Capítulo 2

Capítulo 2: O Espelho da Alma

O ar da noite no morro é diferente do asfalto. É mais pesado, carregado com o cheiro de mata úmida e o óleo das máquinas que nunca param. Desci a ladeira em direção ao galpão de triagem, sentindo o olhar dos meus soldados sobre mim. Eles abriam caminho, em um silêncio reverencial. No morro, quando o "Pai" desce pessoalmente para resolver algo, é porque o assunto é sério. E para mim, nada era mais sério do que a chance de dar o troco naqueles que se escondem atrás de um distintivo para destruir vidas.

O galpão era um prédio antigo, de zinco e tijolo aparente, usado para tudo o que precisava de discrição. A luz lá dentro era precária, apenas alguns refletores amarelados que criavam sombras longas e distorcidas nas paredes. Parei na porta por um segundo, ajustando o fuzil no ombro. Eu podia sentir o meu coração batendo num ritmo que eu não reconhecia. Não era medo — o medo eu matei há doze anos. Era uma antecipação sombria.

— Ela está lá no fundo, chefe — MT murmurou ao meu lado, apontando para uma cadeira de madeira sob a única lâmpada acesa.

Caminhei devagar. O som das minhas botas contra o cimento batido parecia um tiro de advertência. À medida que eu me aproximava, a silhueta da mulher começava a tomar forma. Ela estava encolhida, os ombros curvados como se estivesse esperando o próximo golpe. Uma mala pequena, gasta, estava jogada aos seus pés.

Quando parei a dois metros dela, ela não levantou a cabeça de imediato. Eu podia ver o tremor em suas mãos, pequenas e pálidas contra o jeans sujo. O cabelo loiro, meio bagunçado, caía sobre o rosto, escondendo o que MT chamou de "desfigurado".

— Levanta a cabeça — ordenei. Minha voz ecoou no galpão vazio, fria e sem paciência.

Ela hesitou. O silêncio entre nós era tão denso que eu podia ouvir a respiração curta e assustada dela. Lentamente, ela começou a se mover. Quando ela finalmente ergueu o rosto para a luz, o impacto foi como um soco no meu estômago que eu não estava preparado para receber.

O rosto dela era um mapa de dor. O olho esquerdo estava roxo e inchado, um corte profundo dividia o lábio inferior e marcas de dedos ainda estavam impressas na pele delicada do pescoço. Mas não foram os hematomas que me paralisaram. Foram os olhos. Um azul acinzentado, como o mar antes de uma tempestade, que me encarava com uma mistura letal de terror e desafio.

Por um segundo, o mundo ao meu redor desapareceu. O galpão sumiu, o MT sumiu, até o peso do fuzil pareceu esquecido. Aqueles olhos... eles não eram os olhos de uma vítima comum. Eram olhos que já tinham visto o inferno e decidido que o inferno não era o limite.

— Quem te mandou aqui? — perguntei, lutando para manter o tom de voz estável. Algo em mim, um instinto que eu acreditava ter sido enterrado junto com Estela, deu um sinal de vida. Uma pontada de algo que não era vingança, nem ódio. Era reconhecimento.

— Ninguém — a voz dela saiu num sussurro quebrado, mas firme. — Eu só... eu só precisava sumir. Eles disseram que a polícia não sobe aqui sem guerra. E eu já tive guerra demais por uma vida inteira.

Eu me aproximei mais um passo, invadindo o espaço dela. Ela não recuou. Ela apenas fechou os olhos por um momento, como se esperasse que eu terminasse o serviço que o ex-marido começou. O cheiro dela chegou até mim — sabão barato e medo, mas sob tudo isso, algo doce que me fez apertar os punhos com força.

— Você sabe quem eu sou? — inclinei o corpo, forçando-a a olhar para mim novamente.

— Eu sei o que você é — ela respondeu, os olhos agora fixos nos meus. — Você é o dono do lugar. E eu estou pedindo asilo. Ou uma bala. O que for mais rápido.

A audácia dela me pegou de surpresa. Ninguém falava assim comigo. Ninguém olhava para o "Pai" e pedia uma bala com aquela naturalidade. Olhei para o rosto dela novamente, detalhando cada marca da violência que ela sofreu. O ódio pela farda que causou aquilo começou a ferver no meu sangue, mas junto com ele, veio uma confusão mental que me irritava.

Por que eu estava me importando com o jeito que ela respirava? Por que o tremor nas mãos dela parecia estar espelhado nas minhas, escondidas atrás das costas?

— MT disse que o seu marido é polícia — falei, a palavra saindo como um cuspe.

— Ex-marido — ela corrigiu, e vi uma sombra de pavor cru passar por suas feições antes dela se recompor. — Ele usa a lei para me caçar. Ele diz que ninguém foge dele.

Eu dei uma risada curta e sem humor, um som seco que não chegava aos meus olhos. — Pois ele acabou de encontrar o único lugar onde a lei dele não vale um centavo. No meu morro, a única lei que existe sou eu. E eu não gosto de polícia abusando do poder no meu quintal.

Virei-me para o MT, que observava a cena com uma expressão intrigada. Eu sabia o que ele estava pensando. Eu deveria interrogá-la mais, deveria revistar cada centímetro daquela mala, deveria ser o carrasco que todos esperavam que eu fosse. Mas eu não conseguia tirar os olhos daquela mulher. Ela era o estopim da minha vingança contra o sistema, sim. Mas era mais do que isso.

Ela era um espelho. Um espelho que estava refletindo uma parte de mim que eu não via há doze anos: a parte que ainda sabia o que era ser destruído por quem deveria proteger.

— Leva ela pra casa da Dona Glória — ordenei, sem olhar para trás. — Quero ela limpa, alimentada e com os curativos feitos. Ninguém encosta nela sem a minha ordem. Ela é minha convidada.

— Convidada, chefe? — MT estranhou.

— Eu não gaguejei, MT. Ela fica. Se o policial dela quiser vir buscar, diz que eu estou esperando de braços abertos... e fuzil carregado.

Saí do galpão sentindo o ar frio da noite bater no meu rosto, mas o calor no meu peito não diminuía. Eu disse a mim mesmo que era apenas o início da vingança. Que ela era apenas uma ferramenta. Mas mentir para mim mesmo nunca foi meu forte.

Enquanto subia de volta para a minha mansão de vidro, a imagem do rosto ferido dela não saía da minha mente. Eu não sabia o nome dela, não sabia de onde vinha a sua força, mas de uma coisa eu tinha certeza: aquela mulher acaba de quebrar o silêncio da minha casa antes mesmo de entrar nela. E, pela primeira vez em doze anos, o peso do fuzil não era a coisa mais importante que eu estava carregando.

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