Mundo de ficçãoIniciar sessão
Helena acreditava que o amor fosse uma linha reta. Algo que, uma vez escolhido, seguia firme até o fim. Durante sete anos, construiu essa crença ao lado de Gabriel, o homem que prometeu segurá-la quando tudo desmoronasse. Ela não sabia — ninguém ensina — que algumas pessoas só permanecem enquanto o chão está firme.
A reunião aconteceu numa manhã fria. O tipo de frio que entra pelos ossos sem pedir permissão. Helena ainda segurava um copo de café quando seu nome foi citado com um peso estranho, diferente. Não era um chamado. Era uma sentença. — Há inconsistências graves nos relatórios assinados por Helena — disse o Diretor Gabriel, sem encará-la. Os papéis deslizaram pela mesa como provas de um crime que ela não cometera. Valores desviados. Assinaturas forjadas. Decisões que nunca foram suas. Por alguns segundos, o mundo pareceu distante, como se estivesse assistindo à própria vida por trás de um vidro grosso. Ela tentou falar. A voz não saiu. Procurou Gabriel com os olhos. Ele estava ali. Sempre estivera. Sentado à sua direita, mãos entrelaçadas, expressão contida. Bastava um olhar. Um gesto. Qualquer coisa que dissesse eu sei quem você é. Mas Gabriel desviou o rosto. Esse foi o momento exato em que Helena caiu. Não foi quando ouviram seu nome seguido da palavra “investigação”. Não foi quando pediram seu crachá. Foi quando o homem que dizia amá-la escolheu o silêncio. — Helena, você tem algo a declarar? — perguntou Solange, a mulher que sempre sorriu demais. Ela respirou fundo. Sentiu o coração bater forte, mas não rápido. Estranhamente calmo. Como se algo dentro dela tivesse desligado. — Não — respondeu. E sorriu. O sorriso confundiu a sala. Suelen franziu a testa. O Diretor Park pigarreou. Ninguém entendeu. Nem Helena compreendia totalmente, mas naquele instante algo se formou com clareza brutal: ela nunca mais imploraria por ser acreditada. Horas depois, esvaziou a mesa sob olhares curiosos. Colegas que antes riam com ela agora fingiam não ver. O elevador desceu em silêncio. Quando as portas se abriram no térreo, Helena deixou para trás não apenas o emprego, mas a identidade que construiu ali. Gabriel a seguiu até o estacionamento. — Helena… — chamou, hesitante. Ela se virou devagar. Observou aquele rosto que conhecia cada detalhe. As linhas suaves, os olhos que já foram casa. Agora pareciam distantes. Pequenos. — Não agora — disse ela, com uma calma que o assustou. — Eu vou resolver isso, eu prometo — insistiu. — Você sabe que eu… — Sei — interrompeu. — Sei exatamente quem você é. Ele tentou segurá-la pelo braço, mas Helena se afastou. O toque dele queimou mais do que qualquer acusação. Naquela noite, a chuva caiu sem força, mas constante. Helena caminhou pelas ruas como alguém que perdeu o caminho e não quer pedir ajuda. O apartamento parecia grande demais para alguém que acabara de ser reduzida a nada. Arrumou a mala sem pressa. Cada objeto tocado era uma despedida silenciosa. Fotografias ficaram para trás. Presentes também. Amor não se leva quando vira prova contra você. Sentou-se na beira da cama e, pela primeira vez, chorou. Não por Gabriel. Não pelo trabalho. Chorou pela mulher que acreditou que ser correta era suficiente. O telefone vibrou. Uma mensagem. “Me atende. Por favor.” -Gabriel. Ela desligou o aparelho. Na rodoviária, enquanto aguardava o ônibus, Helena observou pessoas indo e vindo, todas com destinos claros. Ela não tinha um. Apenas a necessidade urgente de sair. Quando o veículo começou a se mover, sentiu um nó no peito — não de saudade, mas de decisão. Eu vou voltar, pensou. Mas não como a mulher que vocês quebraram. Anos depois, Ganriel se lembraria daquele sorriso. O sorriso que ela deu quando tudo lhe foi tirado. O sorriso que ele não entendeu — e que custaria caro demais para ignorar. Helena fechou os olhos enquanto a cidade desaparecia pela janela. Na escuridão, uma promessa silenciosa se firmava: a vingança não viria em gritos. Viria em poder. E o amor… o amor voltaria apenas para ferir quem o usou como arma.






