Mundo ficciónIniciar sesiónDepois daquela noite, nada voltou a ser simples.
Helena tentou evitar Miguel. Não por falta de desejo, mas porque ele despertava algo que ela havia jurado manter enterrado: esperança. E esperança era perigosa. Esperança enfraquecia planos. Ainda assim, seus passos a levavam de volta ao bar todas as noites, como se o corpo decidisse antes da razão. Miguel não a pressionou. Continuou tocando como se nada tivesse acontecido, mas os olhares duravam mais. Os silêncios carregavam promessas. Às vezes, quando ela passava por ele, sentia sua mão roçar a dela — sempre rápido, sempre intenso demais para ser acidental. Foi numa madrugada quase vazia que ele a convidou para caminhar. As ruas estavam úmidas, refletindo luzes quebradas. Helena sentia o coração bater forte, não de medo, mas de antecipação. Miguel andava ao lado dela, respeitando a distância, até que pararam diante de um rio silencioso. — Eu preciso te contar algo — ele disse. O tom era sério. Diferente. Helena virou-se para ele. Pela primeira vez, viu algo parecido com culpa em seu olhar. — Antes que isso vá mais longe. Ela engoliu em seco. Sabia que aquele era o momento em que histórias mudam de direção. — Meu nome não é só Miguel — ele começou. — Eu sou Miguel Miranda, ex-analista financeiro da Miranda’s Corporation. O nome atingiu Helena como um golpe físico. Miranda’s Corporation. O mesmo lugar onde tudo desmoronou. — Eu sei quem você é — ele continuou, com a voz baixa. — Ou… quem você foi. O mundo pareceu inclinar. Helena deu um passo para trás. — Não — sussurrou. — Você está mentindo. — Eu vi os relatórios — disse ele. — Vi as assinaturas falsas. Vi quem se beneficiou. E vi quem foi sacrificada. O silêncio entre eles era pesado demais. — Então você se aproximou de mim por pena? — ela perguntou, a voz tremendo de raiva. — Não — respondeu ele de imediato. — Eu me aproximei porque não consegui esquecer você desde o dia em que te vi sendo destruída naquela sala. Helena lembrou. Um homem no fundo da reunião. Quieto. Observando demais. — Eu tentei denunciar — ele continuou. — Mas fui afastado antes. Meu nome foi apagado. Meu silêncio foi comprado. Eu recusei. Ela sentiu lágrimas queimarem, mas não deixou cair. — Você faz ideia do que fez comigo? — perguntou. — Do risco? Miguel se aproximou devagar. — Todos os dias — disse. — E ainda assim, eu me apaixonei. As palavras quebraram a última muralha. Helena o empurrou contra a mureta do rio e o beijou com fúria, dor e desejo misturados. O beijo não pedia permissão. Exigia verdade. As mãos dele seguraram seu rosto com cuidado, como se temesse quebrá-la de novo. Quando se afastaram, ambos estavam sem fôlego. — Eu vou voltar — ela disse, com os olhos brilhando. — E quando eu voltar, eles vão cair. Miguel sorriu, mas não havia alegria ali. — Então não vá sozinha. Ela o encarou, surpresa. — Eu não quero te salvar — ele completou. — Quero lutar ao seu lado. Naquela noite, fizeram amor sem pressa, como se cada toque fosse uma escolha consciente. Não havia promessas eternas, apenas entrega. Helena percebeu que não era apenas desejo — era reconhecimento. Duas pessoas feridas encontrando abrigo uma na outra. Mas, enquanto dormia ao lado dele, um pensamento não a deixava em paz: Amar alguém que conhece seu plano… é dar a essa pessoa o poder de te destruir. Do lado de fora, a cidade seguia indiferente. E, em algum lugar, Gabriel ainda sonhava com a mulher que perdeu, sem imaginar que ela estava se reconstruindo nos braços de alguém que sabia exatamente como derrubá-lo.






