Capítulo 5

 Diagnóstico: Você É um Problema

(POV Mari)

🌸 🌸 🌸

A primeira sessão de trabalho foi marcada pra terça, dez horas da manhã, sala três.

Eu cheguei às nove e cinquenta com o notebook, o kit de avaliação comportamental que uso em todo cliente novo e uma lista de perguntas que levei dois dias pra montar. Não é exagero — é metodologia. Quanto melhor o diagnóstico inicial, mais rápido o processo. Quanto mais rápido o processo, mais limpo o resultado.

Sessenta dias não perdoa diagnóstico preguiçoso.

Gabriel chegou às dez em ponto. Café na mão, como sempre. Sentou na cadeira de frente, abriu o notebook, olhou pra mim com aquela expressão de repouso ativo que eu ainda estava aprendendo a ler direito.

— Pode começar.

Comecei.

A avaliação tem três partes. Primeira: comunicação direta — como a pessoa responde quando a pergunta é simples e a resposta deveria ser rápida. Segunda: reação sob pressão — como a pessoa se comporta quando a pergunta não tem resposta certa. Terceira: presença — o que o corpo faz enquanto a pessoa fala, porque o corpo não mente nem quando a voz está treinada.

Gabriel Serrão respondeu a primeira parte em monossílabos.

Não porque não sabia. Porque escolheu.

Como você descreveria seu estilo de liderança? Direto.

O que o conselho espera de você nesse processo de transição? Resultado.

Como você lida com discordância dentro do time? Depende.

Eu anotei tudo, inclusive o ritmo. Três palavras, no máximo. Sempre suficiente pra responder tecnicamente, nunca suficiente pra revelar nada. Era uma performance — não de arrogância, de controle. Tinha diferença, e essa diferença importava.

Na segunda parte, as perguntas ficaram mais abertas.

Se o conselho votar contra o plano que você apresentar, o que você faz?

Ele ficou me olhando por alguns segundos. Depois:

— Apresento de novo com dados melhores.

— E se votarem contra de novo?

— Mudo a composição do conselho.

Primeira resposta longa em quarenta minutos. Eu escrevi sem levantar o olhar do bloco.

Se você pudesse assumir a empresa sem precisar passar por esse processo de transição, você assumiria?

Dessa vez demorou mais.

— Não.

— Por quê?

— Porque processo mal feito cria problema que você resolve por anos.

Ele disse isso com aquela voz seca e econômica, mas havia alguma coisa embaixo — não emoção exatamente, mais convicção. O tipo que vem de experiência, não de teoria.

Anotei: sabe o que quer, resiste ao caminho. Não é preguiça. É controle mal direcionado.

Na terceira parte eu pedi pra ele me vender o Grupo Serrão. Não pra mim — pro acionista mais difícil, aquele que está em cima do muro há seis meses e pode ir pro lado do Vinícius se não se sentir convencido.

Ele ficou me olhando.

— Agora?

— Agora.

Respirou. Colocou o café na mesa. Ficou em pé.

E aí ele falou.

Dois minutos e meio, sem parar. Números, posicionamento, perspectiva de crescimento nos próximos três anos, o que a concorrência estava perdendo que o Grupo Serrão podia capturar. Claro, direto, sem enfeite. A voz mudou — não ficou mais alta, ficou mais firme, aquele tipo de firmeza que não precisa de volume pra ocupar o espaço.

Quando terminou, ficou em pé me olhando.

Eu fechei o bloco.

— Você não quer ser CEO.

Ele não respondeu.

— Mas precisa que o conselho acredite que quer. — Abri o notebook. — O problema é que você é inteligente demais pra fingir e disciplinado demais pra deixar aparecer o que sente. Então o que a câmera capta é ausência. E ausência, num CEO em transição, vira dúvida. E dúvida vira voto no Vinícius.

Ele ficou me olhando por um tempo que foi longo o suficiente pra eu sentir o peso.

— Isso é o diagnóstico?

— É o começo. — Girei o notebook pra ele ver a tela. — Você tem presença natural, comunicação técnica excelente e leitura de ambiente acima da média. O que falta não é capacidade. É intenção visível. As pessoas precisam sentir que você quer estar lá.

— Eu estou lá.

— Você está presente. É diferente de querer.

Ele se levantou devagar, foi até a janela. São Paulo lá embaixo, meio da manhã, aquele barulho constante de cidade que não para nem quando você precisa pensar. Ficou de costas pra mim por uns trinta segundos.

Eu não preenchi o espaço. Aprendi cedo que silêncio de cliente pensando é diferente de silêncio de cliente resistindo. Esse era o segundo tipo, e o segundo tipo precisa de tempo.

Quando ele virou:

— Eu sei o que estou fazendo. — A voz estava igual, seca, controlada. — O que eu não entendo é por que você acha que sabe mais do que eu sobre a minha própria empresa.

Olhei pra ele.

— Não sei mais sobre a sua empresa. — Fechei o notebook com calma. — Sei mais sobre como o mundo de fora lê você. E é isso que você me contratou pra corrigir.

Ele ficou me olhando.

Não concordou. Não discordou.

Pegou o café, que já devia estar frio, e bebeu assim mesmo.

— Próxima sessão quando?

— Quinta. Mesma hora.

— Tudo bem.

Saiu sem mais nada.

Eu fiquei na sala por uns dois minutos depois que ele foi embora, olhando pro bloco cheio de anotações e pensando que Gabriel Serrão era exatamente o tipo de cliente que a maioria dos consultores desiste no terceiro dia.

A diferença é que eu não desisto de cliente nenhum.

E esse, especificamente, eu não podia me dar ao luxo de perder.

🌸 🌸 🌸

🔗 Quinta-feira. Ela chegou às dez em ponto. A sala três estava fechada. Raquel no corredor: "Ele remarcou. Reunião de emergência com o conselho — Vinícius apresentou uma proposta paralela de transição essa manhã, sem avisar ninguém." Mari ficou olhando pra porta fechada. O prazo de sessenta dias tinha começado a correr. E o Vinícius já estava na frente.

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