Capítulo 5

Capítulo 5: Retalhos de Dor (Ágata)

A dor não é apenas um sentimento; é um lugar. E eu estava perdida dentro dela.

Não lembro exatamente como cheguei àquela cama. Minha memória é um emaranhado de flashes: o rosto frio do homem no galpão, o balanço de uma lanterna, e depois, mãos mãos quentes e calejadas que me seguravam com uma delicadeza que eu não conhecia. Quando finalmente o mundo parou de girar, eu estava em um quarto que cheirava a lavanda e mofo antigo.

Uma senhora de olhos doces e mãos firmes, que se apresentou como Dona Glória, tornou-se meu anjo da guarda naquela noite interminável. Cada vez que ela passava um pano úmido nos meus cortes, eu queria gritar. Cada vez que ela tentava me fazer engolir uma colher de caldo, meu corpo protestava.

— Calma, pequena. Aqui ele não entra — ela sussurrava, como se estivesse lendo meus pensamentos.

A palavra "ele" me dava calafrios. Eu ainda esperava que, a qualquer momento, Ricardo chutasse aquela porta com o distintivo na mão e aquele sorriso sádico que dizia que eu nunca seria livre. Mas as horas passavam e o único som era o das folhas batendo na janela e o eco distante de rádios comunicadores.

A noite foi um deserto de agonia. Minhas costelas pareciam lanças perfurando meus pulmões a cada respiração. Eu sentia as costas queimarem, um lembrete vívido da fivela do cinto de Ricardo. Tentei rezar, mas as palavras se perdiam no cansaço. Eu só queria que o escuro me levasse.

Quando o primeiro clarão do amanhecer começou a riscar o teto de madeira, eu estava em um estado de semiconsciência. Meus olhos pesavam toneladas. Eu queria abrir as pálpebras, queria saber se ainda estava viva, mas o esforço parecia impossível.

Foi então que eu senti.

A atmosfera do quarto mudou. O ar pareceu ficar mais denso, carregado de uma eletricidade silenciosa. O som dos passos era quase imperceptível, mas a presença era esmagadora. Alguém estava ali, parado ao pé da minha cama.

Não era Dona Glória. O peso daquela presença era masculino, sólido, como uma montanha que acabara de se erguer ao meu lado. Eu tentei abrir os olhos, mas a dor nas têmporas me impediu. Fiquei ali, imóvel, sentindo aquele olhar sobre mim — não era um olhar que me despia ou me agredia, era um olhar que parecia me pesar, me avaliar.

E então, o cheiro me atingiu.

Não era o cheiro de álcool e suor de Ricardo. Era algo profundo: tabaco caro, madeira queimada e um toque de perfume importado, amadeirado, que misturava sândalo com o cheiro da manhã fria. Era um aroma que exalava poder, mas também uma solidão imensa.

Meu coração, que estava acelerado pelo medo, estranhamente começou a se acalmar. Eu sabia quem era. Mesmo sem ver suas tatuagens ou seu fuzil, eu sabia que o "Pai" estava ali. O dono daquele império de sombras tinha descido do seu trono para observar os destroços de uma mulher que ele mal conhecia.

Eu queria falar. Queria pedir que ele não me entregasse. Mas o que saiu da minha garganta foi apenas um gemido fraco, um som de suplício que cortou o silêncio do quarto.

Senti um movimento. O cheiro dele ficou mais forte quando ele se inclinou levemente. Eu esperava um toque brusco, mas o que ouvi foi apenas o som da sua respiração, pesada e ruidosa, como a de alguém que também carregava cicatrizes invisíveis.

— Você não vai morrer no meu morro — a voz dele veio como um trovão baixo, vibrando no meu peito.

Aquelas palavras não foram uma promessa de amor, foram um decreto. Uma ordem que nem a morte ousaria desobedecer.

Ouvi-o se afastar e falar com Dona Glória na porta. As palavras "ferimentos internos", "UPA" e "clínica" flutuaram pela minha mente nublada. Eu estava sendo levada de novo. O pânico tentou subir pela minha garganta, mas a lembrança daquele perfume amadeirado e daquela voz firme me manteve ancorada.

Pela primeira vez em cinco anos, eu não era uma presa acuada. Eu era algo que ele decidira proteger. E enquanto eu sentia os braços fortes de alguém me levantando da cama para me levar ao carro, eu fechei os olhos e me deixei levar pelo rastro daquele cheiro.

Se Ricardo era o monstro que usava a luz do dia para me torturar, talvez aquele homem fosse o demônio que usaria a escuridão para me salvar. E, naquele momento, em meio à dor insuportável, eu só conseguia pensar em uma coisa: o "Pai" não tinha apenas me dado abrigo; ele tinha me dado um motivo para não parar de respirar.

A vingança dele estava começando, e a minha sobrevivência seria o combustível dela.

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