Mundo ficciónIniciar sesiónDrew Hopkins
Suspenso!
A palavra soava na minha cabeça como um mantra. Um mantra do mal. Um mau agouro. Mas era um fato. Eu estava suspenso em plena temporada. Mas embora eu esteja arrasado eu não me arrependo. Meu consolo vai ser fechar os olhos e imaginar cada soco meu na cara daquele filho da puta. Sempre que eu pensar no que eu perdi, basta lembrar do que eu ganhei. Foi o que eu repeti para mim mesmo enquanto o treinador gritava diante de mim.
- Seu irresponsável do caralho. Você quer foder com a sua carreira, então faça, porra! Mas você não vai arrastar o meu time pra merda com você.
Manny era um cara legal. Um bom treinador, bom amigo. Compreensivo na medida do possível. Mas ele era justo e ele amava aquele time. O New England Patriots ou Pats como todos carinhosamente o chamava era a vida de Manny e ele seria seu amigo desde que você não tentasse foder com o seu time. Ele era bom no que fazia, um excelente profissional, mas Gilmore me tirou do sério. De novo. Ele sabia como fazer isso. Sabia que botões apertar. Na verdade todos sabiam, mas só ele fazia. O filho da puta foi, por um longo tempo, o quarterback titular do time, mas então eu cheguei, recém-saído da Universidade, com todo o gás e a vaga de titular era minha. Mas Gilmore era inteligente. Ele era estratégico e eu era um poço de ódio reprimido. Eu explodia na primeira oportunidade e isso era bom pra ele e ruim pra mim.
- Ele começou, treinador. Por que ninguém vê isso?
- Você acha que eu não vejo, seu imbecil? Acha que eu não sei mesmo o que acontece no meu time?
Eu olhei pra ele atônito – Então por que diabos eu estou sendo punido e ele não?
- Por que ele sabe manter o controle e você não. Acha mesmo que ele vai ser o único a te provocar com os teus demônios, filho? Acha mesmo que os times adversários não vão usar isso contra você na primeira oportunidade? Eu não posso ter uma bomba relógio em campo.
- Você não vai vencer sem mim.
- Nem com você. Eu não vou ganhar porra nenhuma com você surtando no meio do campo.
- Basta expulsá-lo então. Suspenda-o e eu vou ser a máquina que você precisa em campo.
- Mas ele não fez nada. Sob qual argumento você quer que eu o puna? O que eu vou dizer ao presidente do time? Oh! Meu jogador ficou ofendido por causa de um apelido ou uma provocação verbal e socou o nosso velho e confiável quarterback, que será o único suspenso enquanto o cara que arrebentou a merda fora dele vai jogar. É sério isso? Junte sua merda e suma daqui. Não quero ver você pelo próximo mês.
- Tá de brincadeira? Um mês?
- Eu já te suspendi por uma semana, depois por duas. Agora vamos de um mês e, se não resolver, você está fora da porra do time. Eu mesmo vou me certificar que você esteja fora.
Certo! Retiro o que eu disse sobre Manny ser um cara legal. – Foda-se! – Foi tudo o que eu disse antes de caminhar pra fora da sua sala.
O filho da puta do Gilmore caminhava em direção ao seu carro. Sua cara estava arrebentada, mas o sorriso em seu rosto era imenso. Como eu fui idiota! Ele me queria fora e ele conseguiu. Eu mudei o meu caminho em sua direção, mas um corpo tão grande quanto o meu atravessou o meu caminho e me obrigou a parar.
- O que você pensa que está fazendo?
- Eu vou terminar de arrebentar a cara desse desgraçado.
- Você enlouqueceu? Faz isso e você está fora do time, Drew. – Ele estava certo. Mas era difícil me controlar. – Vem, vamos tomar umas cervejas e relaxar um pouco. – Arthur era um cara legal. Filho de pais brasileiros, nasceu e cresceu nos Estados Unidos. Recentemente, seus pais se aposentaram e voltaram para o Brasil. Eles construíram um resort em uma dessas praias paradisíacas, mas Arthur acabara de ser convocado para o Pats e acabou ficando por aqui. De vez em quando ele ia visitar os familiares e já levou consigo alguns caras com ele. Todos voltaram impressionados com a beleza do lugar. – Na minha casa. – Ele anunciou entrando em sua pick-up.
Eu entrei no meu carro e o segui por algumas quadras. No caminho, meu telefone tocou através do som do carro. O nome de April apareceu na tela. – Essa agora – Ignorei a chamada. April é mais uma das muitas mulheres com quem eu dormi nos últimos meses, mas é a única delas que está enchendo o meu saco. Tudo isso por que eu caí na besteira de sair com ela mais de uma vez e de deixa-la passar a noite na minha casa em uma noite dessas, onde eu estava bêbado demais para dirigir. Eu precisava colocar um freio nela, mas isso não seria hoje.
Eu pensei seriamente em ir para casa, mas eu precisava de um desabafo e algumas cervejas se eu não quisesse ir até a casa do desgraçado do Gilmore e terminar o que eu comecei. A casa de Arthur não ficava muito longe da minha, sendo que a dele era bem maior e mais bonita. Eu era apenas um principiante, embora eu recebesse no momento muito mais do que eu podia sonhar na vida. Meu pai tinha dinheiro. Muito dinheiro. Afinal ele havia sido o maior quarterback de todos os tempos e agora treinava o Giants. Mas eu não queria o dinheiro dele. Não queria nada dele. Tudo e cada coisa que eu tinha adquirido foi por meu próprio mérito.
Meu pai era um ser desprezível que abandonou a mim e a minha mãe quando eu era criança para viver o sonho de ser jogador da NFL. Ele conseguiu e viveu intensamente a sua vida de farra, mulheres e dinheiro e quando ele achou que já tinha vivido o suficiente, tentou lembrar que tinha um filho. Tarde demais. Eu não queria nada com ele. Ainda não quero. Ele nunca casou novamente ou teve outro filho, de modo que colocou na cabeça que eu era o seu único herdeiro e passou a viver atrás de mim, infernizando a minha vida. Gilmore descobriu o quanto isso me afetava e agora vivia me enchendo o saco sobre isso. Principalmente depois da minha última discussão com o meu pai ter acontecido em frente às câmeras. Hopkins era um nome lendário no mundo do futebol americano e eu lamentava cada dia por ser esse o meu único sobrenome.
- Cara, você precisa superar isso ou vai destruir a sua carreira antes mesmo de começar. – Arthur disse quando eu entrei em sua casa.
- Ele fica me provocando.
- E você tem quantos anos? Doze? Qual é cara? Você não pode mudar quem você é. Aquele cara é o seu pai, não importa o que você diga sobre isso. Mas você chegou até aqui pelo seu próprio mérito. Não importa o que Gilmore diga, isso não muda os fatos.
- Agora eu estou fora dessa temporada.
- Ainda não. Você está suspenso de uma parte importante dela, é verdade, mas a temporada vai até fevereiro e quando voltar você sempre pode dar o seu show.
- O que eu vou fazer até lá? Ficar vendo vocês jogarem e me lamentando em casa?
- Viaja. Sai da cidade. Eu já sei – disse ele como se tivesse uma ideia – Vai para o Brasil.
- O que eu vou fazer sozinho no Brasil. Eu não conheço nada lá e nem ninguém. Vai ser a mesma merda daqui?
- Você não sabe mesmo do que está falando, amigo. Meus pais tem um resort em Muro Alto. É uma praia do litoral Sul do nordeste brasileiro. Compra uma passagem e deixa o resto comigo. Vai ser um presente, ok? – Eu hesitei, mas ele insistiu – Vai lá, cara. Você vai amar. Aquilo lá é um paraíso e você vai me agradecer pelo resto da vida. Pode escrever.
Arthur não me deixou pensar a respeito. Logo pegou o notebook e nós fizemos a compra das passagens de ida e volta. Seus pais iriam me buscar no aeroporto e me levar para a tal praia. Eu estava até curioso para conhecer tudo. Sabia que o Brasil era um país com belas praias. Mas a tristeza por ter sido deixado de fora do campeonato não me deixava. Não ajudava o fato da mídia esportiva não falar sobre outro assunto. Ninguém entrou em detalhes sobre o motivo da suspensão. Falou-se apenas em indisciplina. Mas com os hematomas na cara de Gilmore não foi difícil concluir. Ele, no entanto, não me denunciou. Com certeza o clube deve tê-lo impedido. Senão eu estaria respondendo um processo por agressão agora.
Meu telefone não parava de tocar. Ou era a imprensa ou era o meu pai ou então April. Eu ignorava a ambos. Infelizmente eu não tinha mais a minha mãe para procurar em situações como essas. Ela sempre estava lá nos momentos mais difíceis. Agora não mais. Agora eu estava por minha própria conta.
Quando ela se foi, eu ainda estava na escola e era menor de idade. Fui obrigado a viver com o meu pai por um tempo. Foi o pior ano da minha vida, até eu ir para a Universidade. Nem isso eu devo a ele, já que eu fui com uma bolsa de esportes e não com o dinheiro dele. Embora ele tenha insistido. Eu odiava o meu pai. Eu me ressentia por tudo que ele fez a minha mãe passar. Ela o amava. Mesmo ele sendo um babaca, mesmo com as traições e depois com o abandono, mas ela o amava com todas as forças e eu odiava ele por isso. Pelo que ele a fez passar.







