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Capítulo 2 O assassinato no andar proibido

Uma parede de vidro mostrava a cidade sob a chuva. Havia uma mesa de madeira maciça, estantes cheias de livros e uma pequena área de estar com sofás de couro.

Nenhuma fotografia familiar.

Nenhum objeto pessoal.

O espaço parecia montado para impressionar, não para revelar qualquer coisa sobre o homem que o ocupava.

Emily retirou o celular e começou a fotografar.

Abriu as primeiras gavetas da mesa. Encontrou contratos, listas de convidados, relatórios financeiros.

Nada que justificasse o risco.

Passou para o arquivo lateral.

As pastas estavam organizadas por data e projeto. Algumas tinham nomes de países. Outras, códigos militares que Emily não reconhecia.

Fotografou tudo o que conseguiu.

Os minutos corriam depressa.

Ela abriu uma pasta marcada como Projeto Sentinel e encontrou transferências de milhões de dólares para empresas de fachada. Um dos nomes correspondia a uma companhia que o pai havia circulado em vermelho em suas anotações.

Emily sentiu a garganta apertar.

Não era paranoia.

Thomas estivera certo.

Seu dedo tremia enquanto fotografava as páginas.

Um ruído no corredor fez seu corpo inteiro congelar.

Passos.

Emily fechou a pasta e apagou a tela do celular.

Os passos pararam diante da porta.

Ela olhou ao redor.

Não havia onde se esconder, exceto atrás das cortinas próximas à parede de vidro. Seria encontrada em segundos.

A maçaneta se moveu.

Emily prendeu a respiração.

Uma voz masculina falou do outro lado.

O senhor Blackwood pediu que ninguém entrasse.

Outra voz respondeu:

Daniel está procurando por ele.

O senhor Harper deve esperar no salão.

Ele disse que é urgente.

Os homens se afastaram.

Emily esperou alguns segundos antes de voltar a respirar.

Daniel Harper.

Vice-presidente financeiro da Blackwood Defense.

O nome aparecia várias vezes nos arquivos de Thomas.

Segundo uma fonte anônima, Daniel vinha transferindo documentos para uma conta externa havia meses. Talvez estivesse tentando proteger-se.

Ou preparar uma denúncia.

Emily voltou ao arquivo.

Precisava localizar qualquer coisa ligada a Harper.

Abriu uma gaveta inferior e encontrou uma série de pastas menores. Nomes de funcionários, políticos e fornecedores.

Então viu.

Carter, Thomas.

Por um instante, Emily esqueceu como respirar.

O mundo ao redor pareceu perder o som.

Ela tocou a borda da pasta com cuidado, como se o papel pudesse queimá-la.

Quinze anos de perguntas.

Quinze anos de luto.

Quinze anos tentando imaginar o que seu pai encontrara antes de morrer.

A resposta estava ali.

Emily puxou a pasta.

Uma folha escorregou e caiu no chão.

Ela se abaixou para pegá-la, mas uma discussão irrompeu no cômodo vizinho.

Você disse que ninguém seria ferido.

A voz estava abafada pela parede, porém clara o bastante.

Daniel Harper.

Emily ficou imóvel.

Outra voz respondeu, baixa demais para ser identificada.

Eu fiz tudo o que você pediu — continuou Daniel. — Corrigi os relatórios, movi o dinheiro, calei as auditorias. Mas acabou. O FBI receberá os arquivos amanhã.

Emily guardou rapidamente a pasta Carter dentro da bolsa e se aproximou da parede.

Havia uma porta parcialmente oculta entre as estantes.

Ela encostou o ouvido.

Você não compreende o que está fazendo — disse o outro homem.

Compreendo perfeitamente. Pessoas morreram.

Pessoas morrem todos os dias.

Emily sentiu o sangue esfriar.

A voz não era de Victor.

Também não era de Cole.

Thomas Carter morreu por causa disso — disse Daniel. — Elizabeth também.

O nome Carter atingiu Emily como um golpe.

Ela colocou a mão sobre a boca, contendo qualquer som.

Não diga esses nomes.

Por quê? Tem medo de que os mortos respondam?

Ouviu-se um impacto.

Alguma coisa caiu.

Daniel arfou.

Emily precisava sair dali.

Mas seu corpo não obedecia.

Aquele homem sabia o que acontecera com seu pai.

Talvez fosse a única testemunha ainda viva.

Ela empurrou a porta escondida alguns centímetros.

O cômodo seguinte era uma sala de reuniões pequena, iluminada apenas por um abajur. Daniel estava de costas para ela, inclinado sobre a mesa. Um corte sangrava em sua testa.

Diante dele, um homem usava luvas pretas.

Emily não conseguia ver seu rosto.

Última oportunidade — disse o homem. — Onde estão as cópias?

Daniel riu, embora sua voz tremesse.

Longe demais para você alcançar.

O homem retirou uma arma do interior do paletó.

O coração de Emily parou.

Ela levou o celular à altura do rosto e ativou a câmera.

Precisava registrar.

Precisava provar.

Daniel ergueu a cabeça.

Por uma fração de segundo, seus olhos encontraram a abertura na porta.

Encontraram Emily.

A surpresa atravessou seu rosto.

O homem armado percebeu.

Virou-se.

Emily recuou no instante em que o disparo rompeu o silêncio.

O som explodiu dentro do escritório.

Ela perdeu o equilíbrio e bateu contra a estante.

Livros caíram ao chão.

Não havia mais qualquer possibilidade de permanecer escondida.

Emily correu.

Abriu a porta do escritório e disparou pelo corredor. Atrás dela, ouviu a porta da sala de reuniões bater contra a parede.

Passos a seguiram.

Ela tirou os sapatos enquanto corria, quase tropeçando no vestido comprido.

A escada estava longe demais.

Viu uma placa indicando os elevadores e apertou o botão repetidas vezes.

Nada.

Os passos se aproximavam.

Emily olhou para os dois lados.

Sem saída.

Uma mão fechou-se em torno de seu braço e a puxou para trás.

Ela girou, pronta para lutar, e encontrou-se contra um peito sólido.

Cole Blackwood.

O choque de reconhecê-lo foi quase tão intenso quanto o medo.

Ele segurava seu braço com firmeza, mas não com violência. Seus olhos percorreram rapidamente o rosto dela, o cabelo desfeito, os sapatos em sua mão.

O que aconteceu?

A voz era baixa.

Controlada.

Emily tentou se soltar.

Tire as mãos de mim.

Cole não a libertou.

Você estava correndo.

As pessoas costumam correr quando estão atrasadas.

Descalças?

Ela sustentou o olhar dele.

De perto, Cole era ainda mais intimidante. Havia uma pequena cicatriz junto à sobrancelha esquerda e outra próxima ao queixo. Seus olhos não eram completamente negros, como pareceram no salão, mas de um castanho profundo e frio.

Preciso voltar para a festa.

A festa fica no andar de baixo.

Eu me perdi.

Entrou em uma área restrita, tirou os sapatos e começou a correr porque se perdeu?

Emily sentiu os passos pararem no fim do corredor.

O homem da sala de reuniões estava próximo.

Ela não podia olhar.

Não podia demonstrar que sabia.

Cole percebeu algo em sua expressão.

Seu olhar endureceu.

Quem está atrás de você?

A pergunta a surpreendeu.

Ninguém.

Você é uma péssima mentirosa.

E você é extremamente inconveniente.

A boca dele quase se moveu.

Não chegou a ser um sorriso, mas alguma coisa mudou por um segundo.

Então Cole olhou por cima do ombro dela.

Emily viu o instante exato em que ele percebeu a presença de alguém no corredor.

Sua mão deixou o braço dela e passou para sua cintura.

Antes que Emily pudesse reagir, Cole a puxou contra o próprio corpo e girou, colocando-a de costas para a parede.

O movimento foi rápido, inesperado e íntimo demais.

Ela sentiu o calor dele, a pressão da mão em sua cintura e a proximidade do rosto.

O que você está fazendo? — sussurrou.

Salvando sua história ridícula.

Cole inclinou a cabeça, como se estivesse prestes a beijá-la.

Emily ficou imóvel.

Seu coração golpeava o peito com tanta força que ele certamente podia sentir.

A raiva deveria ter sido sua única reação.

Não foi.

A proximidade de Cole despertou uma percepção física contra a qual ela não estava preparada. O cheiro discreto de madeira e chuva. A firmeza de seus dedos. A tensão contida em cada músculo.

Ele era perigoso.

Ela sabia disso.

Seu corpo, aparentemente, não recebera a informação.

Passos passaram atrás deles.

Cole manteve Emily presa entre ele e a parede, escondendo seu rosto de quem atravessava o corredor.

Não olhe — murmurou.

A ordem fez a raiva voltar.

Não me dê ordens.

Então continue tentando ser assassinada.

Emily parou de respirar.

Cole olhou diretamente para ela.

Foi isso que você viu?

O sangue abandonou seu rosto.

Não sei do que está falando.

Um disparo. Você correndo. Um homem saindo do escritório do meu pai.

Ele sabia.

Talvez soubesse de tudo.

Emily empurrou o peito dele.

Cole permitiu que ela criasse alguns centímetros de distância, mas não se afastou.

Você trabalha para ele — disse Emily.

Para quem?

Seu pai.

Isso não responde à minha pergunta.

E você não respondeu à minha.

Você não fez nenhuma.

Emily percebeu tarde demais.

Cole estava controlando a conversa, obrigando-a a revelar mais do que pretendia.

Ela fechou a expressão.

Preciso ir.

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