Capítulo 7

O Que o Vinícius Sabe

(POV Mari)

🌸 🌸 🌸

Sábado de manhã em São Paulo tem um barulho diferente.

Menos buzina, menos ônibus, mais padaria aberta na esquina com fila de gente de chinelo comprando pão. Eu gosto desse horário num dia que não deveria ser dia de trabalho. Tem uma honestidade nisso — a cidade admitindo que também precisa descansar, mesmo que não consiga de verdade.

Eu cheguei ao Grupo Serrão às 7h55 com dois cafés da padaria da esquina porque não ia aparecer num sábado de mãos vazidas.

Raquel não estava. Óbvio — era sábado. A recepção tinha um segurança diferente, mais novo, que me olhou com aquela cara de você tem certeza que é aqui? até eu mostrar o crachá de acesso que Raquel tinha providenciado na primeira semana.

Trigésimo segundo andar. Corredor vazio, metade das luzes no automático. A sala três estava fechada.

Andei até a sala de Gabriel.

A porta estava aberta.

Ele estava dentro, de pé na frente da janela, telefone no ouvido. Sem paletó, sem gravata — calça escura e camisa azul escura de manga longa com as mangas dobradas até o cotovelo, aquele jeito que parecia descuido mas era só ele sendo deliberado em ambiente que julgava seguro.

Me viu entrar. Levantou um dedo — um segundo.

Pousei os cafés na mesa e fui até a janela do outro lado da sala. São Paulo de sábado lá embaixo: a Faria Lima mais vazia que o normal, um ciclista na ciclovia, céu branco de inverno sem promessa de sol.

Ele desligou.

— Café. — Empurrei o copo na direção dele quando ele se aproximou da mesa.

Ele olhou pro copo, depois pra mim.

— Da padaria da esquina.

— É melhor que o daqui.

— É. — Pegou o café. Deu um gole antes de sentar. — Obrigado.

Obrigado. Três sílabas que ele tinha economizado em todas as reuniões anteriores. Anotei internamente e não deixei aparecer no rosto.

Abri o notebook. — Então. Hoje é posicionamento de fala em reunião formal. Você apresenta bem em ambiente controlado, mas o conselho não é ambiente controlado — tem interrupção, tem pergunta fora de ordem, tem membro que pergunta pra desestabilizar, não pra entender. Você precisa de recurso pra isso.

— Vinícius vai estar na reunião da semana que vem.

— Eu sei.

— Ele vai tentar me desestabilizar.

— Eu sei disso também. — Abri o arquivo da sessão. — Por isso hoje a gente trabalha exatamente esse ponto.

Trabalhamos por uma hora. Gabriel era melhor do que eu esperava nesse formato — quando sabia que estava sendo testado, blindava bem. O problema era que em reunião real ele não ia saber o momento exato, e aí a blindagem atrasava meio segundo, e esse meio segundo era o que Vinícius precisava pra plantar dúvida num conselheiro que estava em cima do muro.

Expliquei isso. Ele ouviu.

Na segunda metade da sessão, eu fiz o papel do Vinícius. Pergunta técnica com subtexto político, o tipo que parece questão de dado mas é questão de lealdade.

Gabriel respondeu três vezes errado — não errado no conteúdo, errado no tom. Defensivo. E defensivo, vindo de CEO em transição, lê como insegurança.

Na quarta tentativa, ele parou no meio da resposta.

Ficou me olhando.

— Você faz isso bem.

— Faço o quê?

— Imitar o jeito que ele pergunta. — Inclinou levemente a cabeça. — Você já analisou meu irmão mais do que deixa aparecer.

— É meu trabalho entender quem vai dificultar o processo.

— É. Mas você fez isso antes de eu te contar sobre ele.

Não era acusação. Era observação, entregue com aquela precisão cirúrgica dele que às vezes parecia leitura de mente e às vezes era só atenção acima da média.

— Faço diagnóstico de ambiente completo antes de começar qualquer projeto. — Fechei o arquivo por um segundo. — Vinícius tem seis anos de histórico aqui. Não é difícil mapear o padrão.

Ele ficou me olhando por um tempo.

— O que você encontrou?

— Que ele é competente. — Direto, sem enfeite. — Que as margens do braço de logística cresceram de forma consistente no período dele, mas tem dois trimestres com número que não fecha direito quando você olha junto com o volume de operação. Pode ser ajuste contábil. Pode ser outra coisa.

Gabriel não respondeu imediatamente. Pegou o café, que já estava morno, e ficou com ele na mão sem beber.

— Você encontrou isso sozinha.

— Encontrei nos relatórios públicos. Não é investigação, é leitura de dado disponível.

— E você me contando agora porque—

— Porque você precisa saber o que talvez ele não queira que você saiba. — Abri o notebook de volta. — Não é pra te armar contra ele. É pra você não ser surpreendido.

Ele ficou em silêncio por um tempo que foi mais longo que os outros. Lá fora, um helicóptero passou longe o suficiente pra ser só barulho de fundo, e São Paulo continuou sendo São Paulo do lado de fora da janela, indiferente como sempre.

— Você ia me contar isso de qualquer forma? — Ele perguntou por fim. — Ou só porque eu perguntei?

Boa pergunta. A resposta honesta era que eu ainda estava decidindo o momento certo. Mas momento certo em projeto com prazo de sessenta dias é luxo que você nem sempre tem.

— Ia contar quando tivesse mais do que suspeita. — Não desviei o olhar. — Mas você perguntou antes.

Ele assimilou isso.

— Continua olhando.

— Já estava continuando.

O canto da boca dele se moveu. Aquela coisa que não era exatamente sorriso mas era a versão mais próxima que ele permitia em horário comercial.

Voltamos pra sessão. Ele foi melhor na segunda metade — mais solto, menos blindado, com aquela firmeza natural que aparecia quando ele esquecia que estava sendo avaliado. Era exatamente isso que o conselho precisava ver.

No final, quando eu estava fechando o notebook, ele falou sem preâmbulo:

— Meu irmão pediu o histórico de clientes da sua boutique pro jurídico.

Eu parei.

— Raquel te contou.

— Raquel me conta tudo que eu preciso saber.

Fiquei olhando pra ele por um segundo.

— Por que você tá me avisando?

— Pelo mesmo motivo que você me avisou sobre os números. — Levantou com o copo vazio na mão. — Você precisa saber o que ele talvez não queira que você saiba.

Usou exatamente as minhas palavras. Na mesma ordem.

Saiu pra jogar o copo no lixo no corredor e eu fiquei na sala de reunião de um prédio vazio num sábado de manhã, olhando pro notebook fechado e pensando que Gabriel Serrão prestava muito mais atenção do que deixava qualquer pessoa perceber.

E isso, de longe, era o dado mais importante que eu tinha coletado até agora.

🌸 🌸 🌸

🔗 Na segunda-feira, às 8h, Raquel estava esperando Mari na recepção com aquela expressão de quem tem informação ruim e precisa entregar logo. "O Vinícius pediu uma reunião com dois membros do conselho pra essa semana. Sem pauta oficial." Mari colocou o café em cima do balcão. "Quando?" "Amanhã." "E o Gabriel sabe?" Raquel não respondeu de imediato. Isso era resposta suficiente.

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