Mundo de ficçãoIniciar sessão
Trabalho dos Sonhos, Chefe dos Pesadelos
(POV Mari)🌸 🌸 🌸
Tati entrou na sala com dois cafés e aquela cara de quem tem uma informação ruim e não vê a hora de soltar. Eu conheço essa cara. Três anos de sociedade. Ela acha que disfarça. Não disfarça. — O filho voltou de Lisboa. — Ela colocou o café na minha frente e sentou na ponta da mesa, como quem vai assistir a um acidente ao vivo. — Meu contato no Valor disse que o conselho tá em pânico. Eu tava com a proposta do Grupo Serrão aberta no notebook. Quarenta e dois slides. Três semanas de pesquisa. O maior pitch que a Salave'a & Costa já montou. — Gabriel Serrão voltou — repeti, mais pra mim mesma. — Gabriel Serrão voltou. — Ela confirmou com aquele tom de quem anuncia furacão. — E aparentemente não tá nem aí pra empresa. Ótimo. Uma holding com 700 funcionários, processo de transição travado e um CEO relutante que passa reto pelo próprio cargo como se fosse um desvio de rota. Exatamente o cliente que eu precisava. Mas o Grupo Serrão valia o case da minha vida. Valia dobrar o portfólio da boutique inteira. Valia até o cliente mais difícil do mundo. — Ele vai aparecer na videoconferência? — O contato não sabe. — Ela deu um gole no café. — Mas disse que quem não quer o cargo costuma ser o que mais aparece quando a empresa tá pegando fogo. Anotei mentalmente: não prometer nada que dependa do comprometimento dele. Primeira regra quando o cliente tem mais ego do que agenda.🌸 🌸 🌸
A conferência tava marcada pra 15h. Às 14h45 eu já tava com o notebook aberto, proposta carregada, bloco de anotações do lado e o segundo café do dia esfriando na mesa. Tati se instalou na cadeira ao meu lado com o notebook dela, porque nas palavras dela: preciso ver ao vivo se for um desastre. Às 15h02 a chamada conectou. Raquel Figueiredo. A assessora executiva que eu já tinha pesquisado — três anos no Grupo Serrão, leal ao Gabriel, não à empresa. Apareceu na câmera com aquela eficiência de quem gerencia situação que ninguém pediu pra ela gerenciar. — Boa tarde. — Voz direta, sem floreio. — O Sr. Serrão está a caminho. — Sem problema. — Sorri. Não era bem sem problema. Mas ela não precisava saber disso. Ouvi uma porta ao fundo. E então Gabriel Serrão apareceu na câmera. Camisa social branca aberta no segundo botão. Cabelo escuro levemente bagunçado, não de descuido, mais de quem tava pensando em outra coisa e se esqueceu do cabelo. Café na mão — não o café de reunião, aquele café de papel higienizado. O café de quem tava fazendo alguma coisa antes e trouxe junto porque ia precisar. Olhou pra câmera com a expressão específica de quem está presente no corpo e ausente na decisão de estar ali. Tati abriu o chat interno e digitou: ai meu deus do céu. Ignorei. — Mariana Salave'a, Salave'a & Costa Comunicação Estratégica. — Direto, sem reverência. — Agradeço o espaço. Ele olhou pro notebook. Relendo a proposta, provavelmente. O arquivo tinha chegado na véspera, com aviso de leitura — ele tinha aberto às 23h14. — Vi a proposta. — A voz era seca. Não fria, só econômica, como de quem mede cada palavra antes de gastar. — Tem metodologia sólida.Tem metodologia sólida. Não impressionante, não exatamente o que precisávamos. Tem. Metodologia. Sólida. Como se tivesse me dado seis e achado que estava sendo generoso. — Obrigada. - Mantive o tom neutro-. — Se quiser, posso conduzir pelo processo de diagnóstico. A primeira fase— — O conselho mandou esse material? Ele ergueu a cabeça da tela e me olhou direto pela câmera. Um segundo. Dois. Ninguém preencheu. — A proposta foi encaminhada pela equipe de transição, sim. — Qual membro assinou a aprovação? Abri o e-mail na outra aba. Nome, cargo, assinatura digital. Mandei o print pelo chat da conferência sem tirar o olho dele. Ele leu. Voltou pra mim. Alguma coisa passou pela expressão dele que eu não consegui nomear naquele segundo — não era surpresa. Era reconhecimento. Como se a informação confirmasse exatamente o que ele já suspeitava. — Tudo bem. — Fechou o notebook pela metade. — Pode continuar.Pode continuar. Na escala de entusiasmo de cliente, fica tecnicamente acima de prefiro não. Não muito. Mas acima. Conduzi o pitch todo. Gabriel não interrompeu, não fez anotação visível, não mudou a expressão em nenhum momento. Mas fez uma pergunta sobre a metodologia de mensuração de presença de liderança — boa pergunta, o tipo que só aparece quando a pessoa tava realmente ouvindo, mesmo sem parecer. Quando terminei: — Alguma dúvida? Ele olhou pro relógio. Depois pra câmera. — Não por enquanto. Raquel apareceu no canto da câmera, discreta, com aquela energia de a reunião está oficialmente encerrada. — Ótimo. Fico à disposição para— A chamada caiu. Sem aviso. Sem encerramento. Sem obrigada pelo seu tempo. A chamada simplesmente. Caiu. Fiquei olhando pra tela preta por uns três segundos. Tati, ao meu lado: — Ele desligou. Sem avisar. — Percebi. — Você ainda quer esse cliente. Não era pergunta. Fechei o notebook. — O Grupo Serrão dobra meu portfólio em dezoito meses. Eu ainda quero esse cliente. O telefone na mesa vibrou. Número não salvo. — Salave'a & Costa, Mariana Salave'a. — Aqui é Raquel, assessora do Sr. Serrão. — Mesma eficiência de antes, um grau mais sério. — Ele quer uma reunião presencial. — Quando? — Amanhã. Sete horas da manhã. Olhei pro relógio. 16h08. Menos de quinze horas. — No escritório do Grupo Serrão? — Isso. Tati tava me olhando com aquela cara de novo. — Confirmado. — Desliguei. Olhei pra ela. — Sete horas. Ela pegou o café. — Eu disse que ia ser um desastre. — Ainda não é. — Mariana. Ele desligou sem se despedir. — Ele me deu reunião presencial com menos de quinze horas de antecedência. — Fechei o bloco de notas. — Isso significa que leu a proposta de verdade. Sete horas é hora de dormir, não de trabalhar. Mas vou estar lá às seis e cinquenta. Ela ficou me olhando por um tempão. — Você vai me matar de ansiedade. — Não vou. — Peguei o café. — Vou te mandar áudio no caminho. 🌸 🌸 🌸 🔗 Amanhã. Sete horas. O que ela ainda não sabia: o maior problema não era o CEO relutante. Era quem tinha pagado pra ela chegar até ele.






