Capítulo 2

Sete Horas é Hora de Dormir, Não de Trabalhar

(POV Mari)

🌸 🌸 🌸

Eu cheguei às seis e cinquenta.

Óbvio.

O Grupo Serrão ficava na Faria Lima, num daqueles prédios de vidro que parecem ter sido construídos especificamente pra fazer as pessoas se sentirem menores do que são. Quarenta andares. Espelho do chão ao teto. O tipo de sede corporativa que grita *aqui manda quem pode* antes mesmo de você entrar.

Entrei.

A recepção era enorme, fria do jeito que ar-condicionado no máximo em agosto deixa, e silenciosa pra um horário que teoricamente ainda era de madrugada pra maioria das pessoas. Tinha duas recepcionistas atrás do balcão de mármore. A da esquerda olhou pra mim quando eu me aproximei.

— Bom dia. Mariana Salave'a, reunião com Gabriel Serrão às sete horas.

Ela consultou o sistema. Consultou de novo. Franziu levemente o rosto com aquela expressão de quem está com dúvida mas não quer parecer que está com dúvida.

— Salave'a? — Repetiu o sobrenome como se fosse um erro de digitação.

— Isso. — Mantive o sorriso. — S-A-L-A-V-E apóstrofo A.

— É... incomum.

— É polinésio. Pelo meu bisavô materno. — Olhei pra cara dela. — Mas se precisar, pode me chamar de Mari. Mais fácil.

Ela digitou alguma coisa, me entregou o crachá de visitante e apontou pros elevadores sem mais comentário. A da direita não tinha nem levantado o olhar.

Anotei tudo. Não pra mágoa. Pra dado.

🌸 🌸 🌸

Raquel me encontrou no trigésimo segundo andar com aquele passo de quem gerencia três coisas ao mesmo tempo e nenhuma delas é você.

— Mariana. — Aperto de mão firme, avaliação rápida de cima a baixo em menos de dois segundos, conclusão guardada. — Ele está chegando.

— Tudo bem.

— Café?

— Pode ser.

Ela me levou até uma sala de reunião com vista pra cidade. São Paulo às sete da manhã é uma coisa específica — aquela névoa cinza sobre os prédios, o sol ainda tentando aparecer, o trânsito já formado na Marginal lá embaixo como se a cidade nunca tivesse dormido. Eu gosto desse horário. Sempre gostei. É quando a cidade ainda não decidiu o que vai ser no dia, e eu já sei exatamente o que vou fazer.

Me instalei na cadeira de frente pra porta. Abri o notebook. Bloco do lado. Proposta carregada.

O café chegou. Bebi.

Às sete e dezoito, Gabriel Serrão entrou na sala.

Vinte minutos de atraso. Sem pedir desculpa. Café na mão de novo — esse diferente, de porcelana, da empresa. Camisa azul desta vez, mesmo esquema, segundo botão aberto, mangas já dobradas. Como se o escritório fosse um lugar onde ele se instalava em vez de um lugar onde ele trabalhava.

Não era grosseiro. Era pior.

Era indiferente.

Colocou o café na mesa, puxou a cadeira na minha frente e abriu o notebook com a mesma energia de quem está dando continuidade a uma conversa que nunca foi interrompida.

— Você leu o contrato que o conselho preparou.

Não era pergunta.

— Li.

— E?

Peguei o bloco, abri na primeira página. Tinha três linhas anotadas em vermelho.

— Cláusula sete limita minha autonomia de atuação a reuniões previamente aprovadas pelo conselho. Isso inviabiliza o trabalho. — Virei o bloco pra ele ver. — Cláusula doze define entrega por período de noventa dias, mas sem marco intermediário. Sem marco, não tem como medir progresso real. E a cláusula dezoito transfere propriedade intelectual da metodologia pra empresa ao final do contrato.

Ele olhou pro bloco. Leu.

— Isso é problema pra você.

— A dezoito é inegociável. O resto a gente resolve.

Gabriel ficou olhando pra minha anotação por uns segundos. Depois olhou pra mim com aquela expressão que eu já estava começando a catalogar — aquela de quem está processando informação sem deixar nada aparecer no rosto.

— Você veio com contraproposta.

— Vim com o que precisa mudar pra o trabalho funcionar. Se quiser chamar de contraproposta, pode.

O canto da boca dele se moveu. Quase nada. Mas eu vi.

— Manda pro meu jurídico hoje.

— Já mandei. Ontem à noite, vinte e duas horas.

Dessa vez ele não escondeu. Ergueu levemente a sobrancelha — não de surpresa, mais de alguém que acabou de atualizar uma avaliação.

— Você enviou pro jurídico antes da reunião.

— Eu não tenho o hábito de chegar em reunião sem ter feito o dever de casa.

— Vinte e duas horas.

— Não durmo cedo quando tem contrato pra ler.

Silêncio. Ele deu um gole no café sem tirar os olhos de mim.

— Tem mais alguma coisa que precisa mudar?

— Sim. — Abri o notebook na proposta revisada. — Sessenta dias no lugar de noventa. Noventa é tempo demais pra um processo que, se for bem conduzido, não precisa de mais de dois meses. E marco de avaliação a cada quinze dias — você me diz se o que estou entregando faz sentido, eu ajusto se precisar.

— Sessenta dias é pouco.

— Pra transformar imagem de liderança? Não é. — Me inclinei levemente pra frente. — Noventa dias me dá tempo de esconder problema. Sessenta me obriga a resolver.

Outro silêncio.

Lá fora, São Paulo tinha finalmente decidido o que ia ser — sol forte espalhando pela névoa, aquela luz de inverno paulistano que é bonita mas não aquece. Eu ouvia o barulho abafado do tráfego lá embaixo, quarenta andares abaixo, distante demais pra incomodar.

Gabriel fechou o notebook.

— Sessenta dias. Marco quinzenal. A cláusula dezoito sai. — Parou por um breve momento. — O conselho não vai gostar.

— O conselho não vai saber até assinar.

Ele me olhou por um segundo inteiro.

— Você é direta.

— Você me chamou pra reunião às sete da manhã com menos de quinze horas de antecedência. Não temos tempo pra rodeio.

Dessa vez ele não escondeu nada. Deu uma risada curta, seca, mais ar do que som. O tipo de risada de quem raramente ri e não tá acostumado com a sensação.

Durou dois segundos. Sumiu.

— Raquel vai te mandar o contrato revisado até o meio-dia. — Fechou o notebook e levantou. — Se estiver dentro do que pediu, a gente começa segunda.

Levantei junto, estendia a mão.

Ele apertou. Firme. Mão quente, aperto rápido, o tipo que não testa força mas tem ela.

Soltou antes de eu soltar.

— Segunda-feira, oito horas. — Já estava indo em direção à porta. — E não atrase.

— Nunca atrasei na vida.

Ele não respondeu. Saiu.

Fiquei na sala de reunião por uns dez segundos, olhando pra vista de São Paulo que ele tinha deixado pra trás como se fosse cenário comum.

Peguei o telefone e mandei áudio pra Tati.

— Fechou. Sessenta dias. Começa segunda. Ele é exatamente o que eu pensei que era.

Um silêcio antes de respoder.

— E isso é problema ou não é?

Desliguei o áudio antes de responder.

🌸 🌸 🌸

🔗 O contrato chegou às 11h47. Tudo dentro do que ela pediu. Na última linha, acima da assinatura de Gabriel, tinha uma anotação à mão: "Cláusula vinte e um adicionada: nenhuma das partes pode rescindir o contrato antes de trinta dias sem justificativa formal aprovada por ambos." Ela leu três vezes. Ele tinha adicionado uma cláusula que prendia os dois.

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