurrei as portas lentamente. O escritório era vasto, iluminado por uma luz âmbar vinda da lareira. Havia um homem sentado em uma poltrona de couro, de costas para mim, observando a vista da cidade através da imensa parede de vidro.

— Com licença... Eu sou Leyla Rossi, vim para a entrevista de babá — minha voz saiu pequena, instável.

O homem não respondeu imediatamente. O silêncio no quarto era tão denso que eu podia ouvir o tique-taque de um relógio de pêndulo em algum lugar. Então, ele começou a girar a poltrona. Lentamente.

Primeiro vi os sapatos italianos feitos sob medida. Depois, as pernas longas cobertas por um tecido cinza-chumbo impecável. As mãos grandes, com um anel de sinete de ouro no dedo anelar, repousavam nos braços da cadeira.

E então, eu vi o rosto.

O mundo parou. O oxigênio desapareceu do escritório como se tivesse sido sugado por um vácuo. Aqueles olhos... escuros, gélidos, os mesmos olhos que tinham me encarado enquanto o sangue de um homem escorria pelo asfalto. A mandíbula quadrada, a expressão de predador que sabe exatamente onde sua presa se escondeu.

Era ele. O assassino do beco. O monstro que tinha me prometido a morte se eu abrisse a boca.

— Finalmente, Leyla — ele disse. Sua voz era um trovão baixo, vibrando em cada osso do meu corpo. — Eu estava esperando por você.

O choque foi uma descarga elétrica que fritou meus nervos. Minha visão começou a escurecer pelas bordas, um zumbido ensurdecedor tomou conta dos meus ouvidos. A última coisa que vi antes de meus joelhos cederem e o chão de mármore subir para me encontrar foi o canto da boca dele se elevando em um sorriso cruel e satisfeito.

Eu não tinha conseguido um emprego. Eu tinha caminhado diretamente para a toca do lobo.

E então, a escuridão me levou.

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