Liah sempre soube que sua vida como ômega seria marcada pela dor, mas jamais imaginou ser reclamada pelo Alfa Cruel, Magnus. Temido por todos, ele governa com brutalidade e sombras, esmagando inimigos sem hesitar. Quando a marca dele queima em sua pele, Liah é arrastada para um mundo de guerras políticas, alianças sangrentas e desejos proibidos. Prisioneira no castelo sombrio, ela luta para sobreviver aos toques que queimam e ao olhar que a despedaça. Mas há algo mais profundo entre eles – um laço que nenhum dos dois entende ou aceita. Enquanto Magnus precisa se casar com a filha de outro Alfa para manter a paz dos clãs, um segredo cresce dentro de Liah, ameaçando derrubar reinos inteiros. Seu filho carrega a promessa de cura… ou destruição. Em um mundo onde o amor é guerra e o poder governa acima de tudo, Liah descobrirá que mesmo o lobo mais cruel guarda um coração capaz de ruir. Mas o preço por amar o Alfa Cruel pode ser sua alma.
Ler maisPOV Liah
A lua cheia, tingida de vermelho, queimava no céu como sangue fresco derramado pelos deuses. Lá de cima, ela parecia me observar — não com misericórdia, mas com desprezo. A cada passo pela trilha de barro frio, meus pés descalços ardiam, rasgados pelas pedras, pelos espinhos. Mas eu não podia parar. Meu corpo gritava, mas a dor no peito abafava qualquer outro som. Eu corria sem olhar para trás. Se olhasse, ouviria de novo as risadas. As palavras. Os olhos dos outros sobre mim. O vento gelado cortava minha pele como lâminas. O vestido branco de linho, antes limpo, agora grudava na minha pele com a lama, rasgado nos joelhos, sujo de sangue e vergonha. Cada galho que me feria era menos cruel que os rostos que me julgaram. Nada doía mais que a humilhação de ser tratada como nada. Como menos do que nada. Eles riram de mim. Todos eles. As jovens ômegas estavam em fila, como cordeiras enfeitadas para o abate, oferecidas aos Alfas visitantes para uniões políticas. Eu sabia que era minha vez. Não havia mais como fingir. Mas quando me pus diante deles, tudo o que ouvi foi escárnio. Meu nome não era digno nem de ser lembrado. — Filha de quem mesmo? — zombou a loba beta, o veneno escorrendo da voz dela como se eu fosse algo podre. Meu corpo ficou imóvel. Quis desaparecer ali mesmo. O Alfa diante de mim me encarou por um segundo. A cicatriz em seu rosto era profunda, mas nenhuma dor que ele já tivesse sentido parecia se comparar ao desprezo em seus olhos. — Fraca demais até para parir filhos fortes. E cuspiu. Cuspiu em mim como se eu fosse imunda. Minhas mãos tremiam, mas ninguém percebeu. Ninguém nunca percebe. Eu engoli tudo. As lágrimas, a revolta, a vontade de gritar. Gritei por dentro. Dei um passo para trás… depois outro. E então corri. Corri como se minha alma dependesse disso. Corri porque meu coração já estava esmagado. As vozes me seguiam. “Olhem para ela, tão magra…” “Tão pálida…” “Como poderia satisfazer um Alfa?” “Parece um filhote doente.” Essas palavras se cravaram em mim como dentes. Eu sangrava por dentro e ninguém via. ‘Por que eu nasci assim… fraca… suja… invisível?’ O som das tochas e da música tribal se perdeu atrás de mim. Agora, só havia o som da minha respiração falha, do choro que eu não queria deixar escapar. Eu não podia mostrar fraqueza, mesmo quando tudo em mim estava quebrado. A floresta me recebeu com frieza. Galhos arranharam minhas pernas, pedras cortaram meus pés. Mas não me importei. Não mais. Cheguei à margem do rio. Me ajoelhei, arfando. Meus joelhos cederam. O reflexo distorcido na água escura me devolveu uma imagem que eu queria negar olhos inchados, sangue seco no queixo, lábios trêmulos. ‘Eu sou tão fraca… tão sozinha… tão inútil… tão suja…’ As lágrimas escorriam sem som, só sentidas. Eu queria que a água me levasse. Que a corrente me escondesse. Mas foi o silêncio que me entregou. Foi então que eu ouvi. Um rosnado. Baixo, grave… e sobrenatural. Não era o som de um animal comum. Era o tipo de som que você ouve em pesadelos e que faz até os ossos gelarem. Meu corpo inteiro se retesou. As veias dos meus braços pulsaram com uma força estranha, como se algo me empurrasse a correr — mas minhas pernas não obedeceram. Eu me sentia pregada ao chão, vulnerável, frágil… como um filhote cercado por predadores. Meus olhos se ergueram, lentamente, com o coração martelando tão alto que eu mal escutava o som da floresta. E então eu o vi. Entre as árvores, como se tivesse saído das entranhas da própria noite, uma figura se formou — alta, monstruosa, magnífica e cruel. Os cabelos escuros estavam colados à testa suada, o peito largo nu, os músculos tensos como os de uma fera prestes a saltar. Mas o que me paralisou de verdade… foram os olhos. Dois círculos de brasas vivas. Eles não me olharam. Eles me atravessaram. Como se vissem cada pensamento sujo, cada trauma escondido, cada pedaço frágil da minha alma. O medo tomou conta de mim com tanta força que meus dedos das mãos começaram a formigar. Eu quis gritar… mas minha garganta se fechou. A boca entreaberta, a respiração presa. Eu me sentia pequena, insignificante. Uma criança diante de um deus primitivo. Ou pior… diante de um Alfa. Ele não falava. Apenas me observava, como um caçador aprecia sua presa antes do golpe final. O ar ficou pesado, como se o mundo ao meu redor tivesse parado de respirar junto comigo. Meus olhos ardiam de tanto mantê-los abertos. Meus joelhos fraquejaram. Cada parte do meu corpo implorava para desaparecer dali. Mas era tarde demais. O rosnado soou outra vez, mais baixo, mais íntimo. Como se ele falasse com a parte mais animal que havia dentro de mim. A loba encolhida no fundo da minha alma também estremeceu, reconhecendo algo que minha mente humana não entendia — poder bruto, cruel e absoluto. E foi aí que o medo virou desespero. Eu queria correr, implorar, gritar… mas a voz não saía. As palavras morriam no fundo da minha língua como folhas apodrecendo no inverno. Meus olhos se encheram de lágrimas novamente, mas dessa vez, não era por humilhação. Era puro instinto de sobrevivência. E mesmo assim… …quando ele deu um passo em minha direção, algo dentro de mim não correu. Ficou. Tremendo. Esperando o destino.POV Liah A noite caiu como um véu de seda tingido em sangue. A Primeira Lua Sangrenta pairava acima das torres como um olho ancestral — e meu ventre pulsava como se reconhecesse sua maldição. Três meses. Três luas desde que deixei meu corpo descansar nos braços de Rhaziel. Desde que deixei minha alma ruir em silêncio. Desde que me descobri… grávida. De quem? Não sei. Ou talvez saiba, mas não queira aceitar. Meus filhos, Rael e Aelyra, sabem. Eles foram os primeiros a perceber. Os primeiros a cuidar. A proteger. E por isso… decidi que a cerimônia desta noite seria por eles. Por nós. Pelo sangue que vive, mesmo entre os destroços do que um dia fui. O salão estava vazio quando cheguei. Vesti a túnica negra dos antigos rituais lunares. Sem coroa. Sem pedras. Apenas a loba. Minha barriga ainda não denunciava o segredo, mas já pesava em cada gesto. E em cada silêncio. Os guardas recuaram. Os anciãos se calaram. Aelyra entrou primeiro. Vestida de branco, os
POV Rhaziel O castelo parecia mais frio desde aquela noite. Não era um frio de inverno. Era ausência. Ausência dela. Liah não falava comigo. Não me tocava. Não me olhava da mesma forma. Desde o dia seguinte ao ataque de Magnus, ela havia se recolhido por completo, como se uma parte dela tivesse morrido ali. E eu… eu assistia em silêncio. Ela me deixou entrar no seu corpo, no seu coração por uma noite. E agora? Agora ela estava a um mundo de distância. Nos corredores, passávamos por ela como súditos. Não como o pai dos filhos que ela criou ao meu lado. Nem como o homem que a amou com reverência e desejo. Ela andava como uma sombra de seda, com os olhos distantes e os lábios sempre trancados. Mas eu a observava. Sempre. Cada movimento. Cada gesto involuntário. E foi num desses gestos que percebi. Ela tocava a barriga. Às vezes sem perceber. Um toque leve. Quase instintivo. Como se estivesse sentindo algo. Protegendo algo. Uma vez, vi Aelyra segurando sua mão
POV Liah A lua estava alta quando ouvi o sussurro. Não veio de fora, nem dos corredores onde meus inimigos e antigos amantes caminhavam como sombras condenadas. Veio de dentro. Um sussurro que pulsava no ventre, como uma canção antiga tentando ser ouvida. Minhas mãos tremiam enquanto eu afastava as mantas da cama. Meus pés descalços encontraram o frio do chão como se pedissem firmeza. Respirei fundo. Há semanas o enjoo vinha e ia, mas naquela madrugada… algo era diferente. Eu sabia. Meu corpo, minha essência, minha magia… sabiam. Eu estava grávida. O gosto metálico da revelação subiu pela garganta e me encheu de pânico e ternura ao mesmo tempo. Meu ventre, que um dia sangrou em silêncio sob o domínio de Magnus… agora se enchia de vida. E não era dele. Era de Rhaziel. Senti os olhos arderem, e pela primeira vez em muitos dias, chorei em silêncio. Não de dor. Mas de medo de amar de novo. De carregar mais uma vida num mundo onde eu era metade rainha e metade maldi
POV RhazielTrês meses.Três malditos meses sem tocá-la. Sem ouvir sua risada, seu sarcasmo, nem mesmo um insulto.Liah caminhava pelos corredores como uma deusa ferida — bela, mas inalcançável. E o pior? Era como se ela apagasse nossa história com o mesmo silêncio que um lobo usa para morrer em paz.Ela não me olhava mais.Dormíamos no mesmo castelo. Eu ficava com as crianças, sim — principalmente com Rael, que me chamava de pai com naturalidade. Aelyra, por outro lado, era mais sensível. Sentia tudo, via além. Sabia que algo em mim estava quebrado.Eu era o guerreiro que perdeu a guerra mais importante: a de permanecer no coração da mulher que jurei amar até o fim dos tempos.Ela era um campo de batalha silencioso, e todo dia eu sangrava um pouco mais.Aelyra me olhava como quem compreendia o que nem eu tinha coragem de dizer. Que meu maior medo não era Magnus. Era a ideia de que, talvez, Liah nunca tivesse me pertencido por completo. Que eu tivesse sido um refúgio, um bálsamo, um s
POV Magnus O sangue ainda pulsava em meus ouvidos. Eu o teria matado. Teria enterrado meus dentes na garganta daquele bastardo e dançado sobre os ossos dele. Mas… ele não rugiu de volta. Ele não revidou com selvageria. Ele se defendeu. E ela… Ela me olhou como se eu já não fizesse parte do mundo dela. As palavras de Rael me rasgaram mais do que qualquer lâmina: "Se vocês se matarem, a guerra já venceu." Meu filho. Meu sangue. Protegendo o inimigo. Eu caí de joelhos não por cansaço. Mas porque, pela primeira vez, percebi: eu havia perdido. E não era Liah que eu tinha perdido. Era tudo o que restava de mim. A criança que ela carregou dentro de si, a filha da lua que nasceu com olhos que veem além do tempo, a mulher que uma vez gritou sob meu corpo — tudo isso agora me olhava como se eu fosse só mais uma ameaça. Eu queria dizer que fiz tudo por amor. Queria dizer que lutei por ela. Mas o que seria da verdade, se meus atos gritam mais alto? Leva
POV Rhaziel O sol mal havia rompido no céu, e já era tarde demais. Porque algo em mim… havia mudado. Liah dormia ao meu lado, o corpo nu coberto apenas pelo lençol branco. Mas nada nela era frágil agora. Mesmo adormecida, ela parecia uma deusa caída, com os cabelos espalhados como raízes negras sobre meu peito. Sua respiração era calma. E pela primeira vez, seus olhos — antes armados, desconfiados, destruídos — haviam se fechado com paz. Toquei de leve seus dedos entrelaçados aos meus. A pele dela ainda carregava meu cheiro. E, por alguma ironia dos deuses, isso me aterrorizava mais do que qualquer guerra. Porque eu sabia… Quando ela acordasse, quando o sangue de Magnus tocasse o ar, nada disso importaria mais. A noite foi dela. Mas o dia… pertenceria ao caos. Tentei sair da cama, vestir minha camisa. Tentei fugir. Mas meus pés não obedeceram. Eu não podia deixá-la. Em vez disso, caminhei até a janela. O céu estava pálido, emoldurado por nuvens pesada
Último capítulo