CAPÍTULO 2.3

Helena

- Vamos lá, Leninha. Sua vez agora.

- Certo. – eu adorava cantar. Eu nunca parei para pensar se eu fazia isso bem ou mal. Eu apenas fazia. Em momentos como aqueles, onde os amigos estavam reunidos e nós estávamos nos divertindo. André sabia exatamente as músicas que eu mais gostava de cantar e, no momento, estava rolando uma vibe meio Reggae music.

Quando os acordes de Do lado de cá de Chimarruts começou a cantar eu me empolguei e me soltei e a galera acompanhou. Foi divertido e como sempre rimos um bocado.

Quando eu olhei na direção do novo amigo gringo de Toninho, ele estava me olhando. Não era a primeira vez que um gringo se interessava por mim. Muitos inclusive passavam do ponto. Mas era a primeira vez que eu me vi interessada em um. Eu sabia, no entanto, que era uma péssima ideia. O cara era um jogador famoso da NFL, segundo Toninho, não que eu entendesse alguma coisa de futebol americano, e logo ele estaria de volta ao mundo dele. Sem chance de eu cair numa barca furada dessas.

O pessoal se espalhou pela praia. Alguns casais já estavam formados, outros formaram-se lá. O grupo maior ainda permanecia em volta da fogueira, mas eu aproveitei para me afastar um pouco e ir molhar os pés nas águas do mar.

A conversa que eu tive com Toninho ontem à noite veio na minha cabeça de novo. Eu a estava remoendo pela enésima vez hoje. Ele queria muito estudar nos Estados Unidos e jogar futebol americano. Mas até agora não conseguimos uma resposta positiva. Me preocupava mais a situação dele do que a minha. Por que as aulas do ensino médio já haviam começado em agosto. O calendário acadêmico de lá é totalmente diferente do nosso. Não que ele não possa começar no segundo semestre, mas ele teria que correr bem mais.

Se tivéssemos dinheiro não seria tão difícil conseguir um intercâmbio para ele no ensino médio. O grande problema é que estamos tentando bolsas de estudos e isso é bem mais complicado. Se o nosso governo ajudasse ele poderia ir. Decidi pesquisar no dia seguinte sobre uma empresa de intercâmbio que pudesse facilitar as coisas. Eu queria muito dar isso ao meu irmão. Nem que pra isso eu tivesse que fazer a tal da vaquinha on line.

- Hey, você está bem? – Aquela voz. Minha Nossa Senhora, o que era aquilo?

- Oi. Eu estou bem sim. Por que a pergunta?

- Parece preocupada. – Neguei com um aceno de cabeça e voltei a olhar para o mar. Geralmente eu não era tímida com os gringos. Eu estava acostumada a falar com eles. Na maioria das vezes eu servia de intérprete para eles. Mas este cara me deixava nervosa. Ele era bonito. Não. Ele era lindo. Um ruivo lindo e olhos cinza e enorme. Ele alto o suficiente para que eu me sentisse completamente desconfortável de estar tão perto, daqueles que faziam meu pescoço doer. Eu ri quando pensei nisso e ele riu de volta sem ter ideia do que se tratava. – Do que você está rindo?

- Do quão alto você é. Cara, você é muito alto. É enorme.

Ele me deu um sorriso de lado. Sim, aqueles sorrisos sexys que os caras dão nas fotos de catálogos que puxa apenas um lado da boca pra cima. – Talvez eu não seja tão grande assim. De repente é você que é pequena demais.

- Sim. Eu sou pequena demais. Sei disso, grandalhão. Mas você ainda é grande. Marquinhos é um anão perto de você e olhe que ele é um dos mais altos aqui.

Ele fechou a cara de repente. Droga. Acho que ele não gostou muito da minha brincadeira. – Marquinhos é seu namorado?

Será que ele está com ciúmes? No mesmo instante eu descartei essa ideia. Os gringos não tinham ciúmes das mulheres locais. No máximo eles ficavam frustrados por perderem a oportunidade de levarem uma mulher que os interessa para a cama. Mas logo aparece outra e eles esquecem. – Não. Marquinho é um grande amigo.

- Ele abraçou você.

- Nós somos brasileiros – Eu disse sorrindo como se fosse muito óbvio. – somos espontâneos. Abraçamos, beijamos, tocamos, sorrimos exageradamente, falamos alto, somos expressivos. É a sua primeira vez no Brasil?

- Sim.

- Bem, então você precisa se acostumar. Somos assim.

- Então não seria estranho se eu te abraçasse... – ele me perguntou com as sobrancelhas arqueadas. Eu, ao invés de responder diretamente apenas ri e soltei um: Muito espertinho você.

- Ok! – Ele murmurou aparentemente contrariado – Então só Marquinhos pode.

Eu não respondi a isso também. Eu apenas sorri e voltei minha atenção para a água. Ficamos os dois em silêncio. Eu sabia que ele estava me olhando o tempo todo. Dava para ver pela minha visão periférica, mas eu continuei com olhos fixos para a escuridão do mar. – Toninho falou sobre o passeio de lancha para conhecer os Corais. É você que pilota?

- Não. Quer dizer, eu sei pilotar. Já fiz várias vezes. Mas eu vou mais como intérprete sempre que tem algum estrangeiro.

- Entendo.

- Mas como você viu, Toninho é excelente intérprete também.

- Está me dispensando?

Eu ri. – Não.

- Está sim. É bem claro pra mim.

- Certo. Eu... vou ser honesta. Não estou sendo pretensiosa nem nada. Não é nada disso mesmo. Só que... não é a primeira vez que um gringo se interessa por mim. Toninho deve ter te explicado o que é gringo para nós. – ele acenou concordando. – Então, eu não me relaciono com gringos. Nunca me relacionei e não pretendo fazer isso. Então, se você veio pra cá para se divertir e quiser fazer um passeio, conhecer os lugares, sair com a turma, conversar, como amigos, eu estou mais do que interessada. Eu e Toninho não perdemos uma oportunidade de conhecer estrangeiros e aumentar o nosso vocabulário. Mas é só isso. Não vai rolar nada entre nós. Entende...

Ele acenou e ratificou com uma palavra. – Entendo.

Ficamos os dois ali em um silêncio desconfortável e eu achei que ele sairia e voltaria para perto do grupo. Mas ele ainda tinha o que dizer. – Aceito seus termos, se é o que você pode me dar. Mas eu estou encantado. Eu... nunca me aconteceu isso. Talvez você não acredite. Não é só sobre beleza, corpo, é... é uma coisa de alma. Você tem que estar sentindo isso. Eu não posso estar sentindo isso sozinho. – Eu não confirmei, nem neguei – Mas, ok, eu aceito os seus termos.

Nós ficamos ali um pouco mais, conversando bobagens. Ele quis saber um pouco sobre os corais, sobre a cidade e eu falei algumas coisas. Combinamos um passeio de barco para o dia seguinte pela manhã. Toninho se aproximou e eu tratei logo de incluí-lo no passeio. Drew pagaria o aluguel do barco e eu pilotaria.

- Leninha – A voz de Marquinhos soou atrás de mim. Eu estou voltando para a cidade. Gostaria de uma carona?

- Eu vou com Dayse.

- Hum... certo. Mas eu só perguntei por que a Dayse me parece um pouco ocupada ali – ele disse apontando para um casal que, de tão colado, mais parecia uma só pessoa. Todos nós rimos.

- Certo. Então eu acho que vou aceitar. Além disso, Dayse não tem hora para acordar amanhã e eu tenho. – Eu me virei para Drew e expliquei a ele o que estava acontecendo.

- Eu posso providenciar um carro do resort para te levar em casa. Levar os dois – Disse se referindo a mim e a Toninho.

- Obrigada, Drew. Tenho certeza que você pode, mas não é necessário. Você tem o telefone de Toninho?

- Sim. Eu peguei esta tarde.

- Ótimo. Então nos vemos amanhã no centro. É só dizer no resort que quer um carro para o centro e parar no restaurante de Seu Bidú. Toninho vai mandar um texto explicando. Foi bom te conhecer. Boa noite.

- Boa noite, Helena.

Toninho também se despediu dele e nós seguimos com Marquinho. Que tratou logo de segurar a minha mão. Não era algo estranho. Marquinho sempre foi muito carinhoso comigo. Andávamos abraçados, pegávamos na mão, era tudo muito normal. Mas pela primeira vez eu me senti incomodada com isso.

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