Mundo ficciónIniciar sesiónHelena
- Sério, Leninha. O cara é muito legal. Ele até se ofereceu para me ajudar a treinar alguns lançamentos.
- Vê lá, hein, Toninho. Você nem conhece esse cara. Só por que ele é jogador famoso lá nos Estados Unidos não significa que ele seja uma boa pessoa. A gente já viu muito gringo errado por aqui.
- Eu sei, mas ele é legal. Eu “tô” te falando. Vai por mim.
- Eu só quero que você fique atento como sempre foi. Nada de aceitar qualquer pacote para entregar a ele... vai que seja droga. Nada de bebida alcóolica, você é menor de idade e, por último, nada de ficar sozinho com ele no quarto. Vai que ele é algum pervertido abusador.
- Oxe! Tu “tais” parecendo com mainha falando.
- Não custa lembrar.
Toninho sempre foi um menino ajuizado. Nunca deu trabalho aos nossos pais. Mesmo assim, ele só tinha quinze anos e as tentações estavam por toda parte. Nós já vimos de tudo naquela praia e aprendemos a ser cuidadosos com quem nos relacionamos.
- Amanhã à noite tem um luau lá em Muro Alto. Eu pensei em levar uma muda de roupa e ficar por lá mesmo depois do meu treino com Drew. Tomar banho na casa de André. Queria que tu “fosse” também pra conhecer Drew. Tu “vai” gostar dele.
- Depois do treino? Olha! Já “tais” falando como profissional. – nós rimos.
- Eu ainda vou ser profissional. Escreve o que eu “tô” falando.
- Vai sim, Toninho. – eu rezava para que tudo desse certo para o meu irmão. Ele merecia. – Se Dayse me der uma carona, eu vou com ela para o luau. Depois de trabalhar o dia todo não tem quem me faça ir andando daqui pra Muro Alto.
*
Quando chegamos em casa, mainha já estava no décimo sono e painho também. Aliás, todos dois dormiam com as galinhas. Mainha só não dormia mais cedo por que tinha que ver todas as novelas. Se não fosse isso, seis horas da noite ela já estaria na cama.
Toninho foi pra cozinha, assaltar a geladeira. Mas eu fui direto para o quarto. Estava exausta e ainda tinha um trabalho de tradução para terminar. Fui direto para o computador e me distraí trabalhando até Toninho aparecer na minha porta.
- Vai dormir, menino.
- Eu “tava” pensando... Se a carta chegasse hoje, nós teríamos dinheiro suficiente para irmos os dois para os Estados Unidos?
Eu já havia pensado nisso um monte de vezes. Claro que tanto ele como eu contávamos em conseguir uma bolsa de estudos. Mas só isso não seria suficiente. Precisávamos do dinheiro das passagens, alimentação, seguro saúde e uma boa reserva para uma eventualidade. Afinal, era outro país e não um passeio daqui para o centro do Recife. – Eu acho que não, Toninho. Quanto você tem no banco?
- Tenho cerca de doze mil reais. Tu “sabe” que todo trocado extra que eu ganhei desde que a gente começou com essa história de ir estudar fora, eu guardei. Só gasto com o estritamente necessário. Mas isso transformado em dólar não deve durar muito, e tu?
- Uns seis mil apenas. Houve toda essa reforma... eu ajudo mainha pra ela não ter mais que trabalhar na casa dos outros. Mas, não se preocupa. Se a sua carta chegar, eu dou o meu dinheiro pra você.
- Eu queria que tu “fosse” também. Tanto quanto eu quero ir, não queria fazer isso sozinho.
- Eu sei. Seria uma grande oportunidade pra nós dois. Mas o fato é que tu sempre “quisesse” mais do que eu. – ele não negou. Na verdade não era uma questão de querer mais, acho que era de acreditar mais. Ele acreditava mais do que eu. – Agora, acho que as coisas vão melhorar um pouco. Alta temporada, dinheiro extra, e ainda tem os meus trabalhos de tradução. Tem aumentado a procura e acho que logo logo devo fazer um bom dinheiro. Vou reservar tudo para a viagem. Tem também a tal vaquinha virtual que Dayse me falou. Eu vi que tanta gente consegue realizar sonhos com essas vaquinhas. Nós podíamos tentar. Tem muita gente boa disposta a ajudar. Mas só se a carta chegar. Agora, vai dormir que amanhã painho vai te arrancar da cama cedo pra ajudar ele.
Ele sorriu, novamente animado. Eu rezava todo dia para que a carta dele chegasse. Na verdade, eu achava que seriam e-mails, mas ele sonhava com o modelo americano onde uma carta chegava com o texto de aceitação.
Eu tinha tentado Harvard, mas honestamente era muita areia para o meu caminhão. Seu Carlos, dono do Resort, que foi um diplomata brasileiro em missão nos Estados Unidos por muitos anos até escreveu uma carta de recomendação para o reitor e ainda conseguiu que dois outros amigos fizessem isso. Ele também telefonou para o Cônsul Norte-americano no Recife, lá na rua as Soledade, para ajudar Toninho com o projeto para uma bolsa de ensino médio. Tudo a pedido do meu irmão. Mas eu não achava que daria certo e também tinha minhas ressalvas sobre se eles realmente haviam telefonado e escrito a carta de recomendação ou foi apenas um jeito de acalmar Toninho.
Eu reprimi esse pensamento. Seu Carlos e Dona Beatriz eram boas pessoas. Se eles disseram que fizeram, é por que fizeram. O filho deles, Arthur, era bem legal também e quando os pais se aposentaram e construíram um pequeno hotel, ele ficou nos Estados Unidos, mas com o passar dos anos ajudou financeiramente para que o hotel se transformasse em um belo resort em Porto. Ele sempre vinha passar alguns dias no ano e era uma bagunça que ele aprontava com sua turma de amigos gringos.
Voltei minha atenção para o meu trabalho de tradução. Era sempre uma boa grana. Ultimamente eu havia conseguido, através do F******k, me inserir em um grupo de romances e várias autoras haviam me procurado para traduzir os livros delas para o inglês, para que elas pudessem publicar na A****n Internacional e alcançar novos públicos. Eu também consegui, através de uma editora, traduzir alguns livros do inglês para o português. Eu não estava tentando ser otimista com Toninho ao dizer que entraria um bom dinheiro agora. Finalmente a casa tinha sido reformada e não precisaria que eu investisse nada mais, com exceção de um guarda-roupa novo pra mim e alguns móveis que estavam pela misericórdia divina. Mas isso podia esperar...







