Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 3: O Avesso do Paraíso ( Ágata)
Houve um tempo em que eu acreditava em contos de fadas. Olhando para trás, parece a história de uma outra pessoa, uma versão de mim que não tinha cicatrizes nem no corpo, nem na alma.
Ricardo surgiu na minha vida como o príncipe que todas as mulheres sonham. Policial respeitado, sorriso impecável, o tipo de homem que abria a porta do carro e me trazia flores sem motivo. Quando ele se ajoelhou no meio daquele restaurante charmoso, com um anel que brilhava tanto quanto o futuro que ele me prometia, eu disse "sim" sem hesitar. Eu estava casando com o meu herói, o homem que jurou me proteger de todo o mal do mundo.
O que eu não sabia era que o mal estava sentado ao meu lado no altar.
Os primeiros anos foram um sonho. Morávamos em um apartamento amplo, tínhamos planos, jantares com amigos e a promessa de uma família grande. Ricardo era carinhoso, quase protetor demais, mas eu confundia o controle dele com excesso de zelo. Eu era feliz. Ou pelo menos, achava que era.
A primeira rachadura no meu castelo de vidro apareceu no quinto ano de casamento. O desejo de ter um filho se tornou uma urgência, mas os meses passavam e o teste de farmácia insistia em mostrar apenas um traço solitário. Após uma bateria de exames, o veredito médico caiu como uma sentença de morte: eu era estéril.
Naquele dia, o príncipe morreu.
— Uma mulher que não pode dar um herdeiro a um homem não serve para muita coisa, não é, Ágata? — As palavras dele, proferidas com uma frieza que me congelou o sangue, foram o começo do meu fim.
Ricardo não chorou comigo. Ele não me abraçou. Ele me culpou. A partir dali, a admiração se transformou em desprezo. As traições começaram de forma descarada. Ele já não escondia o cheiro de perfume barato nas camisas, nem as mensagens que chegavam de madrugada. Quando eu questionava, o olhar dele mudava. Aquele brilho de herói era substituído por uma escuridão maníaca.
O isolamento foi sutil. Primeiro, ele sugeriu que eu parasse de trabalhar. Depois, começou a criticar minhas amigas, minha família, até que eu não tivesse mais ninguém a quem recorrer. Eu me tornei uma prisioneira em uma gaiola de ouro.
— Você não vai sair com esse vestido — ele disse, em uma noite que nunca esquecerei. O tom era baixo, perigoso.
— Ricardo, é só um jantar com a minha prima...
O primeiro tapa veio antes que eu terminasse a frase. O impacto me jogou no chão, o gosto de ferro do sangue invadindo minha boca instantaneamente. Eu olhei para cima, em choque, esperando um pedido de desculpas, um momento de arrependimento. Mas não houve nada. Apenas o olhar dele, carregado de um prazer sádico.
— Você é minha, Ágata. E uma coisa estragada como você só fica onde eu mandar.
A partir dali, os dias se tornaram um borrão de medo. Ele chegava em casa alterado, muitas vezes sob o efeito de algo mais forte que o álcool. A violência se tornou a linguagem oficial do nosso casamento. Ele usava a posição de policial para me lembrar que, se eu tentasse fugir, ele me acharia. "A lei sou eu", ele dizia, enquanto apertava meu pescoço até eu quase perder os sentidos.
Eu era vigiada 24 horas por dia. Ele instalou câmeras, controlava meu celular, monitorava cada passo meu. Eu era um troféu quebrado que ele guardava em um armário escuro.
A decisão de fugir não veio de um momento de coragem, mas de um puro instinto de sobrevivência. Na última noite, ele passou dos limites. O espancamento foi tão brutal que, por um momento, enquanto eu sentia as costelas estalarem sob o peso das botas dele, eu desejei que ele me matasse logo. Mas ele parou. Ele sempre parava um pouco antes do fim, apenas para me deixar com o terror da próxima vez.
Quando ele apagou, dopado pelo uísque e pelo cansaço da própria crueldade, eu me arrastei pelo chão da cozinha. Minha visão estava turva, meu corpo gritava de dor, mas minha mente estava estranhamente lúcida. Peguei uma mala pequena, joguei o pouco que restava da minha dignidade lá dentro e saí pela porta dos fundos.
Eu não podia ir para a polícia; ele era a polícia. Eu não podia ir para um hotel; ele me rastrearia pelos cartões. Só havia um lugar no Rio de Janeiro onde a sombra de Ricardo não conseguia tocar. Um lugar onde os distintivos perdiam o poder e onde um outro tipo de lei imperava.
O morro do Vulgo Pai.
Eu ouvia histórias sobre ele. Um homem que perdeu tudo e que governava com punho de ferro e um silêncio absoluto. Diziam que ele era um monstro, mas para mim, qualquer monstro seria melhor do que o que eu tinha em casa. Subir aquela ladeira, com o rosto desfigurado e o coração na boca, foi o ato mais aterrorizante e libertador da minha vida.
Quando os homens armados me pararam na entrada da mata, eu não implorei por misericórdia. Eu pedi por proteção. Eu pedi por ele.
Agora, sentada nesta cadeira em um galpão frio, vi a porta se abrir. Um homem caminhou em minha direção. Ele não era como Ricardo. Ele não tinha o brilho falso do asfalto. Ele carregava uma escuridão pesada, uma autoridade que parecia emanar da própria pele tatuada.
Quando ele me mandou levantar a cabeça, eu vi nos olhos dele algo que eu não esperava encontrar em um dono de morro. Não era piedade. Era um reconhecimento de dor. Por um segundo, enquanto ele me encarava, eu senti que ele não estava vendo apenas uma mulher machucada, mas alguém que, como ele, tinha sido reduzido a cinzas.
Ele me chamou de "sua convidada". Ele desafiou o homem que me destruiu.
Pela primeira vez em anos, enquanto sou levada para a casa de uma tal Dona Glória, eu não sinto o aperto da mão do Ricardo no meu pescoço. Sinto apenas o frio da noite e o peso do olhar daquele homem que todos chamam de Pai. Eu não sei se o morro será minha salvação ou minha cova final, mas uma coisa é certa: a Ágata que acreditava em príncipes morreu naquela cozinha. A mulher que sobrou está pronta para ver o mundo queimar, desde que o fogo leve o meu passado junto.
Eu vim em busca de abrigo, mas ao olhar para o topo daquele morro, percebi que talvez eu tenha encontrado algo muito mais perigoso: um motivo para lutar.







