Capítulo 10

Capítulo 10: O Gosto da Poeira (Miguel)

O som do blindado subindo a ladeira era um trovão rítmico que reverberava no asfalto e nos meus dentes. O cheiro de sabonete de flores da Ágata ainda estava impregnado nas minhas narinas, um fantasma de doçura que parecia ofensivo diante da realidade que me esperava lá fora. Cruzei o pátio da casa de apoio com passos largos, sentindo o peso das botas contra o solo batido. O sol, que minutos antes parecia desenhar luz no chão para ela, agora era apenas um clarão cegante que dificultava a visão do horizonte de zinco e tijolo aparente.

— Posição, MT! — gritei no rádio, enquanto saltava para dentro da picape preta que me esperava na saída da vila. O motor roncou, um animal impaciente.

— Estão forçando a entrada pelo acesso da Pedreira, Pai. O Caveirão tá derrubando tudo, não estão nem desviando das barracas. Os caras estão com sangue nos olhos hoje, vieram para buscar alguém — a voz do MT estalava entre o chiado da interferência e o som de disparos ao fundo.

Eu não respondi. Apenas verifiquei o carregador do fuzil, sentindo o metal frio e oleoso sob meus dedos. Destravei a arma com um clique seco que ecoou na cabine do carro. O ódio que eu sentia agora era uma massa disforme no meu peito. Não era apenas pelos canas, nem pela invasão oportuna. Era de mim mesmo. Por ter baixado a guarda. Por ter deixado uma civil — uma mulher que eu deveria apenas manter viva por uma questão de princípio — chegar perto o suficiente para sentir o ritmo errático do meu pulso. Cada centímetro de pele que havia tocado a dela parecia queimar, uma marca de vulnerabilidade que eu precisava lavar com adrenalina.

Chegamos ao Setor 3 sob uma chuva de balas que transformava o asfalto em estilhaços voadores. O cenário era o inferno em tons de cinza e ocre. O caos era familiar, quase reconfortante em sua brutalidade honesta. Aqui, as regras não tinham nuances ou sussurros: ou você atira, ou morre. Não havia olhares azul-acinzentados que pediam por algo que eu não sabia dar.

— Recua o bonde para o beco da 12! — ordenei, saltando do carro antes mesmo dele parar totalmente. Meus pés atingiram o chão e eu já estava em movimento. — Deixa eles entrarem mais cem metros. Vamos fechar o cerco por trás. Se eles querem guerra, vão ter o cerco.

Eu me joguei atrás de uma mureta de concreto, o impacto enviando uma vibração dolorida pelo meu ombro. Enquanto eu mirava pelo trilho da arma, a imagem da Ágata cambaleando no quarto voltou como um flash indesejado. A imagem dela quase caindo, a fragilidade das suas costelas, o modo como ela se agarrou a mim como se eu fosse o seu único chão. Aquela dependência me apavorava mais do que o blindado que agora dobrava a esquina, cuspindo fogo.

"Foca, porra", xinguei mentalmente, batendo com o punho no próprio peito para expulsar a imagem. "Ela é só um problema. Um problema que você buscou."

Um estalo de fuzil inimigo passou raspando minha orelha, arrancando um pedaço de reboco da parede logo atrás da minha cabeça. O calor da bala serviu como o batismo necessário. O Miguel que sentia o toque macio do cabelo de uma mulher morreu ali mesmo, naquela calçada suja de óleo e sangue seco. Sobrou apenas o Pai, o dono do morro, a máquina de guerra que o sistema havia moldado ao longo de doze anos de sobrevivência.

— Agora! — gritei.

A primeira granada estourou na entrada do beco. O mundo ficou branco por um segundo, coberto de poeira, gritos e o som metálico de estilhaços atingindo as latarias dos carros estacionados. No meio da cortina de fumaça, eu comecei a atirar. O recuo do fuzil no meu ombro era um soco constante, uma dor real que ajudava a apagar a memória do calor do corpo dela. Cada disparo era uma tentativa de silenciar a voz da Ágata na minha cabeça, de apagar o brilho daquele olhar que tinha atravessado a minha armadura.

O combate se estendeu por horas que pareceram séculos. O sol subiu ao seu ápice, cozinhando o morro sob um calor úmido. O suor escorria pelo meu rosto, salgando meus olhos, mas eu não parava. Vi homens meus caírem e vi o inimigo recuar para se reorganizar. O blindado estava travado entre uma barricada de pneus em chamas e o fogo cruzado que vinha das lajes superiores.

Em um momento de trégua relativa, enquanto eu recarregava o pente atrás de um contêiner de lixo, o silêncio momentâneo trouxe o perigo de volta. No vácuo do barulho, o cheiro dela voltou a me assombrar. Era uma tortura psicológica. Eu olhava para minhas mãos, sujas de pólvora e fuligem, e só conseguia pensar em como elas tinham tocado a pele dela com uma delicadeza que eu nem sabia que possuía.

O que aquela mulher estava fazendo comigo? Ela era o caos em forma de calma. Era a ruína fantasiada de cura.

— Pai, eles estão debandando! Recuaram para a base do morro! — MT surgiu ao meu lado, o rosto coberto de fuligem, um sorriso maníaco de quem tinha sobrevivido a mais um dia de expurgo.

— Mantém a guarda alta. Eles voltam. Sempre voltam — respondi, minha voz saindo como um rosnado seco.

Eu me levantei, limpando o sangue de um corte superficial no braço. A vitória no Setor 3 parecia vazia. Eu tinha vencido a batalha externa, mas a guerra dentro do meu peito estava apenas começando. Enquanto eu caminhava de volta para a picape, olhando para o rastro de destruição deixado pela manhã, eu percebi que não importava quantos inimigos eu derrubasse com o fuzil. O verdadeiro perigo estava me esperando em silêncio, deitada em uma cama na casa de apoio, com olhos que viam através de todas as minhas mentiras.

Eu precisava de distância. Precisava de gelo. Mas, ao mesmo tempo, meus pés já me levavam de volta para a direção dela. Se corações são alvos fáceis, o meu estava no centro de uma mira que eu não conseguia desviar.

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