Mundo ficciónIniciar sesiónUma parede de vidro mostrava a cidade sob a chuva. Havia uma mesa de madeira maciça, estantes cheias de livros e uma pequena área de estar com sofás de couro.
Nenhuma fotografia familiar.
Nenhum objeto pessoal.
O espaço parecia montado para impressionar, não para revelar qualquer coisa sobre o homem que o ocupava.
Emily retirou o celular e começou a fotografar.
Abriu as primeiras gavetas da mesa. Encontrou contratos, listas de convidados, relatórios financeiros.
Nada que justificasse o risco.
Passou para o arquivo lateral.
As pastas estavam organizadas por data e projeto. Algumas tinham nomes de países. Outras, códigos militares que Emily não reconhecia.
Fotografou tudo o que conseguiu.
Os minutos corriam depressa.
Ela abriu uma pasta marcada como Projeto Sentinel e encontrou transferências de milhões de dólares para empresas de fachada. Um dos nomes correspondia a uma companhia que o pai havia circulado em vermelho em suas anotações.
Emily sentiu a garganta apertar.
Não era paranoia.
Thomas estivera certo.
Seu dedo tremia enquanto fotografava as páginas.
Um ruído no corredor fez seu corpo inteiro congelar.
Passos.
Emily fechou a pasta e apagou a tela do celular.
Os passos pararam diante da porta.
Ela olhou ao redor.
Não havia onde se esconder, exceto atrás das cortinas próximas à parede de vidro. Seria encontrada em segundos.
A maçaneta se moveu.
Emily prendeu a respiração.
Uma voz masculina falou do outro lado.
— O senhor Blackwood pediu que ninguém entrasse.
Outra voz respondeu:
— Daniel está procurando por ele.
— O senhor Harper deve esperar no salão.
— Ele disse que é urgente.
Os homens se afastaram.
Emily esperou alguns segundos antes de voltar a respirar.
Daniel Harper.
Vice-presidente financeiro da Blackwood Defense.
O nome aparecia várias vezes nos arquivos de Thomas.
Segundo uma fonte anônima, Daniel vinha transferindo documentos para uma conta externa havia meses. Talvez estivesse tentando proteger-se.
Ou preparar uma denúncia.
Emily voltou ao arquivo.
Precisava localizar qualquer coisa ligada a Harper.
Abriu uma gaveta inferior e encontrou uma série de pastas menores. Nomes de funcionários, políticos e fornecedores.
Então viu.
Carter, Thomas.
Por um instante, Emily esqueceu como respirar.
O mundo ao redor pareceu perder o som.
Ela tocou a borda da pasta com cuidado, como se o papel pudesse queimá-la.
Quinze anos de perguntas.
Quinze anos de luto.
Quinze anos tentando imaginar o que seu pai encontrara antes de morrer.
A resposta estava ali.
Emily puxou a pasta.
Uma folha escorregou e caiu no chão.
Ela se abaixou para pegá-la, mas uma discussão irrompeu no cômodo vizinho.
— Você disse que ninguém seria ferido.
A voz estava abafada pela parede, porém clara o bastante.
Daniel Harper.
Emily ficou imóvel.
Outra voz respondeu, baixa demais para ser identificada.
— Eu fiz tudo o que você pediu — continuou Daniel. — Corrigi os relatórios, movi o dinheiro, calei as auditorias. Mas acabou. O FBI receberá os arquivos amanhã.
Emily guardou rapidamente a pasta Carter dentro da bolsa e se aproximou da parede.
Havia uma porta parcialmente oculta entre as estantes.
Ela encostou o ouvido.
— Você não compreende o que está fazendo — disse o outro homem.
— Compreendo perfeitamente. Pessoas morreram.
— Pessoas morrem todos os dias.
Emily sentiu o sangue esfriar.
A voz não era de Victor.
Também não era de Cole.
— Thomas Carter morreu por causa disso — disse Daniel. — Elizabeth também.
O nome Carter atingiu Emily como um golpe.
Ela colocou a mão sobre a boca, contendo qualquer som.
— Não diga esses nomes.
— Por quê? Tem medo de que os mortos respondam?
Ouviu-se um impacto.
Alguma coisa caiu.
Daniel arfou.
Emily precisava sair dali.
Mas seu corpo não obedecia.
Aquele homem sabia o que acontecera com seu pai.
Talvez fosse a única testemunha ainda viva.
Ela empurrou a porta escondida alguns centímetros.
O cômodo seguinte era uma sala de reuniões pequena, iluminada apenas por um abajur. Daniel estava de costas para ela, inclinado sobre a mesa. Um corte sangrava em sua testa.
Diante dele, um homem usava luvas pretas.
Emily não conseguia ver seu rosto.
— Última oportunidade — disse o homem. — Onde estão as cópias?
Daniel riu, embora sua voz tremesse.
— Longe demais para você alcançar.
O homem retirou uma arma do interior do paletó.
O coração de Emily parou.
Ela levou o celular à altura do rosto e ativou a câmera.
Precisava registrar.
Precisava provar.
Daniel ergueu a cabeça.
Por uma fração de segundo, seus olhos encontraram a abertura na porta.
Encontraram Emily.
A surpresa atravessou seu rosto.
O homem armado percebeu.
Virou-se.
Emily recuou no instante em que o disparo rompeu o silêncio.
O som explodiu dentro do escritório.
Ela perdeu o equilíbrio e bateu contra a estante.
Livros caíram ao chão.
Não havia mais qualquer possibilidade de permanecer escondida.
Emily correu.
Abriu a porta do escritório e disparou pelo corredor. Atrás dela, ouviu a porta da sala de reuniões bater contra a parede.
Passos a seguiram.
Ela tirou os sapatos enquanto corria, quase tropeçando no vestido comprido.
A escada estava longe demais.
Viu uma placa indicando os elevadores e apertou o botão repetidas vezes.
Nada.
Os passos se aproximavam.
Emily olhou para os dois lados.
Sem saída.
Uma mão fechou-se em torno de seu braço e a puxou para trás.
Ela girou, pronta para lutar, e encontrou-se contra um peito sólido.
Cole Blackwood.
O choque de reconhecê-lo foi quase tão intenso quanto o medo.
Ele segurava seu braço com firmeza, mas não com violência. Seus olhos percorreram rapidamente o rosto dela, o cabelo desfeito, os sapatos em sua mão.
— O que aconteceu?
A voz era baixa.
Controlada.
Emily tentou se soltar.
— Tire as mãos de mim.
Cole não a libertou.
— Você estava correndo.
— As pessoas costumam correr quando estão atrasadas.
— Descalças?
Ela sustentou o olhar dele.
De perto, Cole era ainda mais intimidante. Havia uma pequena cicatriz junto à sobrancelha esquerda e outra próxima ao queixo. Seus olhos não eram completamente negros, como pareceram no salão, mas de um castanho profundo e frio.
— Preciso voltar para a festa.
— A festa fica no andar de baixo.
— Eu me perdi.
— Entrou em uma área restrita, tirou os sapatos e começou a correr porque se perdeu?
Emily sentiu os passos pararem no fim do corredor.
O homem da sala de reuniões estava próximo.
Ela não podia olhar.
Não podia demonstrar que sabia.
Cole percebeu algo em sua expressão.
Seu olhar endureceu.
— Quem está atrás de você?
A pergunta a surpreendeu.
— Ninguém.
— Você é uma péssima mentirosa.
— E você é extremamente inconveniente.
A boca dele quase se moveu.
Não chegou a ser um sorriso, mas alguma coisa mudou por um segundo.
Então Cole olhou por cima do ombro dela.
Emily viu o instante exato em que ele percebeu a presença de alguém no corredor.
Sua mão deixou o braço dela e passou para sua cintura.
Antes que Emily pudesse reagir, Cole a puxou contra o próprio corpo e girou, colocando-a de costas para a parede.
O movimento foi rápido, inesperado e íntimo demais.
Ela sentiu o calor dele, a pressão da mão em sua cintura e a proximidade do rosto.
— O que você está fazendo? — sussurrou.
— Salvando sua história ridícula.
Cole inclinou a cabeça, como se estivesse prestes a beijá-la.
Emily ficou imóvel.
Seu coração golpeava o peito com tanta força que ele certamente podia sentir.
A raiva deveria ter sido sua única reação.
Não foi.
A proximidade de Cole despertou uma percepção física contra a qual ela não estava preparada. O cheiro discreto de madeira e chuva. A firmeza de seus dedos. A tensão contida em cada músculo.
Ele era perigoso.
Ela sabia disso.
Seu corpo, aparentemente, não recebera a informação.
Passos passaram atrás deles.
Cole manteve Emily presa entre ele e a parede, escondendo seu rosto de quem atravessava o corredor.
— Não olhe — murmurou.
A ordem fez a raiva voltar.
— Não me dê ordens.
— Então continue tentando ser assassinada.
Emily parou de respirar.
Cole olhou diretamente para ela.
— Foi isso que você viu?
O sangue abandonou seu rosto.
— Não sei do que está falando.
— Um disparo. Você correndo. Um homem saindo do escritório do meu pai.
Ele sabia.
Talvez soubesse de tudo.
Emily empurrou o peito dele.
Cole permitiu que ela criasse alguns centímetros de distância, mas não se afastou.
— Você trabalha para ele — disse Emily.
— Para quem?
— Seu pai.
— Isso não responde à minha pergunta.
— E você não respondeu à minha.
— Você não fez nenhuma.
Emily percebeu tarde demais.
Cole estava controlando a conversa, obrigando-a a revelar mais do que pretendia.
Ela fechou a expressão.
— Preciso ir.







