Mundo de ficçãoIniciar sessãoA primeira coisa que Gabriel perdeu foi o sono.
No início, disse a si mesmo que era apenas estresse. A investigação de Solange abalara a estrutura da empresa, e ele agora ocupava uma posição delicada demais para errar. Mas havia algo diferente naquela inquietação — algo pessoal. Um pressentimento que não se explicava com números. Ele começou a rever arquivos antigos. Relatórios esquecidos. Decisões tomadas rápido demais. E, como uma sombra insistente, o nome Helena surgia em sua mente com uma frequência que o deixava desconfortável. Ela estava perto demais. Calma demais. Intocável demais. Gabriel pediu uma auditoria interna extraoficial. Disse que era precaução. Mas no fundo, queria encontrar algo que provasse que ela não tinha nada a ver com aquilo. Parte dele ainda precisava acreditar nisso. Enquanto isso, Helena sentia o cerco se fechar. Miguel percebeu primeiro. — Estão me seguindo — disse certa noite, fechando a porta do apartamento com cuidado. — Não é paranoia. São discretos, mas estão lá. Helena não respondeu de imediato. Caminhou até a janela, observou a rua vazia demais para ser normal. — Eu prometi que não te colocaria nisso — disse, por fim. — Você prometeu que não faria isso sozinha — ele corrigiu. O amor entre eles já não era abrigo. Era linha de frente. Naquela semana, Gabriel finalmente a confrontou. — Você sabe o que está acontecendo — disse ele, encostando a porta da sala de reuniões. — Você sempre soube demais. Helena cruzou as pernas com elegância. Não desviou o olhar. — Conhecimento não é crime — respondeu. — Mas intenção pode ser. Ele se aproximou. — Se isso for sobre o passado… eu posso consertar. Eu posso te proteger. Ela sorriu. Não de deboche. De pena. — Você teve sua chance de me proteger — disse. — Escolheu ficar em silêncio. As palavras atingiram onde doía. Gabriel deu um passo atrás. Pela primeira vez, viu algo que não reconhecia nela: ausência total de necessidade. Naquela noite, o segundo golpe foi liberado. Um e-mail anônimo chegou ao conselho administrativo com anexos irrefutáveis: Gabriel havia autorizado movimentações financeiras durante o período da falsa acusação contra Helena. Nada ilegal isoladamente. Mas quando analisado em conjunto, desenhava um padrão claro de conivência. A empresa entrou em colapso silencioso. Gabriel foi afastado temporariamente. A imprensa não demorou. — Você ultrapassou um limite — disse Miguel, a voz carregada de tensão. — Agora eles sabem que existe alguém puxando os fios. — Eu sei — respondeu Helena. — E agora não podem mais fingir que não. Mas o preço veio rápido demais. Dois dias depois, Miguel recebeu uma ligação. Seu nome havia sido oficialmente citado em um relatório interno antigo da Miranda’s. Nada suficiente para acusação formal — ainda — mas o bastante para manchar sua reputação e congelar contas ligadas a ele. Helena sentiu o chão desaparecer. — Isso é culpa minha — disse, com a voz falhando pela primeira vez em anos. — Não — Miguel respondeu, firme. — Isso é o custo. Eles discutiram naquela noite como nunca antes. Não por falta de amor, mas por excesso dele. — Se eu parar agora, tudo o que sofri não valeu nada — disse ela, em lágrimas contidas. — E se você continuar, pode me perder — ele respondeu. O silêncio que se seguiu foi cruel. Helena percebeu, com uma clareza devastadora, que a escolha que sempre evitou finalmente havia chegado. Vingança… ou amor. Na manhã seguinte, ela fez algo que ninguém esperava. Ligou para Gabriel. — Precisamos conversar — disse. Ele aceitou imediatamente. Joon-ho observou enquanto ela se arrumava, sem saber se aquela conversa significava um fim — ou um sacrifício. — Seja o que for que você vá fazer — ele disse —, não se perca. Seo-yeon o beijou como se fosse a última vez. — Eu já me perdi antes — respondeu. — Desta vez, eu escolho como. Enquanto ela saía, Joon-ho entendeu algo com um aperto no peito: amar alguém em guerra significa aceitar que você também pode ser uma arma… ou uma vítima. E, em algum lugar da cidade, Min-jae acreditava que aquela conversa poderia salvá-lo. Ele estava errado. Muito errado.






