Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 8: Sombras e Cicatrizes (Miguel)
Sete dias.
Sete dias que eu mal pisava na boca. Sete dias que o MT tinha que subir o morro para me trazer relatórios de carga, faturamento e problemas com a milícia vizinha, porque eu não conseguia tirar os pés daquela clínica. Eu dizia a mim mesmo que era estratégia, que eu precisava garantir que a "testemunha" sobrevivesse para o meu plano contra o Major funcionar. Mas a verdade era um gosto amargo de café frio que eu não conseguia engolir.
Eu estava sentado na varanda da casa de apoio, um lugar que ninguém conhecia, para onde a levei assim que o Arnaldo deu alta. O ar aqui era mais limpo, longe do cheiro de pólvora e esgoto da parte baixa.
— Ela comeu? — perguntei, sem desviar os olhos do fuzil que eu limpava por puro hábito mecânico.
Dona Glória saiu da cozinha com uma bandeja vazia e um sorriso que eu não via há anos.
— Comeu tudo, Miguel. Até pediu mais um pouco do caldo de canja. Ela está corada, o olho já não está mais daquela cor de uva estragada.
— Ótimo. Menos um problema — rosnei, tentando manter a fachada de indiferença.
— Não sei quem você está tentando enganar, meu filho. Você não dorme uma noite inteira desde que trouxe essa menina. Fica aí, plantado na porta do quarto como se fosse um cão de guarda.
Ignorei o comentário da Glória. Ela era a única que podia falar assim comigo e continuar com a cabeça no pescoço. Assim que ela entrou, larguei a flanela e me levantei. Meus pés me levaram até o quarto dela antes que eu pudesse decidir o contrário.
Ágata estava sentada na cama, escorada em alguns travesseiros. O progresso de uma semana era visível. O inchaço no rosto tinha cedido, revelando traços delicados que a dor escondia. Ela usava um camisetão meu — que ficava enorme nela — e os cabelos, agora limpos, caíam em ondas pelos ombros.
Quando entrei, ela não se encolheu. Foi a primeira vez. Ela apenas me seguiu com aqueles olhos azul-acinzentados que pareciam ler minha alma de um jeito que me deixava desconfortável.
— Você está diferente hoje — ela disse. A voz ainda estava um pouco rouca, mas estava firme.
— Estou com pressa. O morro não se cuida sozinho — menti. Eu estava era sufocado por aquele silêncio. — Como está a dor?
— Suportável. O Dr. Arnaldo disse que já posso tentar andar um pouco pelo corredor amanhã.
Caminhei até a janela, de costas para ela. A vista mostrava o horizonte do Rio, uma beleza caótica que escondia tanta sujeira quanto a que ela viveu.
— O MT me deu o relatório — falei, mudando de assunto. — O Major está feito um louco. Ele acha que você fugiu com algum amante ou que está morta em algum valão. Ele revirou dois bairros atrás de você. Mas ele não ousou subir aqui ainda. Ele sabe que a regra é outra.
Senti, mais do que ouvi, o movimento dela na cama.
— Ele não vai parar, Miguel. Ele não é só um policial ruim. Ele é doentio. Ele acha que eu sou uma propriedade... como um carro ou uma medalha.
Virei-me para ela. A fúria que eu sentia pelo Major era algo que me alimentava há doze anos, mas vê-la tremer ao mencionar o nome dele transformava aquela fúria em algo pessoal. Letal.
— Pois avisa para a sua memória que a escritura mudou de mãos — eu disse, cruzando os braços. — Você não é propriedade de ninguém, mas enquanto estiver sob o meu teto, você é intocável. Entendeu? Intocável.
Ela sustentou meu olhar por um tempo longo demais.
— Por que o nome "Pai"? — ela perguntou de repente, mudando o rumo da conversa. — Todo mundo te chama assim no rádio. Mas você não parece o pai de ninguém.
Dei um sorriso de lado, sem humor.
— Porque eu cuido dos meus e castigo quem desobedece. Simples assim. No morro, eu sou a providência e o carrasco.
— E quem cuida de você, Miguel?
A pergunta me atingiu como um tiro de fuzil à queima-roupa. O silêncio se instalou no quarto, denso e pesado. Ninguém nunca me perguntava aquilo. Miguel era o mito, o "Pai" era o poder. Ninguém buscava o homem por trás da blindagem.
— Eu não preciso de cuidados, Ágata. Eu preciso de resultados — respondi, minha voz endurecendo novamente. — Amanhã o MT vai trazer algumas roupas novas para você. Nada de marcas que possam ser rastreadas. Se você quer mesmo se curar, vai ter que aprender a ser uma sombra, assim como eu.
Saí do quarto sem esperar resposta. Meu coração batia em um ritmo que eu não reconhecia. Aquela mulher era uma distração perigosa. Mas, ao passar pelo espelho do corredor, vi o reflexo de um homem que, pela primeira vez em uma década, não estava apenas planejando a próxima morte, mas protegendo uma vida.
Parei na porta e chamei o MT pelo rádio.
— MT, reforça a contenção na entrada da mata. Se um passarinho com farda de oficial piar perto da base, eu quero a cabeça dele na minha mesa antes do jantar.
O jogo estava avançando. Ela estava melhorando, e quanto mais ela melhorava, mais eu sentia que a guerra que eu estava comprando seria a maior da minha vida. Mas, olhando para minhas mãos, eu sabia: eu nasci para o caos. E por ela, eu faria o Rio de Janeiro queimar.







