Mundo de ficçãoIniciar sessãoA cidade ainda dormia quando Helena desceu do ônibus. O ar era diferente ali — mais frio, mais cru, como se não se importasse com quem chegava carregando o coração em ruínas. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro de asfalto molhado e café barato vindo de uma lanchonete aberta a noite inteira. Era o primeiro lugar onde ninguém a conhecia. Onde o nome Helena não significava nada.
E isso doeu. Mas também libertou. Nos primeiros dias, ela se hospedou em um quarto pequeno, paredes finas, janela quebrada que deixava o vento entrar sem pedir licença. Dormia pouco. Pensava demais. Sonhava com Gabriel quase todas as noites — não com o homem que a abandonou, mas com o que segurava sua mão quando tudo parecia possível. Acordava com raiva de si mesma por ainda sentir. Foi em uma dessas madrugadas mal dormidas que decidiu sair para caminhar. Precisava cansar o corpo para silenciar a mente. As ruas estavam quase vazias, iluminadas por postes antigos. Foi quando ouviu música. Um piano. Suave. Triste. Bonito demais para aquele horário. O som vinha de um pequeno bar escondido entre prédios antigos. Helena hesitou, mas entrou. O lugar era simples, luz baixa, cheiro de madeira e álcool. Poucas pessoas espalhadas, todas quietas, como se aquele fosse um refúgio para quem não queria falar. No canto, de costas para o público, estava ele. Os dedos longos deslizavam pelas teclas com intimidade, como se cada nota fosse uma confissão. Helena sentou-se sem perceber que havia prendido a respiração. Não sabia por quê, mas algo naquele homem doía de um jeito familiar. Quando a música terminou, ele virou-se. Miguel Miranda. Ela não sabia seu nome ainda, mas reconheceu o olhar: profundo, atento, carregado de algo não resolvido. Os olhos dele encontraram os dela por um segundo longo demais para ser casual. Ele sorriu de leve, quase imperceptível. — Aceita um café? — perguntou, aproximando-se. A voz era baixa, calma. Não invadia. Não exigia. — Aceito — respondeu, surpresa consigo mesma. Sentaram-se próximos à janela. Conversaram pouco no início. Sobre música. Sobre noites longas. Sobre como algumas pessoas preferem o silêncio porque o barulho lembra demais o passado. Nenhum dos dois perguntou nomes. Era como se soubessem que ainda não estavam prontos para isso. Mas havia algo ali. Uma tensão contida. Um reconhecimento estranho entre duas almas quebradas. — Você parece alguém que está indo embora — disse Miguel, após um tempo. Helena sorriu de lado. — Já fui — respondeu. — Só meu corpo ainda está aprendendo. Ele assentiu, como se entendesse perfeitamente. Quando se despediram, ele tocou de leve a mão dela. Foi rápido. Respeitoso. Mas o contato percorreu o corpo de Helena como um choque silencioso. Ela caminhou de volta para o quarto com o coração acelerado, odiando-se por sentir algo tão cedo. Mas naquela noite, pela primeira vez, não sonhou com Gabriel. Os dias viraram semanas. Helena arrumou um emprego simples durante o dia e voltou ao bar à noite. Sempre dizia a si mesma que era pela música. Nunca pelo pianista. Miguel a observava em silêncio, sem pressão, sem perguntas invasivas. Às vezes tocava para ela. Às vezes apenas sentava ao lado, dividindo o silêncio. Foi numa noite chuvosa que tudo mudou. O bar estava vazio. A chuva batia forte nas janelas. Helena tremia, não de frio, mas de exaustão. Miguel fechou o piano e sentou-se à frente dela. — Você não precisa ser forte aqui — disse, simplesmente. A frase atravessou todas as defesas que ela vinha construindo. Helena desviou o olhar, mas as lágrimas vieram mesmo assim. Chorou sem explicações, sem narrativa organizada. Chorou pela traição, pela humilhação, pelo amor perdido. Miguel não disse nada. Apenas ficou ali. Quando ela se inclinou para frente, cansada demais para manter distância, ele a envolveu com cuidado. O abraço era firme, mas gentil. Diferente de tudo que ela lembrava. Ali, no silêncio daquele bar vazio, Helena percebeu algo perigoso, ela queria ficar. Mas ficar significava sentir. E sentir era uma ameaça aos planos que ainda nem tinham forma. Quando se afastaram, os rostos estavam próximos demais. A respiração dele tocava a dela. Por um segundo, Helena pensou em se afastar. Em lembrar de Gabriel. Do erro que foi amar. Mas Miguel a beijou primeiro. Não foi um beijo apressado. Foi lento, intenso, como se perguntasse antes de tomar. Helena respondeu com a mesma fome contida. Ali não havia promessas. Apenas necessidade. Verdade. Dor compartilhada. Quando se separaram, ambos sabiam: aquilo não era seguro. — Você vai se arrepender — ela sussurrou. — Talvez — ele respondeu. — Mas não hoje. Naquela noite, Helena entendeu que o amor podia voltar de outra forma. Não como salvação. Mas como força. E, sem perceber, o coração que jurara manter fechado começava a se envolver na parte mais perigosa de seu plano. Porque um dia ela voltaria. E quando voltasse, teria poder. Mas agora… tinha alguém que poderia fazê-la hesitar.






