capítulo 3

Ponto de Vista: Dante

O escritório na mansão Moretti sempre foi meu santuário de silêncio, mas naquela noite, o silêncio parecia carregado de uma estática incômoda. Eu não conseguia tirar o rosto daquela garota da cabeça. O modo como o verde dos seus olhos brilhou sob o terror, a suavidade da sua pele sob meus dedos rudes... era um eco que se recusava a morrer.

Ouvi duas batidas secas na porta de carvalho.

— Entre — ordenei, sem desviar os olhos da janela que dava para os jardins escuros.

Luigi caminhou até a minha mesa e depositou uma pasta de couro pardo sobre o tampo de vidro. Ele não disse uma palavra; conhecia meu humor quando eu estava em modo de caça. Assim que ele saiu, puxei a pasta para perto. Meus dedos, ainda marcados pela pólvora do beco, abriram o dossiê que continha a vida da mulher que eu deveria ter matado.

— Leyla... — sussurrei o nome dela pela primeira vez. O som deslizou pela minha língua como um vinho caro e proibido.

Passei os olhos pelas informações básicas. Vinte anos. Estudante de Letras. Órfã de pai e mãe, morando com a irmã mais velha, uma advogada que, ironicamente, trabalhava para alguns dos nomes que eu conhecia no tribunal. Mas não foram os dados acadêmicos que prenderam minha atenção. Foi a foto grampeada no canto superior. Ela estava sorrindo, um sorriso genuíno que não chegava nem perto da máscara de pavor que eu vi no beco.

Senti um aperto estranho no peito. Uma vontade súbita de apagar aquele sorriso do papel e guardá-lo só para mim.

Continuei lendo. O relatório de inteligência do Luigi era meticuloso. Ele tinha ido fundo. Meus olhos pararam em uma linha específica e eu congelei.

“Nenhum histórico de relacionamentos. Sem namorados registrados ou avistados nos últimos cinco anos.”

Uma risada sombria escapou da minha garganta. Ela era intocada. Naquele mundo de excessos, traições e corpos usados como moeda de troca, Leyla era uma anomalia. Um jardim murado onde ninguém jamais ousou entrar. A ideia de que nenhum outro homem tinha reivindicado seu tempo, seu corpo ou seus pensamentos fez algo primitivo rugir dentro de mim.

Eu queria ser o primeiro. E o último.

Virei a página e meu coração deu uma batida mais forte, uma reação que eu raramente permitia. Entre os documentos, havia uma cópia de uma candidatura de emprego enviada naquela mesma tarde para uma agência de elite.

Ela estava procurando emprego como babá.

Minha mente, sempre dez passos à frente de qualquer inimigo, montou o cenário instantaneamente. Eu precisava de uma babá. Desde que adotei Nathan, o filho do meu irmão falecido, minha casa se tornou um campo de batalha de babás que não aguentavam o isolamento da mansão ou o meu temperamento. Nathan era um garoto difícil, traumatizado pela perda dos pais, e eu não tinha a paciência necessária para curar as feridas dele.

Mas Leyla... ela tinha aquela aura de calma. Ela tinha a doçura que faltava naquelas paredes de mármore.

Fechei a pasta com força, o som ecoando no escritório vazio. O destino estava me entregando ela de bandeja, ou talvez eu estivesse apenas forçando a mão do destino. Não importava. No momento em que ela pisou naquele beco, ela deixou de pertencer a si mesma.

Peguei o telefone interno e disquei para a governanta da mansão, a Sra. Bianchi.

— Sim, Don Dante? — a voz dela soou cansada.

— A agência enviará algumas candidatas para a vaga do Nathan amanhã de manhã — falei, minha voz assumindo aquele tom de autoridade que não aceitava questionamentos. — Haverá uma moça chamada Leyla. Não me importa quem sejam as outras. Não me importa se as outras têm doutorado em educação infantil. Você vai contratar a Leyla.

Houve uma pausa do outro lado da linha. A Sra. Bianchi sabia melhor do que ninguém que eu nunca me envolvia nos detalhes domésticos.

— Mas, senhor, e se ela não for qualificada ou se o pequeno Nathan não gostar...?

— Ela será contratada — cortei-a, sentindo uma antecipação perigosa correr minhas veias. — Prepare o quarto de hóspedes na ala leste. Perto do meu. Ela vai morar aqui.

Desliguei antes que ela pudesse protestar.

Levantei-me e caminhei até o bar, servindo-me de uma dose generosa de uísque puro. O líquido queimou minha garganta, mas não foi o suficiente para aplacar a sede que estava começando a crescer.

Eu sabia que era um erro. Trazer uma civil, uma testemunha, para dentro do meu santuário era quebrar todas as regras de segurança que meu pai me ensinou. Mas a lógica não tinha mais lugar no meu cérebro quando se tratava dela.

Leyla achava que tinha fugido da morte naquele beco. Ela não fazia ideia de que tinha apenas trocado uma execução rápida por uma sentença de vida ao meu lado. Eu a observaria. Eu a protegeria. E, lentamente, eu a consumiria até que não sobrasse nada além da minha marca nela.

— Você não sabe no que se meteu, piccola — murmurei para a escuridão, brindando à foto dela que ainda estava sobre a mesa.

Amanhã, ela entraria nesta casa por vontade própria. E eu me certificaria de que ela nunca mais sentisse vontade de sair. Ela seria minha dose diária de obsessão, e eu era um homem que nunca sabia a hora de parar de beber.

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