Mundo de ficçãoIniciar sessãoDona Conceição Não Faz Nada por Acidente
(POV Mari) 🌸 🌸 🌸 O contrato estava assinado. Sessenta dias. Marco quinzenal. Cláusula dezoito fora. E a cláusula vinte e um que eu ainda não sabia bem o que fazer — aquela que ele tinha adicionado à mão, prendendo os dois por pelo menos trinta dias sem saída fácil. Tati ficou olhando pro papel por um tempo. — Ele adicionou uma cláusula. — Eu vi. — À mão. — Também vi. — Mariana. — Ela levantou o olhar. — Homem que adiciona cláusula à mão em contrato de consultoria não tá só fechando negócio. — Tati. — Tô falando sério. — Ele tá protegendo o processo. Se eu puder sair em quinze dias sem justificativa, o trabalho não tem consistência. Faz sentido do ponto de vista corporativo. Ela ficou me olhando com aquela cara de você acredita no que tá falando? Eu acreditava. Setenta por cento. — Segunda-feira, oito horas. — Fechei o contrato. — Preciso montar o diagnóstico inicial até lá. 🌸 🌸 🌸 Sexta à noite eu tava no escritório com três monitores abertos, relatório do Grupo Serrão de um lado, perfil público de Gabriel do outro, e uma planilha no meio onde eu jogava tudo que não batia. Oito anos fora. Lisboa, depois Paris. Fundo de private equity próprio, capitalizado, deixou com gestores antes de voltar. Voltou depois que o pai morreu. Não antes, não durante o processo de adoecimento — depois. Isso me dizia alguma coisa sobre ele que eu ainda não sabia nomear. O telefone tocou. Número salvo como Grupo Serrão — Recursos Humanos, que era como eu tinha registrado quando Raquel me ligou na véspera. Atendi. — Mariana Salave'a. — Mariana, querida! — A voz era diferente. Não era Raquel. Era mais quente, mais rápida, com aquele sotaque de italiano de segunda geração que SP guarda em alguns bairros. — Aqui é Conceição. Conceição Serrão. Eu pausei por exatamente um segundo. A mãe. — Dona Conceição. — Mantive o tom profissional enquanto meu cérebro corria em paralelo. Como ela tinha esse número? Eu tinha passado o contato só pra Raquel. — Boa noite. — Boa noite, sim! Desculpa ligar tarde, mas é que eu fico ansiosa, você sabe como é. — Ela falava com aquela energia de quem tem muita coisa pra dizer e pouco interesse em pausa. — Queria só saber se o contrato foi bem. Se meu filho não complicou demais. — O processo correu bem, sim. Assinamos hoje. — Ótimo! Eu sabia que você dava conta. Quando vi seu histórico, falei pra mim mesma: essa moça sabe o que faz. — Obrigada. — Pausa cuidadosa. — Dona Conceição, eu preciso ser direta com a senhora. — Pode ser. — Quando o Gabriel soube que a proposta tinha sido aprovada pelo conselho, ele perguntou qual membro tinha assinado. — Deixei a frase no ar por um segundo. — A senhora deve imaginar que isso vai aparecer em algum momento. Silêncio de dois segundos. Depois: — Imagino, sim. Só isso. Imagino, sim. Com a leveza de quem já tinha calculado esse risco e decidido que valia. — A senhora não ficou preocupada com isso? — Mariana, meu filho tem trinta e dois anos e ainda acha que resiste quando eu decido que algo vai acontecer. — A voz tinha humor, mas tinha aço embaixo. — Ele vai descobrir quem pagou. E quando descobrir, já vai estar no meio do processo e vai perceber que funciona. Aí fica mais fácil. Eu olhei pro teto por um segundo. Estrategista disfarçada de mãe preocupada. Eu tinha lido isso em algum perfil de liderança uma vez. Nunca tinha encontrado ao vivo. — A senhora sabe que quando ele descobrir, pode rescindir o contrato. — Pode. Mas não vai. — Por quê? — Porque você vai ser boa o suficiente pra ele não querer.... E porque coloquei a cláusula vinte e um. Eu baixei o telefone do ouvido. Olhei pra tela. Voltei pro telefone. — A cláusula vinte e um foi a senhora. — Eu sugeri pro jurídico. Gabriel assinou sem ler os adendos com atenção, como sempre. — Ela disse isso com a ternura específica de mãe que conhece o filho até nos defeitos. — Trinta dias mínimos. Tempo suficiente pra você mostrar o trabalho. Fiquei em silêncio por uns três segundos. — Dona Conceição. — Sim? — A senhora é assustadora. Ela riu. Gostoso, genuíno, daquele jeito que faz a pessoa do outro lado sorrir sem querer. — Meu marido dizia a mesma coisa. — A voz foi um grau mais baixa por um segundo, só um. — Cuida bem do meu filho, Mariana. Ele é mais difícil do que parece. E mais fácil do que quer deixar parecer. — Vou fazer meu trabalho, Dona Conceição. — Já sei que vai. Por isso te contratei.....Ah, e Mariana? — Sim? — Chama de Conceição. Dona me faz sentir velha, e eu não sou velha. Sou experiente. Tem diferença. Desliguei e fiquei olhando pro contrato em cima da mesa. A cláusula vinte e um não era dele. Era dela. Gabriel Serrão tinha assinado uma cláusula que prendia os dois sem saber que a própria mãe tinha colocado ali. E eu tinha passado o dia inteiro tentando entender a lógica dele quando a lógica era de outra pessoa completamente. Abri o bloco de notas e escrevi: Conceição Serrão — não subestimar. Nunca. Tati apareceu na porta da sala com o casaco na mão, pronta pra ir embora. — Acabou por hoje? — Acabou. — Fechei o notebook. — Tati, você sabia que mãe de CEO pode ser mais perigosa que o CEO? Ela pegou a bolsa. — Toda mãe italiana de São Paulo é perigosa, Mari. Isso não é novidade. 🌸 🌸 🌸 🔗 Segunda-feira. Oito horas. Ela entrou no trigésimo segundo andar com o diagnóstico pronto, a metodologia mapeada e a cabeça organizada. O que ela não esperava era encontrar Vinícius Serrão apoiado na mesa de Raquel, sorrindo pra ela como quem já sabia tudo sobre ela e estava decidindo o que fazer com essa informação.






