Mundo de ficçãoIniciar sessãoIsadora precisava de um refúgio. Fugindo de um passado que ameaçava destruir o que restou de sua família, ela aceita o cargo de babá na impenetrável Mansão D’Ávila. Sua missão: cuidar de Luana, uma doce menina em uma cadeira de rodas que vive isolada em sua própria tristeza. Leon D’Ávila é um homem que governa um império com punhos de ferro, mas vive em uma redoma de gelo e desconfiança. Ele é um mistério envolto em poder, um viúvo que carrega segredos que ninguém ousa questionar. Quando ele propõe a Isadora um contrato inusitado, ela sabe que está entrando em um jogo perigoso. O que Leon não esperava era que sua nova funcionária, teria olhos capazes de enxergar através de suas máscaras e do seu coração. E o que Isadora não imaginava era que, por trás da fachada de controle absoluto do CEO, existia uma contagem regressiva silenciosa. Enquanto a paixão floresce entre cláusulas e acordos, Isadora descobre que o perigo não está apenas fora dos portões, mas sentado à mesa de jantar. Em um ninho de cobras onde todos têm algo a ganhar com a queda do gigante, ela precisará decidir se o contrato é sua salvação ou sua sentença e se o amor pode ser o remédio mais doce ou o veneno mais letal.
Ler maisEu era uma jovem sonhadora. Havia conquistado, após muita renúncia e dedicação, uma vaga para estudar medicina em uma universidade pública. Tinha certeza de que, quando me formasse, mudaria a vida da minha família e libertaria a minha mãe das garras de seu marido, mas não tive tempo.
Meu padrasto, Anilton, era um homem agressivo e possessivo, vivia alcoolizado e tinha o hábito de agredi-la. Eu era fruto do primeiro casamento dela, sendo a mais velha de duas irmãs: Amanda, de 14 anos, e Beatriz, de 6 anos.
Mamãe estava doente, havia descoberto, há um tempo, uma doença degenerativa que, aos poucos, a impossibilitou de trabalhar e de ter uma vida normal. Sendo assim, apesar de não suportar mais seu casamento falido, e temendo não ter condições de nos manter, ela aceitou viver nessa prisão até que seu corpo, já debilitado, descansou.
Eu tinha 24 anos quando ela partiu e estava no oitavo semestre do curso de medicina. Minha mãe não me deixava trabalhar para que eu pudesse focar inteiramente nos meus estudos. Sendo assim, sempre que eu podia, fazia estágios remunerados, e o pouco dinheiro que recebia, entregava a ela para ajudar de alguma forma.
Sempre optei por passar a maior parte do tempo fora de casa, estudando na biblioteca da universidade, a fim de evitar o meu padrasto, que me importunava desde a minha adolescência. Porém, no último ano de vida da minha mãe, minha rotina se tornou caótica, ela vivia acamada, não conseguia andar, se alimentar ou fazer qualquer coisa sozinha, por isso me vi obrigada a trancar a faculdade para cuidar dela e das minhas irmãs.
Temendo que minha mãe piorasse seu quadro de saúde caso soubesse o que vinha acontecendo, mantive as investidas daquele homem asqueroso em segredo. Com a morte dela, porém, não tendo mais o que temer, ele criou coragem para ser mais incisivo.
— Isadora! — Ouvi sua voz nitidamente embriagada ao me chamar. — Isadora!
Eu estava no quarto com as minhas irmãs, que me olhavam de forma assustada. O monstro não poupava nem mesmo as filhas biológicas de suas agressões e, agora sem a mamãe por perto, eu me sentia na obrigação de protegê-las, por isso estava em busca de um emprego, para ter condições de sair de lá e sustentar as duas.
— Deixa que eu vou ver o que ele quer, Isa. — Amanda disse.
— Não! Fique com a Bia, eu vou lá.
Saí do quarto mantendo uma postura firme, apesar de estar apavorada. Ele se aproximou de mim com uma expressão furiosa.
— Você não fez o jantar? O que esteve fazendo o dia todo?
— Estava entregando alguns currículos, preciso arrumar um emprego. Não se preocupe, eu irei fazer.
— Emprego? Você deveria era estar aqui cuidando da casa e de suas irmãs! Era o mínimo para eu deixar que permaneça morando aqui.
Abaixei a cabeça, ciente de que se não fosse a casa dele, eu não teria um teto.
— A partir de agora você assume o papel da sua mãe… — falou, se aproximando com um olhar malicioso e um sorriso diabólico. — E se quiser ficar aqui, terá que ser útil.
— Tudo bem, seu Anilton, irei preparar a sua comida. — falei dando um passo para trás, ameaçando ir para a cozinha, quando fui surpreendida ao ser puxada bruscamente e presa em seu abraço.
— Depois, agora quero matar outra fome… — O velho praticamente sussurrou, esbaforido em meu pescoço, enquanto tentava me beijar.
— Ficou louco? Me solte agora mesmo! — Supliquei em vão, enquanto ele me segurava com força, me empurrando rumo ao quarto. — Pare, seu imundo! Me deixe em paz!
Lhe acertei um tapa no rosto, o que o deixou furioso.
— Me obedeça pro seu bem, vagabunda! — Ele berrou, me acertando outro tapa, e jogou seu corpo pesado contra o meu. — Alguém já te fez mulher? — Sussurrou, puxando meus cabelos para trás e expondo meu pescoço. — Agora você será minha!
Eu não tinha forças para lutar contra ele, que mantinha minha boca fechada com uma de suas mãos, até que vi a porta se abrindo e, segundos depois, o homem caiu desmaiado sobre mim.
— Amanda? — A olhei ainda atônita, após vê-la segurando um rolo de massa que havia usado para acertar o próprio pai na cabeça.
— Isa! Vem, vamos sair daqui!
O empurrei para o lado imediatamente, parando apenas para pegar a chave do quarto e trancá-lo lá dentro.
— O que eu faço, irmã? Eu não posso continuar nessa casa, mas também não posso deixar vocês!
— Vamos fugir, vamos as três!
Minha irmã era uma adolescente imatura e rebelde. Nitidamente, não fazia ideia de que as coisas não eram tão simples assim.
— Fugir para onde? Vamos ficar na rua? Não temos para onde ir!
— Eu não sei, não sei! Mas não quero continuar com ele aqui. — Minha irmã chorava nervosamente, e eu quis acreditar que os motivos dela não eram os mesmos que os meus.
— Vamos… — Concordei sem pensar muito. — Vamos pegar umas roupas, pegamos o que der.
Corremos para o nosso quarto e pegamos três mochilas, enfiando o básico, o que coube, para nós e nossa irmãzinha. Em seguida, enrolei Beatriz em um cobertor, pois lá fora estava frio e chuviscava.
— Isadora! Sua desgraçada, o que fez? Me tire daqui agora mesmo!
Ouvimos Anilton voltar a berrar após ter acordado, e nos apressamos em sair. Notei que a carteira dele estava sobre a mesa, voltando apenas para ver se tinha algum dinheiro, recolhendo os R$ 120,00 que encontrei.
— O que faremos agora? — Amanda me olhou preocupada. — Precisamos ir para longe, ou ele virá atrás de nós assim que sair de lá.
— Vamos procurar um local para passar a noite, e amanhã vejo se consigo ajuda com uma amiga da faculdade.
Eu ainda tinha algum dinheiro guardado que recebi do meu último estágio. Então, pegamos um ônibus, o primeiro que passou. Durante o trajeto, eu observava as gotas de chuva pelo vidro, descendo na mesma velocidade que as lágrimas em meu rosto. Minha irmã também estava muito abalada, porém determinada, enquanto a mais nova já dormia tranquilamente em meu colo, sem entender nada.
— Moças, onde vão descer? Essa é a última parada, estamos chegando ao terminal. — O motorista perguntou, provavelmente estranhando a situação.
— Estamos indo para o terminal mesmo, lá uma pessoa irá nos buscar.
O homem assentiu, sem questionar mais nada, porém notei que ficou nos observando quando finalmente descemos e caminhamos sem rumo, em meio à escuridão.
— Para onde vamos? — Amanda perguntou, seus lábios tremiam devido ao frio e ao provável nervosismo.
Olhei ao redor tentando me situar, e lembrei que naquela região, há algumas quadras dali, havia um posto de saúde.
— Vamos para o hospital. Fingimos que estamos aguardando atendimento, passamos a noite em segurança, e amanhã pensamos no que fazer.
Caminhamos a passos largos, morrendo de medo, pois já era tarde da noite e as ruas estavam desertas. Quando finalmente chegamos ao hospital, subimos a rampa que dava acesso à entrada de emergência, onde algumas pessoas aguardavam atendimento. Sentamos em um banco mais distante, respirei um pouco mais aliviada e, após velar o sono das minhas irmãs por horas, acabei cedendo ao cansaço e adormecendo ali também, sentada.
O sol de domingo nasceu impiedoso, filtrando-se pelas persianas da luxuosa sala dos D’Avila. O ambiente estava carregado por um silêncio opressor. De um lado, Leon permanecia de pé, a postura impecável e o rosto esculpido em uma severidade que faria qualquer executivo tremer. Ao seu lado, Isadora mantinha os braços cruzados, o olhar decepcionado pesando mais que qualquer grito.À frente deles, Luan e Erick pareciam versões menores de si mesmos, sentados no sofá de couro, ostentando olheiras e uma postura defensiva.— Eu gostaria de entender — a voz de Leon surgiu baixa, quase um sussurro perigoso — em que momento vocês decidiram que a nossa casa é um bordel e que as convidadas da irmã de vocês são mercadorias de troca.Luan tentou abrir a boca, mas um gesto ríspido de Leon o calou.— Luana está inconformada depois de ouvir o relato humilhante das amigas. Vocês não apenas desonraram essas moças, vocês transformaram o noivado da irmã de vocês em um show de vulgaridade.Isadora deu um pa
O silêncio da sala de reabilitação era quebrado apenas pelo ranger dos aparelhos de ferro e pela respiração pesada de Luana. O novo protocolo, desenvolvido por uma renomada neurocientista brasileira, não era um milagre, mas para a mulher que desde os 3 anos de idade vivia em uma cadeira de rodas, parecia a própria definição de um. O medicamento agia na regeneração das conexões nervosas, e após meses de tratamento, o que parecia impossível aconteceu.— Eu senti... — sussurrou ela, os olhos marejados fixos nos próprios pés.Não era apenas a pressão das mãos do fisioterapeuta. Era o frio do azulejo, um formigamento elétrico, doloroso e maravilhoso, que subia pelos seus tornozelos. Com um esforço hercúleo, Luana forçou os músculos das coxas. Suas pernas, que por tanto tempo foram apenas um peso morto, tremeram. Sob o olhar atento e emocionado de Isadora e Leon, Luana ergueu o quadril da cadeira de rodas e, por cinco segundos eternos, sustentou o próprio peso, ela estava de pé. Aos 25 ano
~~ Leon ~~Houve um tempo em que o Natal, para mim, era apenas um lembrete estatístico da passagem do tempo e uma obrigação social vazia. Eu costumava observar as luzes da cidade do alto do meu escritório, sentindo que o gelo no meu peito era mais frio do que qualquer inverno. Mas hoje, ao cruzar o hall da mansão D’Ávila, o cheiro da rabanada de Vera e o som de gargalhadas infantis me atingiram como o mais potente dos antídotos.A sala de estar estava irreconhecível. Uma árvore de dois metros de altura ostentava enfeites que Luana, Amanda e Beatriz haviam escolhido. Mas o verdadeiro ornamento daquela noite eram os dois balanços eletrônicos perto da lareira desativada.Luan e Erick, agora com três meses, eram pequenos milagres ruivos que pareciam iluminar o ambiente. Luan, o mais velho por minutos, tinha o meu olhar atento, observando cada luz piscar com uma curiosidade analítica. Já Erick era puro carisma, distribuindo sorrisos banguelas para quem chegasse perto.— Eles estão a cara da
~~ Leon ~~Dois meses se passaram desde o nascimento e a vida na mansão era um caos delicioso. Eu havia aprendido a trocar fraldas com uma eficiência técnica invejável e conseguia distinguir o choro de fome do choro de sono de cada um dos gêmeos.Isadora permanecia de licença, e dentro de dois meses voltaria ao Internato, por isso, o papai precisava estar preparado para dar conta do recado. Ela permanecia estudando e se desdobrava entre as mamadas e os livros, provando ser a mulher mais resiliente que já conheci. Mas havia algo que precisávamos encerrar antes da sua formatura.— Marcos me ligou — falei, enquanto ajudava Isadora a organizar seus livros no escritório. — O julgamento final da Carla foi marcado.O silêncio caiu sobre nós. Isadora parou o que estava fazendo e me olhou. — Você quer ir?— Eu preciso ir. Não por vingança, mas por justiça. Quero olhar nos olhos dela e mostrar que o veneno dela não apenas falhou, mas serviu de adubo para a vida mais bonita que eu poderia ter.





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