Mundo de ficçãoIniciar sessãoA maior traição nunca vem de quem você odeia.
Ela vem de quem acredita estar te salvando. Helena chegou ao café marcado com Gabriel exatamente no horário. Vestia-se de forma simples, quase discreta. Aquilo não era um encontro de negócios. Era um ajuste de contas. Gabriel já a esperava, visivelmente abatido. O homem confiante de antes agora carregava olheiras fundas e um medo mal disfarçado. — Obrigado por vir — disse ele, apressado. — Eu… achei que você não viria. — Eu sempre termino o que começo — respondeu ela, sentando-se. Gabriel respirou fundo, como quem se agarra à última chance. — Estão tentando me destruir — disse. — Você sabe disso. Mas eu posso provar que não fui o mentor de nada. Eu fui fraco, sim. Covarde. Mas não criminoso. Helena inclinou levemente a cabeça. — Fraqueza também destrói vidas — respondeu. Ele apertou as mãos. — Eu ainda te amo — disse, quase num sussurro. — E sei que você ainda sente algo. Não estaria aqui se não sentisse. Ela o observou por longos segundos. Viu ali o passado inteiro tentando sobreviver. — Eu senti — respondeu, finalmente. — Por muito tempo. Mas amor sem coragem vira arma contra quem ama. Gabriel engoliu em seco. — Eu posso te dar tudo o que você perdeu — insistiu. — Nome. Status. Proteção. Se você me ajudar agora, podemos virar isso juntos. Foi ali que Helena entendeu: ele ainda acreditava que tinha poder sobre ela. — Você não entendeu — disse, com calma. — Eu não vim te salvar. Ela deslizou um envelope pela mesa. Dentro, havia cópias de mensagens, autorizações assinadas, registros de reuniões privadas. Provas de que Gabriel não apenas se calou no passado — ele permitiu que Helena fosse usada como escudo para proteger executivos maiores. O rosto dele perdeu a cor. — Isso… isso não pode vir a público — murmurou. — Vai — respondeu ela. — Hoje. Gabriel se levantou abruptamente. — Você vai destruir tudo! — disse, com a voz quebrada. — Inclusive quem você ama! Ela se levantou também, olhos firmes. — Não. Eu só estou devolvendo o que vocês começaram. Enquanto isso, do outro lado da cidade, Miguel enfrentava sua própria queda. Foi chamado para uma reunião “informal”. Dois homens. Nenhuma gravação. Nenhum papel. — Você sabe demais — disseram. — E está ligado a alguém perigoso. Ofereceram a ele um acordo. Proteção. Limpeza do nome. Futuro intacto. Em troca, uma coisa. — Afaste-se dela. — Ou entregue o que sabe. Miguel saiu daquela sala com o coração em guerra, amava Helena, mas pela primeira vez percebeu que continuar ao lado dela significava destruí-la por completo. Naquela noite, ele fez a escolha mais difícil da sua vida. Entregou um único arquivo. Não era o plano inteiro. Mas era o suficiente para atrasá-la. E, principalmente, para expô-la. Quando Helena soube, não chorou. Leu o relatório com calma. Reconheceu o padrão. Reconheceu a origem. — Foi você — disse, quando ele chegou. Miguel não negou. — Eu fiz para te salvar — disse, com a voz falhando. — Eles iam te destruir. — Você me traiu — respondeu ela. — Do mesmo jeito que ele. Aquilo foi pior do que qualquer acusação. Miguel tentou se aproximar. Ela se afastou. — Eu nunca pedi para ser salva — disse. — Pedi para não ser abandonada. Ele saiu sem discutir. Porque algumas perdas não permitem defesa. Na manhã seguinte, tudo veio à tona. Gabriel foi formalmente acusado. A empresa entrou em colapso público. Nomes grandes caíram junto com ele. E Helena apareceu. Não como vítima. Como líder. Assumiu o controle de um dos maiores fundos envolvidos na reestruturação. Sentou-se à mesa onde um dia foi expulsa. Olhou para os mesmos rostos que a ignoraram. — Eu estou aqui — disse — porque sobrevivi. Mas, naquela noite, sozinha em casa, o poder não a aqueceu. Pensou em Miguel. No amor que perdeu tentando protegê-la. Na solidão que sempre acompanha quem vence. No espelho, a mulher que a encarava era forte. Intocável. Vitoriosa. E profundamente sozinha. A vingança estava quase completa. Mas o custo… ainda não tinha sido totalmente pago.






