Mundo de ficçãoIniciar sessãoToda estrutura começa a ruir por um ponto invisível.
Helena sabia disso melhor do que ninguém. Passara anos observando, aprendendo, mapeando pessoas como quem estuda rachaduras em um prédio antigo. A Miranda’s corporation parecia sólida por fora, mas por dentro estava sustentada por acordos frágeis, lealdades compradas e silêncios convenientes. Ela não precisava empurrar o prédio inteiro. Bastava tocar o lugar certo. O alvo inicial não era o Gabriele. Ainda não. Ele viria depois. A queda precisava ser lenta, quase imperceptível, para que ninguém associasse ao passado. O primeiro nome da lista era Solange. Solange havia subido rápido demais. E gente que sobe rápido costuma pisar em lugares instáveis. — Ela tem algo a esconder — disse Miguel, observando os dados na tela. — Sempre teve. Helena não respondeu. Já sabia. Havia noites em que acordava lembrando do sorriso de Solange na reunião que destruiu sua vida. Gentil demais. Seguro demais. A armadilha começou com algo simples: um fundo internacional. Nada ilegal à primeira vista. Apenas mal explicado. Helena fez questão de aparecer como investidora secundária, distante, quase irrelevante. Deixou que Solange conduzisse tudo, confiando no próprio histórico. — Ela vai aceitar — disse Helena, com calma. — Porque acredita que ainda controla o jogo. E aceitou. Durante semanas, tudo correu bem. Rendimentos iniciais, elogios internos, confiança crescente. Solange passou a se expor mais. A assinar mais. A falar demais. Foi então que Helena liberou a segunda parte. Um relatório técnico. Limpo. Preciso. Assinado por terceiros. Nada falso. Apenas revelador. Um detalhe ignorado que, quando lido com atenção, mostrava uma transferência incompatível com as normas internas da empresa. O documento não foi enviado à diretoria. Foi “vazado”. A notícia saiu pequena. Discreta. Uma nota de rodapé em um portal financeiro. Mas quem precisava ler, leu. Em menos de 48 horas, Solange foi chamada para esclarecimentos. Helena assistiu de longe. O prédio onde um dia foi expulsa agora parecia menor. Mais frágil. Observou pessoas entrando apressadas, vozes tensas, celulares colados ao ouvido. Nada oficial ainda. Mas o medo já circulava pelos corredores. — Isso é só o começo — murmurou Miguel. Naquela noite, Helena recebeu uma ligação inesperada. Gabriel. Ela demorou a atender. — Hele… — a voz dele estava diferente. — Você viu as notícias? — Algumas — respondeu, neutra. — Solange está sendo investigada. Isso pode afetar todo mundo. Todo mundo. Ele ainda falava como se ela fizesse parte daquele “nós”. — Empresas sobrevivem a investigações — disse ela. — Pessoas nem sempre. O silêncio do outro lado foi pesado. — Você mudou — ele disse por fim. — Não — respondeu. — Eu aprendi. Nos dias seguintes, a pressão aumentou. Auditorias. Reuniões emergenciais. Solange começou a se defender mal. Contradisse versões. Apontou dedos. Ninguém gostava de alguém desesperado. Quando finalmente foi afastada “temporariamente”, Helena sentiu algo inesperado. Não alegria. Não satisfação. Alívio. Mas o preço veio rápido. Miguel passou a ser observado. Pessoas do passado começaram a ligar. A fazer perguntas. Ele percebeu antes dela. — Estão ligando os pontos — disse, sério. — Precisamos ser mais cuidadosos. — Eu sei — respondeu Helena. Mas naquela noite, quando ficaram em silêncio, ela sentiu o peso real do que estava fazendo. Não era mais apenas sobre justiça. Havia pessoas envolvidas. Consequências reais. E alguém que ela amava no meio do caminho. — Se eu tiver que escolher… — ela começou. — Não termine essa frase — Miguel interrompeu. — Ainda não. Eles se olharam longamente. Amor e risco misturados de um jeito irreversível. Enquanto isso, Gabriel observava o caos crescer ao seu redor. Pela primeira vez, sentiu medo. Não apenas pela empresa — mas pela certeza incômoda de que tudo aquilo tinha nome, rosto e memória. E em seu apartamento silencioso, Helena abriu um arquivo novo no computador. Título: Fase Dois. A primeira queda tinha acontecido. E ninguém mais estava a salvo.






