Mundo de ficçãoIniciar sessãoEle puxou com mais força.
— Você acha que está protegendo alguém?
— Acho que você fala demais para um homem que entrou no apartamento de uma mulher no escuro.
A raiva atravessou o rosto dele.
Emily tinha medo.
Muito.
Mas o medo nunca conseguira torná-la obediente.
Desde criança, ela aprendera a transformá-lo em outra coisa. Em raiva. Em ironia. Em movimento.
O homem aproximou o rosto do dela.
— Seu pai também achava que era corajoso.
O mundo parou.
Emily deixou de sentir a dor no couro cabeludo.
— O que você disse?
Ele sorriu.
— Thomas Carter não aprendeu quando era hora de parar.
A menção ao pai destruiu o pouco controle que lhe restava.
Emily atingiu o joelho do homem com toda a força.
Ele praguejou e afrouxou a mão. Ela girou, agarrou a luminária quebrada e apontou a base de metal para os dois.
— Quem matou meu pai?
Nenhum deles respondeu.
— Quem matou Thomas Carter?
O segundo homem deu um passo à frente.
— Abaixe isso.
— Diga o nome.
— Você não está em posição de exigir nada.
— Então venha tirar de mim.
Sua voz tremia, mas ela não recuou.
O invasor observou-a com algo próximo de desprezo.
— Você tem os olhos dele.
Emily apertou a luminária com mais força.
— Você o conheceu?
— Conheci o problema que ele causou.
— Quem deu a ordem?
O homem olhou para o companheiro.
A troca silenciosa foi breve.
Decisiva.
Emily entendeu.
Eles haviam conseguido o que queriam.
Sabiam que ela não tinha enviado os arquivos.
Agora só precisavam recuperar o dispositivo.
E eliminá-la.
O primeiro homem sacou uma arma.
Emily sentiu o estômago despencar.
A coragem continuou de pé, mas seu corpo compreendeu antes dela que poderia morrer naquela sala.
Pensou em Noah.
Pensou na mãe.
Pensou no pai deixando uma mensagem de voz que ela passara metade da vida ouvindo.
Eu encontrei alguma coisa, querida.
Emily não queria terminar como ele.
Não queria tornar-se outra pergunta sem resposta.
O homem apontou a arma.
— Última chance.
Ela olhou de relance para a porta.
Longe demais.
A janela ficava atrás do sofá, três andares acima da rua.
Não havia saída.
— Onde estão as cópias? — perguntou ele.
Emily ergueu o queixo.
— Onde você nunca vai encontrar.
O silenciador se alinhou com seu peito.
A fechadura da porta explodiu.
O som foi seguido por um impacto brutal.
A porta abriu-se contra a parede, e uma sombra entrou no apartamento com a arma já levantada.
O primeiro disparo foi tão rápido que Emily mal conseguiu acompanhar.
O homem que a ameaçava deixou a arma cair.
O segundo puxou Emily contra o corpo e encostou uma lâmina em seu pescoço.
— Abaixe a arma!
Cole Blackwood surgiu na pouca luz.
O terno elegante da festa desaparecera. Ele vestia uma camisa escura, com as mangas dobradas até os antebraços, e uma expressão que Emily nunca vira no hotel.
Não havia cansaço.
Não havia dúvida.
Havia apenas frieza.
Uma frieza absoluta.
A arma em sua mão não tremia.
— Solte-a — ordenou Cole.
O homem apertou Emily contra o peito.
A lâmina tocou sua pele.
— Dê mais um passo e ela morre.
Cole olhou para Emily.
Não para a faca.
Não para o homem.
Para ela.
— Você está ferida?
A pergunta era absurda.
Emily quase riu de nervoso.
— Ele está com uma faca no meu pescoço.
— Eu percebi.
— Então faça alguma coisa.
O invasor puxou-a com mais força.
— Cale a boca.
Cole moveu os olhos para o homem.
— Essa foi uma péssima decisão.
— Abaixe a arma.
— Você sabe que não sairá daqui.
— Talvez. Mas ela também não.
Cole inclinou levemente a cabeça.
— Não foi isso que mandaram você fazer.
O homem hesitou.
Emily sentiu a mudança.
Cole também.
— Mandaram recuperar o dispositivo — continuou ele. — Ela deveria morrer depois.
— Você não sabe de nada.
— Sei que seu parceiro está sangrando no chão. Sei que você não tem cobertura na escada. Sei que o carro na rua foi abandonado há quatro minutos.
O homem respirou mais depressa.
— E sei — concluiu Cole — que você está segurando a única pessoa que pode mantê-lo vivo.
A lâmina pressionou mais a pele de Emily.
Ela sentiu uma ardência fina.
Cole viu.
Algo mudou em seu rosto.
Não muito.
Apenas o suficiente para fazer o homem atrás dela perceber que havia ido longe demais.
— Solte-a — repetiu Cole.
— Jogue a arma.
— Não.
A resposta veio sem hesitação.
Emily cerrou os dentes.
— Este é seu plano de resgate?
— Ainda não cheguei ao plano.
— Que reconfortante.
O invasor sacudiu-a.
— Eu mandei calar a boca!
Cole deu um passo.
— Não toque nela de novo.
A voz dele saiu baixa.
Perigosa.
O homem riu, mas o som não tinha confiança.
— Ela é importante para você?
Cole não respondeu.
Emily percebeu a armadilha.
Se ele demonstrasse qualquer preocupação, o invasor usaria isso.
Mas o silêncio de Cole foi ainda pior.
O homem interpretou como confirmação.
— Então abaixe a arma.
Cole olhou novamente para Emily.
Havia uma pergunta em seus olhos.
Ela não sabia qual.
Então percebeu que ele fixava o olhar na mão dela.
Emily ainda segurava a base da luminária.
Se conseguisse acertar o homem, talvez Cole tivesse uma abertura.
Talvez também conseguisse cortar o próprio pescoço no movimento.
Cole fez um gesto quase imperceptível com o queixo.
Agora.
Emily deixou o corpo amolecer.
O invasor ajustou o peso por instinto.
Ela moveu-se.
Bateu a luminária contra o pulso que segurava a faca e jogou a cabeça para o lado.
O disparo de Cole atravessou a sala.
O homem caiu.
Emily também.
Seus joelhos atingiram o chão, mas antes que pudesse tombar, Cole a segurou pela cintura.
Tudo aconteceu em segundos.
O apartamento voltou ao silêncio.
Emily respirava como se tivesse corrido quilômetros.
Cole afastou a faca com o pé, ajoelhou-se diante dela e segurou seu rosto entre as mãos.
— Olhe para mim.
Ela olhou.
Os olhos dele percorriam cada centímetro de seu rosto.
— Ele cortou você?
— Acho que não.
Cole passou o polegar com cuidado pela lateral de seu pescoço. Quando afastou a mão, havia uma linha de sangue em sua pele.
O maxilar dele se contraiu.
— É superficial.
— Você parece decepcionado.
— Consegue ficar de pé?
— Você acabou de matar dois homens no meu apartamento.
— Um está vivo.
Emily olhou para o primeiro invasor. Ele respirava, embora estivesse imóvel.
— Isso deveria me tranquilizar?
Cole levantou-se e estendeu a mão.
Ela ignorou.
Apoiou-se no sofá e ficou de pé sozinha.
As pernas tremiam.
A raiva ajudou a escondê-lo.
— Foi você quem os enviou?
Cole ficou imóvel.
— Não.
— Como sabia que estavam aqui?
— Eu a segui.
— Isso não melhora sua resposta.
— Não estava tentando melhorar.
Emily passou a mão pelo pescoço e viu o sangue nos dedos.
— Você me deixou sair do hotel, me seguiu até minha casa e esperou que eles entrassem?
— Eu disse para não vir para casa.
— Isso não é uma explicação.
— É a razão pela qual você deveria ter me ouvido.
A indignação venceu o choque.
— Você não tinha o direito de me seguir.
— Eles teriam matado você se eu não tivesse seguido.
— Talvez não estivessem aqui se você não tivesse trocado a pasta pelo dispositivo.
Pela primeira vez, Cole demonstrou surpresa real.
— Que dispositivo?
Emily não respondeu.
Os olhos dele desceram até o chão.
O pequeno objeto preto estava próximo da bolsa.
Cole o reconheceu.
O rosto dele se fechou.
— Onde conseguiu isso?
— No hotel.
— Com quem?
— Achei na minha bolsa.
— Isso não estava com você quando entrou no escritório.
— Como sabe?
— Porque eu vi o que você levou.
Emily sentiu o estômago se contrair.
— Então foi você quem pegou a pasta.
Cole não negou.
— Onde ela está?
— Segura.
— Devolva.
— Não.
— Era do meu pai.
— Era um arquivo sobre seu pai.
— Não brinque com as palavras.
Emily atravessou a sala e se abaixou para pegar o dispositivo.
Cole chegou primeiro.
Fechou a mão em torno dele.
— Devolva — exigiu ela.
— Você não sabe o que tem aqui.
— Sei que traz as iniciais de Thomas Carter.
— Isso não significa que pertencia a ele.
— Então a quem pertencia?
Cole permaneceu calado.
Emily deu um passo na direção dele.
— Você sabia que meu pai estava sendo investigado pela Blackwood Defense?
O olhar de Cole se tornou indecifrável.
— Seu nome é Emily Carter.
Não era uma pergunta.
Ela gelou.
— Como descobriu?
— A credencial falsa não era particularmente criativa.
— Não havia meu nome nela.
— Seu rosto estava em uma matéria publicada há três anos.
Emily lembrou-se da reportagem sobre corrupção municipal. Sua fotografia aparecera abaixo do título.
— Você pesquisou sobre mim.
— Antes de entrar neste apartamento.
— Por quê?







