Capítulo 9

Capítulo 9: O Equilíbrio do Caos (Miguel)

O sol da manhã entrava pelas frestas da persiana, desenhando linhas de luz no chão de madeira da casa de apoio. Eu estava na sala, limpando a pistola, mas meu ouvido estava atento a cada ruído que vinha do corredor. Fazia oito dias. Oito dias de silêncio, de sopas da Dona Glória e de uma calmaria que me deixava inquieto.

De repente, ouvi um baque surdo. Algo caindo, seguido de um suspiro sufocado.

Larguei a arma sobre a mesa e, em dois passos, atravessei o corredor. A porta do quarto da Ágata estava entreaberta. Ela não estava na cama.

— Ágata? — chamei, a voz saindo mais áspera do que eu pretendia.

Eu a encontrei parada no meio do quarto, agarrada às costas de uma cadeira de madeira. Ela estava pálida, as pontas dos dedos brancas de tanto apertar a madeira. Ela tentava caminhar sozinha, sem o apoio da Glória, sem o meu aviso. A teimosia dela era a única coisa que parecia estar se recuperando mais rápido que o corpo.

— Eu... eu só queria ver a janela — ela sussurrou, a respiração vindo em soluços curtos. — Eu cansei de olhar para essas quatro paredes, Miguel. Elas parecem... as paredes de lá.

Ela tentou dar mais um passo. Vi o momento exato em que os joelhos dela falharam. O corpo dela, ainda frágil pelas costelas que mal haviam colado, pendeu para o lado como uma boneca de pano.

— Droga, Ágata!

Fui mais rápido. Meus braços a circularam antes que ela atingisse o chão. Eu a segurei firme, uma mão espalmada em suas costas e a outra sustentando seu braço. O impacto do corpo dela contra o meu foi como um curto-circuito. Ela era pequena perto de mim, mas o calor que emanava da sua pele, mesmo com a fraqueza, atravessou minha camisa.

Ela soltou um arquejo de dor e susto, enterrando o rosto no meu ombro por um segundo. Instintivamente, meus braços a apertaram mais, protegendo-a da queda, protegendo-a do mundo.

— Eu te disse para esperar — rosnei perto do ouvido dela, mas minha voz não tinha a autoridade de antes. Estava rouca, baixa.

— Eu não queria incomodar — ela respondeu, afastando o rosto do meu peito para me olhar.

Foi aí que o tempo parou.

Eu ainda a segurava, nossos corpos colados de um jeito que nenhum de nós dois estava preparado. O rosto dela estava a centímetros do meu. Pude ver as pequenas sardas que o sol do Rio tinha deixado em seu nariz, a cicatriz quase invisível no lábio que estava cicatrizando, e aqueles olhos... azul-acinzentados, agora dilatados, focados nos meus.

Eu sentia a respiração dela falhando, não mais pela dor, mas pela proximidade. Pela primeira vez em anos, eu não senti o peso do fuzil no meu ombro ou a responsabilidade do morro nas costas. Eu só sentia o cheiro dela — uma mistura de sabonete de flores e algo doce, puramente dela.

Meus olhos desceram para a boca dela por um milésimo de segundo e voltaram para os seus olhos. O silêncio entre nós não era mais o de dois estranhos, era algo denso, carregado de uma eletricidade perigosa. Eu era o homem que matava sem piscar, e ela era a mulher que tinha todos os motivos do mundo para temer qualquer toque masculino.

Mas ela não desviou o olhar. Ela não tentou se soltar.

— Você é muito teimosa para o seu próprio bem — eu disse, minha voz vibrando no peito, onde o coração dela batia acelerado contra o meu.

— E você é muito mais gentil do que deixa as pessoas acreditarem — ela retrucou, um sussurro corajoso que me desarmou mais do que qualquer emboscada.

A tensão era quase insuportável. Minha mão nas costas dela subiu involuntariamente, os dedos roçando a nuca onde o cabelo era macio. Por um momento, a ideia de diminuir aquela distância cruzou minha mente como um incêndio. Eu queria saber se ela tinha o gosto da paz que eu nunca tive.

O rádio no meu cinto chiou, quebrando o feitiço.

Pai? Tá na escuta? O bicho pegou no setor 3. Os canas tão subindo com o blindado. — A voz do MT estalou, fria e urgente.

A realidade me atingiu como um soco. Eu a soltei devagar, garantindo que ela estivesse firme nos pés antes de recuar. A máscara do "Pai" voltou ao meu rosto instantaneamente, fria e impenetrável.

— Fica na cama, Ágata. Se você cair e se quebrar de novo, eu não vou ter paciência para te consertar — menti, minha voz voltando ao tom de comando.

Ela assentiu, mas vi o brilho nos olhos dela. Ela sabia. Ela tinha sentido o que eu senti.

Saí do quarto sem olhar para trás, pegando minha pistola na mesa da sala. Eu precisava de uma guerra. Precisava de sangue e de barulho, porque aquele silêncio no quarto dela estava começando a me mostrar algo que eu tinha passado doze anos tentando esquecer: que eu ainda tinha um coração. E corações são alvos fáceis.

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