Aurora Mancini
A semana começou com cheiro de pólvora. O conselho já estava inteiro na sala de vidro quando cheguei. Executivos alinhados. Relatórios empilhados. Sorrisos que nunca são sorrisos. Eu sentei à cabeceira e deixei que o primeiro golpe viesse.
— A proposta do fundo Oriente 7 é imperdível. — disse um conselheiro, voz de vendedor antigo — Capital barato. Entrada agressiva no Oriente Médio. Janela de oportunidade única.
Barato demais. Janela grande demais. Eu já conheço o perfume de armadilhas.
— Orçamento alavancado com taxa abaixo do risco da região. — acrescentei, folheando calmamente — Holding recém criada. Due diligence incompleta. Beneficiário final… anônimo.
Alguém pigarreou. Outro desviou os olhos. Eu fechei a pasta.
— Recusado. Abrimos conversas apenas com fundos que mostrem rosto. Minha marca não negocia no escuro.
Silêncio de segundos. Depois uma sequência de “entendemos” que significam “não gostamos”. Encerrei a reunião com a doçura de quem assina um decreto.
Horas