Mundo de ficçãoIniciar sessãoO despertador nem precisou tocar. Meus olhos se abriram às cinco da manhã, no exato momento em que os primeiros raios de sol começavam a lutar contra a névoa que cobria o topo do morro. No meu mundo, quem dorme demais acaba acordando com o cano de uma arma na boca. Levantei-me da cama e, como faço em todas as manhãs dos últimos doze anos, evitei olhar para o lado esquerdo do colchão. O vazio ali já tinha o formato de uma ausência que nunca cicatrizava.
Tomei um banho frio, deixando a água bater contra as tatuagens que cobriam meu peito e meus braços. Cada desenho era um lembrete: o fuzil no antebraço pela primeira invasão, o rosto de Estela perto do coração, e o nome do meu filho, pequeno, quase escondido no pulso. Saí do banho, vesti uma calça cargo preta, uma regata que deixava as marcas da minha história à mostra e joguei o cordão de ouro no pescoço. O ouro era o peso do poder, mas o fuzil que peguei logo em seguida era a única garantia de que eu continuaria a exercê-lo.
Saí de casa sem tomar café. O estômago estava fechado, como se algo estivesse entalado ali desde a noite anterior.
— Bom dia, Pai — os vapores saudavam enquanto eu descia a ladeira.
Apenas acenei com a cabeça. No caminho até a principal boca de fumo do setor norte, o morro já pulsava. O cheiro de café passado nas casas simples se misturava ao cheiro de asfalto quente. Mulheres estendiam roupas, crianças corriam antes da escola, e os meus homens mantinham a guarda em cada esquina estratégica.
Cheguei na boca e o movimento era intenso. O rádio no meu ombro não parava: "Tudo 2 no setor 4", "Visão na entrada da mata". Sentei-me em um banco de madeira, observando os vapores organizarem a carga. O dinheiro entrava, a mercadoria saía, e o ritmo do crime era a única música que eu ouvia. Mas, pela primeira vez em muito tempo, minha mente não estava nos números ou na segurança do perímetro.
Minha mente estava naquele rosto desfigurado. Naqueles olhos que pediram uma bala como se pedissem um favor.
— Chefe? Os radinhos do setor sul tão avisando que tem viatura fazendo ronda na beira da pista. Estão mais ativos que o normal — MT se aproximou, tirando-me do transe.
— É por causa dela — falei, a voz saindo como um rosnado. — O desgraçado que bateu nela deve estar usando o distintivo para caçar o próprio rastro. Avisa pra ninguém dar mole. Se tentarem subir, a recepção é com chumbo.
Fiquei ali por horas, fingindo conferir o movimento, mas a verdade é que eu estava inquieto. O tédio autoritário que costumava me guiar tinha sido substituído por uma urgência estranha. Por volta das dez da manhã, não aguentei mais. Deixei o MT no comando da boca e caminhei em direção à casa de Dona Glória.
Dona Glória era a matriarca do morro. Ela cuidava de todo mundo, inclusive de mim, quando o luto ameaçava me derrubar. A casa dela ficava em uma parte mais calma, cercada por vasos de plantas que pareciam milagres em meio ao concreto.
Quando cheguei, ela estava na varanda, limpando as mãos no avental. O olhar dela para mim sempre era de quem via através da máscara do "Pai".
— Como ela está? — perguntei, sem rodeios. Não precisei dizer nomes. Só havia uma "ela" no morro hoje.
Dona Glória suspirou fundo e me chamou para um canto, longe dos ouvidos dos seguranças que me seguiam.
— Miguel, meu filho... o negócio está feio — ela disse, e vi a tristeza em seus olhos cansados. — Eu limpei o sangue, dei banho, tentei dar um caldo de galinha, mas ela mal consegue engolir.
Senti um nó apertar minha garganta. — Ela acordou?
— Acordou, mas parece que está em outro mundo. Miguel, aquela menina está muito machucada. Não é só o rosto não. Ela tem marcas roxas pelas costelas, as costas estão em carne viva... aquele homem não é um ser humano, é um bicho.
Apertei o punho com tanta força que as juntas dos dedos ficaram brancas. A imagem dela encolhida no galpão voltou com tudo. O ódio pela polícia, que já era meu combustível, agora tinha um alvo específico.
— Eu quero ver ela — anunciei, dando um passo em direção à porta.
Dona Glória colocou a mão no meu peito, parando-me. — Espera. Tem uma coisa que você precisa saber. Eu acho que ela tem ferimentos internos. Ela está respirando com muita dificuldade e geme de dor toda vez que tenta se virar na cama. Miguel, o melhor seria levar ela para a UPA. Eu fiz o que pude, mas aqui eu não tenho raio-x, não tenho remédio forte pra dor que ela está sentindo.
Parei. Levar alguém "de fora" para a UPA era um risco. O hospital era vigiado, e se o ex-marido dela fosse mesmo um policial influente, ele teria informantes lá. Mas olhar para o rosto de Dona Glória e ver a preocupação dela me fez entender a gravidade.
Entrei na casa em silêncio. No quarto dos fundos, a luz estava baixa. Aproximei-me da cama devagar. Ali, deitada sob os lençóis limpos, estava a mulher que desafiou minha autoridade com um olhar. Sem a sujeira do galpão, ela parecia ainda mais frágil. O rosto estava uma máscara de roxos e amarelos.
Ela estava dormindo, ou tentando. A respiração era curta, sibilante, exatamente como Dona Glória descreveu. Cada vez que o ar entrava, o rosto dela se contraía em uma careta de dor, mesmo inconsciente.
Fiquei ali, em pé, observando-a. O "Pai", o dono do morro, o homem que não sentia nada, sentiu o chão balançar. Não era apenas uma arma contra a polícia que estava ali. Era uma vida estilhaçada. E, por um segundo, o rosto de Estela pareceu se sobrepor ao dela. O mesmo desespero, a mesma injustiça.
— Você não vai morrer no meu morro — sussurrei para o vazio do quarto.
Virei-me para Dona Glória, que me esperava na porta. — Prepara ela. Vou mandar o MT organizar um comboio discreto. Não vamos para a UPA aqui de perto. Vamos para a clínica do Dr. Arnaldo, na Baixada. Ele me deve favores e sabe manter a boca fechada.
— Você vai com ela? — Dona Glória perguntou.
Olhei uma última vez para a mulher na cama. Ela não tinha nome para mim, mas já tinha um lugar na minha guerra. — Vou. Quero ver quem é o desgraçado que vai tentar tirar ela de mim.
Saí da casa sentindo o sangue ferver. A rotina da boca, o dinheiro, os vapores... tudo parecia pequeno agora. Eu tinha uma protegida. E se a lei do asfalto achava que podia brincar de deus e bater em mulher, eles estavam prestes a descobrir que, no meu reino, o diabo usa tatuagens e não aceita desaforo.
A vingança não era mais apenas uma ideia. Ela tinha começado a respirar com dificuldade naquele quarto de fundos. E eu ia garantir que ela voltasse a respirar fundo, nem que eu tivesse que queimar o Rio de Janeiro inteiro para isso.







