Mundo de ficçãoIniciar sessãoReunião às 22h É Péssima Ideia
(POV Mari) 🌸 🌸 🌸 Quinta-feira não aconteceu. Vinícius tinha apresentado uma proposta paralela de transição pro conselho na mesma manhã em que eu estava esperando na sala três. Sem avisar Gabriel. Sem avisar ninguém. Simplesmente apareceu com quarenta slides e seis anos de histórico financeiro na mão e ocupou o espaço como se sempre fosse dele. Gabriel remarcou pra sexta. Depois sexta virou segunda. Segunda virou quarta. Na quarta, às seis da tarde, Raquel me mandou mensagem: reunião confirmada, mas ele só termina a agenda às 20h. Pode ser 20h30 na sala três? Eu podia. Deveria ter dito que não podia. 🌸 🌸 🌸 Cheguei às 20h25 com o notebook, o material da sessão remarcada três vezes e um café que eu sabia que ia esfriar antes de terminar porque reunião depois das oito nunca tem o ritmo que deveria ter. A sala três estava com a luz acesa mas vazia. Raquel tinha ido embora — o andar inteiro tinha esvaziado, aquele silêncio específico de escritório depois do expediente onde o ar-condicionado fica mais alto do que precisa e as luzes do corredor ficam pela metade. Instalei o notebook, abri o material, esperei. Gabriel chegou às 20h52. Sem café dessa vez. Paletó no braço, não no corpo — tinha tirado em algum momento do dia e não tinha botado de volta. Camisa ainda bem passada mas com aquela leveza de fim de dia, o segundo botão aberto como sempre, os dois primeiros agora. Passou a mão no cabelo antes de entrar, não de vaidade, de alguém que estava com a cabeça em outro lugar e o gesto saiu automático. — Atrasado. — Percebi. — Girei o notebook pra ele. — Vinte e dois minutos. Ainda compensa começar? — Compensa. — Jogou o paletó na cadeira ao lado e sentou na frente. — O que tem pra hoje? — Comunicação não verbal. Como você entra numa sala, como você ocupa espaço antes de falar, o que a postura diz antes da primeira palavra. — Abri o arquivo. — Especialmente em reunião de conselho, onde metade da decisão acontece antes de você abrir a boca. Ele me olhou com aquela expressão que eu já sabia que significava continua, estou ouvindo, mas não vou confirmar isso com nenhum sinal visível. Continuei. Trabalhamos por quarenta minutos. Gabriel era difícil nesse ponto específico — não porque tinha postura ruim, tinha ótima, mas porque a postura dele comunicava distância. Competente e distante. O conselho lia como frieza. Frieza, em CEO de empresa familiar com 700 funcionários, virava questão de cultura. Eu expliquei isso três vezes de três jeitos diferentes. Na terceira vez, ele inclinou levemente o corpo pra frente, cotovelos na mesa, e ficou me olhando. — Você quer que eu pareça acessível. — Quero que você seja acessível. Tem diferença. — Pra um conselho de nove pessoas que avalia resultado financeiro, não tem diferença nenhuma. — Tem. Porque resultado financeiro sustenta aprovação por dois trimestres. Confiança sustenta por dez anos. — Fechei o arquivo. — Você sabe disso. Por isso construiu fundo próprio em Lisboa em vez de entrar em fundo de terceiro. Você sabe que relação importa mais do que número no longo prazo. Ele ficou em silêncio. Não era o silêncio de quem está discordando. Era o de quem acabou de ouvir o próprio argumento virado contra ele e ainda está decidindo o que fazer com isso. Às 22h, o notebook dele vibrou. Ele olhou, digitou alguma coisa rápido, fechou. — Mais alguma coisa pra hoje? — Não. — Comecei a guardar o material. — Quinta que vem, se não tiver mais proposta paralela do seu irmão pra cancelar. O canto da boca dele se moveu. — Não vai ter. — Você tem certeza ou você quer ter certeza? — As duas coisas. Fechei o notebook e me levantei. Ele se levantou junto — não por protocolo, mais pelo mesmo impulso de encerrar. Fomos em direção à porta ao mesmo tempo e chegamos nela ao mesmo tempo, e o corredor do outro lado estava com metade das luzes apagadas e aquela frieza de prédio corporativo vazio que faz tudo parecer mais próximo do que é. Ele segurou a porta. Eu passei. No corredor, o barulho da cidade chegava abafado lá de baixo — São Paulo de quase meia-noite, que não é silêncio, é outro tipo de barulho, mais distante, mais constante. — Precisa de carona? — Ele perguntou sem olhar pra mim, os olhos no telefone. — Tenho carro. — Tá bem. Andamos juntos até o elevador porque era o mesmo caminho. Ele apertou o botão, eu fiquei do lado. As portas abriram. Entramos. Elevador de espelho. Quarenta andares. Eu olhei pro notebook na minha mão. Ele olhou pro telefone. O espelho do lado mostrava os dois de um jeito que nenhum dos dois estava olhando diretamente — ele mais alto por uns vinte centímetros, a camisa com aquela leveza de fim de dia, eu com o notebook abraçado no peito como se fosse escudo, o que era exatamente o que era. No décimo andar, o telefone dele vibrou de novo. Ele leu, fechou, colocou no bolso. No quinto, eu olhei pro espelho sem querer. Ele estava me olhando. Não virei. Ele não desviou. Foram dois andares inteiros assim, aquele tipo de coisa que não tem nome mas tem peso, e então as portas abriram no térreo e a cidade entrou de uma vez — ar frio de agosto paulistano, cheiro de asfalto molhado de chuva de fim de tarde, barulho de carro na rua. Ele saiu primeiro. Eu saí atrás. — Boa noite. — Disse ele, sem virar. — Boa noite. Fui pro estacionamento sem olhar pra trás. Entrei no carro, botei o cinto, fiquei trinta segundos com a mão na chave sem ligar o motor.Ele estava me olhando. Liguei o carro. Não era algo relevante. 🌸 🌸 🌸 🔗Na manhã seguinte, Raquel mandou mensagem: "Ele quer adiantar a sessão de quinta. Pode ser amanhã, oito da manhã?" Mari olhou pro telefone. Amanhã era sábado. Ela respondeu que sim antes de terminar de pensar.






