A manhã seguinte amanheceu preguiçosa, como se a cidade ainda estivesse se recuperando do espetáculo da noite anterior. O sol entrava pelas frestas da cortina do hotel, desenhando linhas douradas no chão. Isabella foi a primeira a acordar. Ficou alguns minutos observando Clara dormir, espalhada na cama, abraçada ao cavalinho de pano, respirando com aquela tranquilidade que só as crianças conhecem.
Rafael dormia ao lado, o rosto cansado, mas sereno — a paz rara de quem tinha dado tudo de si no palco e voltado inteiro.
Isabella levantou devagar e foi até a varanda. Lá fora, a cidade ainda parecia baixa, quase humilde diante do céu amplo. Pensou em como a vida deles havia se esticado sem perder as raízes. Pensou na fazenda, na árvore do chapéu, em Dona Lourdes e Tonico. Pensou em como, mesmo ali, cercada de prédios e promessas, o silêncio ainda sabia encontrá-la. O barulho suave da porta a fez se virar. Rafael estava acordado, encostado no batente, camisa aberta, olhos ainda meio perdido