Mundo ficciónIniciar sesiónSinopec Minha Cura Ele é a lei do morro. Ela está fugindo da "lei" do asfalto. Miguel vive nos escombros de quem já foi um dia. Após perder a esposa e o filho em um confronto sangrento, ele jurou que nunca mais deixaria ninguém entrar em sua vida. O luto é sua única companhia, e o silêncio de sua casa é o seu escudo. Até que Ágata aparece. Com o corpo marcado e o olhar de quem já viu o inferno, ela busca abrigo nas vielas da comunidade para escapar de um ex-marido abusivo e poderoso. Ele é um policial que deveria protegê-la, mas se tornou seu maior carrasco. A presença de Ágata desperta em Miguel um instinto que ele acreditava estar morto. Enquanto ele tenta manter o coração fechado, a necessidade de protegê-la acaba derrubando suas barreiras. Em um mundo de caos e perigo, eles descobrirão que um pode ser o porto seguro do outro. Mas será que o passado de Ágata os deixará viver essa cura?
Leer másDoze anos Antes
Capítulo 1: Onde o Tempo Parou
O som não era de música, nem de festa. Era o som do metal colidindo, do concreto lascando e dos gritos que cortavam o ar quente da tarde de domingo. O Morro estava sob ataque, mas para Miguel, o mundo havia se reduzido a um raio de dois metros quadrados.
No chão de terra batida, o vermelho se espalhava com uma velocidade aterrorizante.
— Estela! Estela, olha para mim, porra! — O grito de Miguel rasgou sua garganta, cru e desesperado.
Ele a puxou para o colo, ignorando o zunido das balas que ainda passavam próximas. A mão dele, trêmula e suja de pólvora, tentava estancar o sangue que jorrava do peito dela. Estela tinha os olhos arregalados, fixos no pequeno corpo caído a poucos passos dali. O filho deles, de apenas quatro anos, não se mexia mais. O brinquedo de plástico que ele segurava estava estraçalhado.
— Estela, não morre! Estela, por favor, fica comigo... — Ele a sacudia de leve, as lágrimas queimando seus olhos e se misturando ao suor. — Fica comigo, vai, caralho! Não me deixa aqui sozinho! Abre o olho, meu amor! Me responde!
Ela tentou. Os lábios dela tremeram, buscando oxigênio, buscando uma última palavra para o homem que amava. Mas o brilho em suas pupilas começou a nublar, uma cortina cinza descendo sobre o castanho vivo que ele tanto adorava. Quando a mão dela, que tentava segurar a camisa dele, perdeu a força e caiu pesada contra o chão, o grito que escapou de Miguel não foi humano. Foi o urro de uma fera ferida de morte, um som que fez até os soldados mais antigos recuarem.
Naquele dia, nas vielas tingidas de tragédia, o jovem Miguel morreu junto com eles. O que sobrou foi apenas uma carcaça movida a ódio e, depois, a um vazio absoluto.
Doze anos depois
Capítulo 1: Sombras do Passado
O silêncio é a única coisa que eu permito dentro desta casa. No topo do morro, construí uma fortaleza de concreto e vidro que me permite vigiar tudo, como um sentinela de pedra que não dorme. Para o mundo lá fora, doze anos se passaram. Para mim, o tempo é uma linha estagnada, um relógio que parou de bater no exato momento em que o sangue de Estela esfriou nos meus braços.
Levantei-me da poltrona de couro, sentindo o peso do meu próprio corpo. Eu não sou mais aquele garoto magro e desesperado de uma década atrás. Hoje, meu corpo é robusto, fechado em tatuagens que narram minha ascensão no crime e cada uma das perdas que carrego. No meu mundo, tinta na pele não é estética; é escudo. É uma forma de dizer ao mundo que eu já morri por dentro tantas vezes que não há mais espaço para novas feridas.
Caminhei até a varanda e acendi um cigarro. A brasa brilhou na escuridão, a única luz além das lâmpadas distantes da cidade. O Rio de Janeiro brilhava lá embaixo, lindo e indiferente. A cidade fede a privilégio e ignorância, alheia à guerra silenciosa que eu travo contra minhas próprias memórias todas as noites. Aqui em cima, eu sou o "Pai". Sou o dono do morro, a lei absoluta, a palavra final que decide quem vive e quem morre. Mas, dentro destas paredes luxuosas, eu sou apenas um homem que evita olhar para o lado esquerdo da cama.
Aquele espaço vazio permanece frio, intocado. Às vezes, o cheiro do perfume dela parece flutuar no ar, como se o fantasma de Estela ainda reclamasse o lugar que lhe foi tirado.
— Chefe? — A voz baixa de MT veio da porta, interrompendo o fluxo dos meus pensamentos.
Eu não me virei. Continuei observando as luzes, deixando a fumaça sair lentamente pelos meus lábios. Eu não precisava olhar para saber que ele estava em posição de respeito.
— Fala — ordenei, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia.
— Os meninos pegaram um movimento estranho na entrada da mata. Uma mulher. Tá sozinha, toda machucada. Diz que tá fugindo, mas você sabe como é... em tempo de invasão, a gente não facilita.
Apertei o parapeito de mármore com força. Eu odiava barulho. Odiava qualquer coisa que quebrasse minha rotina de tédio autoritário e me obrigasse a sentir algo. Problemas novos geralmente trazem sentimentos velhos, e eu não estava a fim de lidar com nenhum dos dois.
— Alguém conhece? É de família de morador? — perguntei, ainda de costas.
— Ninguém, chefe. Veio do asfalto. Tá com uma mala pequena e o rosto desfigurado de porrada. Tá pedindo abrigo, disse que prefere morrer aqui em cima do que voltar pra onde tava.
Senti um incômodo sutil no peito. Aquela frase — "prefere morrer aqui" — ecoou em um lugar da minha mente que eu mantinha trancado a sete chaves. Era o desespero de quem não tem mais para onde correr. Era o som do fim da linha. Joguei a bituca do cigarro longe, vendo o ponto vermelho cair no abismo, e me virei. Meus olhos deviam estar frios como duas pedras de gelo, porque vi MT endireitar a postura.
— Leva ela pro galpão de triagem. Vou descer lá — eu disse, sentindo uma curiosidade mórbida que há muito não me visitava. — Se for x9 ou mandada de outro morro, você já sabe o procedimento. Não temos espaço para cavalirismo aqui.
— Com certeza, chefe. Mas tem um detalhe... — MT hesitou por um segundo, o que era raro. — Ela falou que o cara que tava atrás dela é polícia. Dos grandes.
Parei no meio do caminho. A palavra "polícia" sempre trazia um gosto amargo de sangue à minha boca. Um gosto de ferro e arrependimento. Foi em um confronto com a farda que eu perdi minha razão de viver. Foi a lei do asfalto que me deixou esse buraco no peito que droga nenhuma consegue preencher.
— Polícia, é? — Um sorriso amargo e perigoso surgiu no canto da minha boca.
Senti o sangue pulsar mais forte, uma descarga de adrenalina que eu não sentia há anos. Se a lei do asfalto quer essa mulher morta, então ela acaba de se tornar o meu bem mais precioso. Por doze anos eu aceitei o golpe que me deram, me escondendo no topo deste morro e gerenciando o luto. Mas se o carrasco dela tem farda e distintivo, o jogo mudou.
— Então traz ela — ordenei, ajustando a bandoleira do fuzil no meu peito. — Se a lei do asfalto quer ela morta, ela vai descobrir que aqui em cima quem dita as regras sou eu. E eu não costumo devolver o que me pertence.
Desci as escadarias de mármore com passos pesados, cada degrau ecoando como uma promessa de guerra. O morro parecia em paz sob o luar, mas dentro de mim, o silêncio do luto estava sendo substituído pelo barulho da artilharia.
Eu não sabia quem ela era, nem qual era o seu nome, mas se ela estava fugindo do mesmo tipo de monstro que destruiu a minha família, ela não era apenas uma refugiada. Ela era a peça que faltava. Eu não estava mais interessado em apenas esquecer. Olhei para o horizonte, onde as luzes da cidade tentavam esconder a podridão do asfalto, e senti um frio prazer percorrer minha espinha.
Duas ruínas estavam prestes a se encontrar no meio do caos. E, no meio dos nossos destroços, talvez não houvesse espaço para o perdão. Aquela mulher não era apenas uma intrusa; ela era o estopim que eu esperava. Aquele encontro não seria o fim da minha dor, mas finalmente, o começo da minha vingança.
Capítulo 20: A Lei da Atração (Miguel)Sair daquele banheiro e encontrar Ágata no meu quarto foi como levar um tiro de raspão: o susto te paralisa antes da dor e do calor começarem a queimar. Eu estava apenas com uma toalha, o corpo ainda soltando vapor, e a última coisa que eu esperava era dar de cara com a mulher que vinha assombrando cada hora de sono que eu tentava ter.Eu vi o caminho que os olhos dela fizeram. Ela não olhou para mim como os meus soldados olham — com temor ou respeito. Ela olhou para mim como se eu fosse um território desconhecido que ela tinha medo e, ao mesmo tempo, uma vontade absurda de explorar. Senti meu sangue ferver, uma pulsação forte na base do pescoço que não tinha nada a ver com o esforço das rondas. Cada cicatriz no meu peito pareceu queimar sob o escrutínio dela. Eu queria que ela desviasse o olhar, mas, no fundo, eu queria que ela chegasse mais perto e tocasse cada marca daquelas com os dedos que eu sabia que eram macios.Mandei ela sair porque eu
Capítulo 19: O Relevo das Cicatrizes (Ágata)Trinta dias no morro me ensinaram que a liberdade tem um cheiro diferente daquele que eu imaginava. Não cheira a maresia ou a perfumes importados; cheira a terra úmida, café passado no coador de pano e ao ferro do armamento que Miguel mantém sempre por perto. Mas, acima de tudo, para mim, a liberdade começou a ter o cheiro dele.Durante esse mês, minha percepção sobre o "Pai" mudou drasticamente. No asfalto, ele era uma lenda urbana, um nome que os homens como Ricardo pronunciavam com nojo e um medo disfarçado de autoridade. Aqui, eu via o homem. Eu via o jeito como ele olhava para os idosos da comunidade com um respeito quase sagrado, e como o seu silêncio impunha mais ordem do que qualquer grito do meu ex-marido.Eu estava ajudando Dona Glória. Ela se tornou meu porto seguro, uma mulher de mãos calejadas e coração imenso que parecia ler meus pensamentos.— Ágata, querida, leve essas toalhas limpas lá para cima — Dona Glória pediu, enquant
Capítulo 18: O Som do Engatilha-mento (Miguel)Trinta dias. Trinta vezes o sol nasceu sobre esse morro desde que Ágata cruzou o meu portão com os olhos cheios de vidro quebrado e a alma em frangalhos. No meu mundo, um mês pode ser uma eternidade ou o piscar de olhos de uma execução. Para ela, foi o tempo necessário para o roxo das costas sumir e ser substituído por algo que eu não via há muito tempo nesta casa: resistência.Eu a observei mudar. A seda pérola que ela usou naquela primeira noite na varanda ficou guardada no fundo do armário, uma relíquia de uma vida que ela estava tentando enterrar. Agora, ela usava regatas escuras, calças táticas que eu mandei buscar e o cabelo preso em um rabo de cavalo firme. Ela não parecia mais uma boneca; parecia uma lâmina sendo forjada.— De novo, Ágata. O cano da arma não é um acessório, é uma extensão do seu braço — eu disse, minha voz ecoando no porão que transformei em estande de tiro improvisado.Ela estava suada. O cheiro doce de flores qu
Capítulo 17: O Veneno da Patente (Ricardo)O gabinete cheirava a couro caro, café frio e o odor metálico de um ódio que eu já não conseguia mais mascarar. Como Coronel da Polícia Militar, eu estava acostumado a mover o estado com um estalar de dedos. Tinha o comando, tinha a farda e tinha o medo dos meus subordinados. Mas de um mês eu não tinha o que era meu por direito.Eu não tinha Ágata.O cinzeiro de cristal na mesa de jacarandá transbordava. Amassei o quinto cigarro da manhã, sentindo a pulsação na têmpora direita como uma batida de martelo. Levantei-me e caminhei até a janela panorâmica do quartel, observando a cidade. Para qualquer outro, aquela era uma vista do Rio de Janeiro; para mim, era um tabuleiro onde uma de minhas peças havia sumido, e isso era inadmissível.— Incompetentes — rosnei para o vidro, minha própria imagem refletida parecendo a de um animal enjaulado. — Um batalhão inteiro sob o meu comando. O serviço de inteligência na palma da minha mão. E ninguém consegue
Capítulo 16: O Peso da Proteção (Ágata)O lençol de fios egípcios que Ricardo comprou para a nossa cobertura em Ipanema sempre me pareceu uma mortalha. Eram frios, impessoais e cheiravam a amaciante caro e a segredos sufocados. Mas aqui, deitada nesta cama que não é minha, em um quarto que cheira a madeira e ao perfume amadeirado e rústico de Miguel, o tecido de algodão simples contra a minha pele parece, pela primeira vez em anos, um abraço.Fechei os olhos, mas a escuridão do quarto era uma tela onde o rosto de Miguel se projetava repetidamente. “Eu sou o vigia”, ele disse. Sua voz não foi uma ameaça, foi um veredito.Rolei para o lado, sentindo o latejo suave nas minhas costas. As marcas que Ricardo deixou ainda estavam lá, mas a queimação do encontro na varanda era mais forte. Quando passei por Miguel no corredor, o calor que emanava do corpo dele era quase palpável. Eu queria ter parado. Queria ter encostado a mão naquele peito nu, apenas para ter certeza de que ele era feito de
Capítulo 15: Sombras e Sentinelas (Miguel)O silêncio na minha casa nunca é absoluto. Eu ouço o estalar das vigas, o vento soprando nas frestas e o eco distante dos meus homens nos postos de vigia. Mas naquela noite, o barulho que me tirou do sono leve foi diferente. Foi um ruído sutil, o ranger de um degrau que só quem conhece cada centímetro desse chão consegue identificar.Rolei para fora da cama, a mão buscando instintivamente a arma sobre o criado-mudo, mas parei antes de sacá-la. Não era um ataque. Eu sentiria se fosse. Era algo mais leve, quase etéreo. Joguei um lençol sobre os ombros e saí do quarto, sentindo o piso frio sob os pés descalços.Desci as escadas para a cozinha, a garganta seca como o asfalto em dia de sol. Eu só queria um copo d’água para aplacar a combustão interna que não me deixava descansar desde que aquela mulher cruzou o meu portão. Mas, ao chegar ao pé da escada, notei um feixe de luz âmbar cortando o corredor. A luz da varanda estava acesa.Fechei a mão e





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