Mundo de ficçãoIniciar sessão
Doze anos Antes
Capítulo 1: Onde o Tempo Parou
O som não era de música, nem de festa. Era o som do metal colidindo, do concreto lascando e dos gritos que cortavam o ar quente da tarde de domingo. O Morro estava sob ataque, mas para Miguel, o mundo havia se reduzido a um raio de dois metros quadrados.
No chão de terra batida, o vermelho se espalhava com uma velocidade aterrorizante.
— Estela! Estela, olha para mim, porra! — O grito de Miguel rasgou sua garganta, cru e desesperado.
Ele a puxou para o colo, ignorando o zunido das balas que ainda passavam próximas. A mão dele, trêmula e suja de pólvora, tentava estancar o sangue que jorrava do peito dela. Estela tinha os olhos arregalados, fixos no pequeno corpo caído a poucos passos dali. O filho deles, de apenas quatro anos, não se mexia mais. O brinquedo de plástico que ele segurava estava estraçalhado.
— Estela, não morre! Estela, por favor, fica comigo... — Ele a sacudia de leve, as lágrimas queimando seus olhos e se misturando ao suor. — Fica comigo, vai, caralho! Não me deixa aqui sozinho! Abre o olho, meu amor! Me responde!
Ela tentou. Os lábios dela tremeram, buscando oxigênio, buscando uma última palavra para o homem que amava. Mas o brilho em suas pupilas começou a nublar, uma cortina cinza descendo sobre o castanho vivo que ele tanto adorava. Quando a mão dela, que tentava segurar a camisa dele, perdeu a força e caiu pesada contra o chão, o grito que escapou de Miguel não foi humano. Foi o urro de uma fera ferida de morte, um som que fez até os soldados mais antigos recuarem.
Naquele dia, nas vielas tingidas de tragédia, o jovem Miguel morreu junto com eles. O que sobrou foi apenas uma carcaça movida a ódio e, depois, a um vazio absoluto.
Doze anos depois
Capítulo 1: Sombras do Passado
O silêncio é a única coisa que eu permito dentro desta casa. No topo do morro, construí uma fortaleza de concreto e vidro que me permite vigiar tudo, como um sentinela de pedra que não dorme. Para o mundo lá fora, doze anos se passaram. Para mim, o tempo é uma linha estagnada, um relógio que parou de bater no exato momento em que o sangue de Estela esfriou nos meus braços.
Levantei-me da poltrona de couro, sentindo o peso do meu próprio corpo. Eu não sou mais aquele garoto magro e desesperado de uma década atrás. Hoje, meu corpo é robusto, fechado em tatuagens que narram minha ascensão no crime e cada uma das perdas que carrego. No meu mundo, tinta na pele não é estética; é escudo. É uma forma de dizer ao mundo que eu já morri por dentro tantas vezes que não há mais espaço para novas feridas.
Caminhei até a varanda e acendi um cigarro. A brasa brilhou na escuridão, a única luz além das lâmpadas distantes da cidade. O Rio de Janeiro brilhava lá embaixo, lindo e indiferente. A cidade fede a privilégio e ignorância, alheia à guerra silenciosa que eu travo contra minhas próprias memórias todas as noites. Aqui em cima, eu sou o "Pai". Sou o dono do morro, a lei absoluta, a palavra final que decide quem vive e quem morre. Mas, dentro destas paredes luxuosas, eu sou apenas um homem que evita olhar para o lado esquerdo da cama.
Aquele espaço vazio permanece frio, intocado. Às vezes, o cheiro do perfume dela parece flutuar no ar, como se o fantasma de Estela ainda reclamasse o lugar que lhe foi tirado.
— Chefe? — A voz baixa de MT veio da porta, interrompendo o fluxo dos meus pensamentos.
Eu não me virei. Continuei observando as luzes, deixando a fumaça sair lentamente pelos meus lábios. Eu não precisava olhar para saber que ele estava em posição de respeito.
— Fala — ordenei, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia.
— Os meninos pegaram um movimento estranho na entrada da mata. Uma mulher. Tá sozinha, toda machucada. Diz que tá fugindo, mas você sabe como é... em tempo de invasão, a gente não facilita.
Apertei o parapeito de mármore com força. Eu odiava barulho. Odiava qualquer coisa que quebrasse minha rotina de tédio autoritário e me obrigasse a sentir algo. Problemas novos geralmente trazem sentimentos velhos, e eu não estava a fim de lidar com nenhum dos dois.
— Alguém conhece? É de família de morador? — perguntei, ainda de costas.
— Ninguém, chefe. Veio do asfalto. Tá com uma mala pequena e o rosto desfigurado de porrada. Tá pedindo abrigo, disse que prefere morrer aqui em cima do que voltar pra onde tava.
Senti um incômodo sutil no peito. Aquela frase — "prefere morrer aqui" — ecoou em um lugar da minha mente que eu mantinha trancado a sete chaves. Era o desespero de quem não tem mais para onde correr. Era o som do fim da linha. Joguei a bituca do cigarro longe, vendo o ponto vermelho cair no abismo, e me virei. Meus olhos deviam estar frios como duas pedras de gelo, porque vi MT endireitar a postura.
— Leva ela pro galpão de triagem. Vou descer lá — eu disse, sentindo uma curiosidade mórbida que há muito não me visitava. — Se for x9 ou mandada de outro morro, você já sabe o procedimento. Não temos espaço para cavalirismo aqui.
— Com certeza, chefe. Mas tem um detalhe... — MT hesitou por um segundo, o que era raro. — Ela falou que o cara que tava atrás dela é polícia. Dos grandes.
Parei no meio do caminho. A palavra "polícia" sempre trazia um gosto amargo de sangue à minha boca. Um gosto de ferro e arrependimento. Foi em um confronto com a farda que eu perdi minha razão de viver. Foi a lei do asfalto que me deixou esse buraco no peito que droga nenhuma consegue preencher.
— Polícia, é? — Um sorriso amargo e perigoso surgiu no canto da minha boca.
Senti o sangue pulsar mais forte, uma descarga de adrenalina que eu não sentia há anos. Se a lei do asfalto quer essa mulher morta, então ela acaba de se tornar o meu bem mais precioso. Por doze anos eu aceitei o golpe que me deram, me escondendo no topo deste morro e gerenciando o luto. Mas se o carrasco dela tem farda e distintivo, o jogo mudou.
— Então traz ela — ordenei, ajustando a bandoleira do fuzil no meu peito. — Se a lei do asfalto quer ela morta, ela vai descobrir que aqui em cima quem dita as regras sou eu. E eu não costumo devolver o que me pertence.
Desci as escadarias de mármore com passos pesados, cada degrau ecoando como uma promessa de guerra. O morro parecia em paz sob o luar, mas dentro de mim, o silêncio do luto estava sendo substituído pelo barulho da artilharia.
Eu não sabia quem ela era, nem qual era o seu nome, mas se ela estava fugindo do mesmo tipo de monstro que destruiu a minha família, ela não era apenas uma refugiada. Ela era a peça que faltava. Eu não estava mais interessado em apenas esquecer. Olhei para o horizonte, onde as luzes da cidade tentavam esconder a podridão do asfalto, e senti um frio prazer percorrer minha espinha.
Duas ruínas estavam prestes a se encontrar no meio do caos. E, no meio dos nossos destroços, talvez não houvesse espaço para o perdão. Aquela mulher não era apenas uma intrusa; ela era o estopim que eu esperava. Aquele encontro não seria o fim da minha dor, mas finalmente, o começo da minha vingança.







