Clara abriu o diário com cuidado, como se o papel pudesse se assustar com movimentos bruscos. A capa azul já não era nova; havia marcas de dedos, uma dobra antiga no canto, um adesivo desbotado que ela colara anos atrás sem saber por quê. Sentou-se na cama, cruzou as pernas e respirou fundo antes de escrever. Não porque faltassem palavras — mas porque havia muitas.
“Hoje eu senti vontade de lembrar.”
Escreveu devagar, a letra um pouco torta no começo, como sempre ficava quando algo dentro dela se mexia. A casa estava silenciosa naquela tarde. A mãe organizava papéis na sala, o pai falava baixo ao telefone no escritório. Clara gostava daquele silêncio — não o de ausência, mas o de pertencimento. Ainda assim, havia um ruído dentro dela, feito vento antes da chuva.
“Minha infância não foi barulhenta. Foi espaçosa.”
Sorriu sozinha.
Lembrou-se da fazenda como quem lembra de um cheiro. Não vinha inteira, não vinha em imagens perfeitas — vinha em sensações. O chão frio pela manhã, o sol esqu