Aleksei Vasiliev
Aurora me chamou de obsessivo. A palavra cortou mais fundo do que qualquer lâmina. Eu já ouvi insultos em mais de dois séculos de existência, já suportei perseguições e condenações. Mas dela, cada sílaba é ferida aberta.
Ainda assim, o golpe veio acompanhado de um presente: a confissão.
— “E mesmo assim eu não consigo mandar você embora.”
Essas palavras foram a centelha que incendiou meu corpo inteiro.
Eu sei que Aurora luta contra si mesma. Sei que me odeia tanto quanto me deseja. E sei, acima de tudo, que já está presa. Não às correntes que adora usar, mas ao fio invisível que nos liga desde sempre.
Meu peito ardia naquela noite. Eu queria tomar seus lábios, beijar a fúria e a vulnerabilidade que se revelaram sem máscara. Queria puxá-la para os meus braços e nunca mais deixá-la escapar. Mas permaneci em silêncio. O silêncio, às vezes, é a mentira mais saborosa.
Por dentro, no entanto, eu sangrava.
Aurora não sabe, não pode saber, que cada vez que me chama de intruso