Capítulo 2

Ponto de Vista: Dante

O silêncio que se seguiu ao disparo foi a única paz que tive em todo o dia. O corpo do desgraçado aos meus pés era apenas mais um lembrete de que a lealdade na máfia tem um preço, e a dívida dele havia vencido. Eu estava terminando de fumar meu cigarro, o gosto amargo do tabaco misturando-se ao cheiro metálico de sangue fresco, quando um barulho seco quebrou a quietude do beco.

Luigi, meu braço direito, não precisou de ordens. Ele se moveu como uma sombra em direção ao pilar de concreto. Um segundo depois, ele surgiu arrastando uma figura pequena e trêmula.

— Temos um problema, Don — Luigi rosnou, jogando a jovem à minha frente com força desnecessária.

Ela caiu de joelhos exatamente onde o sangue do morto começava a escorrer. Eu não costumo deixar testemunhas. É uma regra de ouro, a base da minha sobrevivência. Olhei para o corpo sem vida no chão e depois para ela, sentindo o gatilho da minha arma ainda quente sob meus dedos. Minha mente já estava calculando o ângulo do próximo disparo para acabar com aquilo de forma limpa.

Mas então, ela se mexeu.

— Levante a cabeça — ordenei. Minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia, cortando o ar frio como uma lâmina.

A jovem tremia de forma tão violenta que parecia que seus ossos iriam se quebrar. Ela obedeceu lentamente, o queixo subindo centímetro a centímetro até que seus olhos encontraram os meus.

E, naquele instante, o mundo ao meu redor emudeceu.

Eram olhos verdes. Um verde profundo, como uma floresta antiga, mas agora estavam nublados pelo terror mais puro que já vi. No entanto, havia algo mais ali — uma centelha de vida, uma pureza que não pertencia a este beco imundo. Tenho que admitir que ela era linda, de uma forma que me incomodava. O rosto em formato de coração, a pele pálida contrastando com os cabelos escuros, e aquele vestido... curto demais para o meu gosto, revelando curvas que faziam meu sangue ferver de um jeito que não tinha nada a ver com raiva.

Algo estranho despertou no meu peito. Uma possessividade súbita e irracional.

— Por favor... não me mate — ela sussurrou, a voz trêmula, quase um sopro. — Eu não contarei a ninguém o que vi. Eu juro.

Eu deveria ter rido. Promessas de testemunhas valem menos que o lixo sob meus pés. Mas eu não conseguia desviar o olhar. O medo dela não me dava prazer, como costumava acontecer com meus inimigos; ele me dava vontade de marcar meu território.

Me abaixei, ficando na altura dela. Guardei a arma no coldre de couro sob o paletó e estendi a mão, segurando o braço dela para ajudá-la a levantar-se. No momento em que meus dedos tocaram sua pele, uma descarga elétrica percorreu meu braço. A pele dela era tão suave, tão quente... um contraste gritante com a frieza do meu mundo.

Ela recuou instintivamente, mas eu a mantive firme, sentindo o pulso dela acelerado sob meu polegar.

— Você promete que não contará a ninguém? — perguntei, aproximando meu rosto do dela até sentir seu hálito trêmulo.

Ela assentiu freneticamente, as lágrimas ameaçando cair, mas ela as segurava com uma força que me impressionou.

— Então você pode ir embora — eu disse, surpreendendo a mim mesmo. — Mas ouça bem: se você contar uma única palavra, eu encontro você. E mato todos que você ama antes de terminar o serviço com você. Ficou claro?

Ela assentiu novamente, soltando um arquejo de alívio que quase me fez querer puxá-la para mais perto. Assim que a soltei, ela se virou e saiu correndo de volta para as luzes da boate, tropeçando nos próprios pés, mas sem olhar para trás.

Fiquei observando o lugar onde ela desapareceu, o calor da pele dela ainda queimando na palma da minha mão. O cigarro entre meus dedos já tinha se apagado.

— Dante? — Luigi me chamava, a voz carregada de uma confusão óbvia. Ele me olhava como se não me reconhecesse. — Você acabou de deixar uma testemunha ocular sair caminhando? O que deu em você?

Eu não respondi de imediato. Respirei fundo, tentando expelir o perfume de baunilha dela que ainda pairava no ar sujo de pólvora. Eu não sabia o nome dela, não sabia quem ela era, mas sabia de uma coisa: aquela garota agora fazia parte do meu inventário.

— Quero todas as informações sobre ela, Luigi — falei, a voz fria e decidida. — Quero saber onde mora, com quem fala, o que come e onde dorme. Até o final da noite, eu quero a vida dela em uma pasta na minha mesa.

— Mas por que, Don? Ela é só uma civil.

Virei-me para ele, e a expressão no meu rosto deve ter sido assustadora o suficiente para fazê-lo recuar um passo.

— Porque ela viu o que eu sou. E agora, eu quero ver tudo o que ela é.

Aquilo não era mais sobre segurança. Era sobre necessidade. Eu tinha acabado de encontrar minha nova e dose de obsessão.

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