Mundo de ficçãoIniciar sessãoLyria não queria andar. Mas os guardas não esperaram sua decisão.
Dois deles surgiram ao lado, posicionando-se atrás dela e Kael. As lanças de luz vibravam num tom baixo e constante, como se pudessem atravessar carne e osso com um toque.
— Não encosta nela — Kael avisou, rápido.
Os guardas pararam.
A mulher do conselho ergueu uma sobrancelha.
— Está protegendo cedo demais, guardião.
Kael respondeu sem desviar o olhar:
— Se encostarem nela antes da hora, o medalhão reage. E não creio que o conselho vai querer limpar o salão depois.
A mulher sorriu de canto.
— Então vamos evitar tragédias antes do jantar.
Ela fez um gesto com a mão.
Os guardas se afastaram — mas ficaram perto o suficiente para impedir qualquer fuga.
Lyria respirou fundo.
Kael caminhou à frente, guiando o grupo.
O corredor que levava à câmara era estreito e mais frio que o resto da fortaleza. Símbolos antigos cobriam as paredes, queimados na pedra como cicatrizes. Alguns brilhavam levemente ao reconhecer o medalhão.
— Isso aqui… reage a mim? — Lyria perguntou, sem tirar os olhos das marcas.
Kael respondeu sem virar a cabeça:
— Reage ao seu sangue. Ao que você carrega.
— E o que, exatamente, eu carrego? — ela insistiu.
— Um poder que nem você entende ainda — a mulher cortou, atrás.
Lyria apertou o punho.
— Vocês falam como se eu fosse uma arma.
— Não se engane — disse o homem à esquerda. — Você é.
O chão tremeu suavemente, como se respondesse a isso.
Eles pararam diante de uma porta redonda, sem maçaneta, coberta de runas prateadas.
Kael encostou o pulso marcado no centro.
A porta reconheceu o símbolo e girou, abrindo-se para dentro com um estalo profundo.
O ar quente saiu de dentro como um sopro vivo.
A câmara era circular, iluminada por pilares de luz que subiam do chão ao teto. No centro, havia uma plataforma baixa com três degraus. Ao redor dela, símbolos desenhados com precisão.
Parecia um altar.
Lyria sentiu o estômago revirar.
— Sobe — ordenou a mulher.
— E se eu não quiser? — Lyria perguntou, a voz tremendo.
— Aí testaremos o poder do guardião antes do seu — respondeu o homem.
Lyria olhou para Kael.
Ele não podia defendê-la ali.
Lyria subiu os três degraus lentamente. O medalhão vibrava como se estivesse vivo.
Kael ficou na beirada da plataforma, tenso.
A mulher se aproximou do símbolo maior gravado no chão. Tocou com a ponta dos dedos e a runa se acendeu.
— Este teste tem três partes — ela explicou, sem emoção.
Lyria trincou os dentes.
— E se eu falhar?
— Vamos descobrir o que precisa ser feito — a mulher respondeu. — E se o guardião tem coragem de cumprir seu juramento.
Kael ficou imóvel.
A mulher continuou:
— Primeiro teste: Resistência.
Ela ergueu a mão.
O chão sob Lyria acendeu — não em luz, mas em calor.
A plataforma inteira ficou tão quente que Lyria sentiu a sola dos pés arder.
— O que—?! — Ela deu um passo para trás.
O calor aumentou.
Ela tentou pular, mas uma força a manteve no centro do círculo.
— Você é louca?! — ela gritou. — Vai me queimar viva?!
— Se queimar, não é herdeira — a mulher disse, simples.
O calor subiu pelas pernas, pelo peito, pelo rosto.
— Kael! — ela gritou.
Kael avançou um passo.
Dois guardas cruzaram as lanças à frente dele.
— Não interfere — disse o homem. — Ou perde sua marca.
Kael ficou preso entre a raiva e a ordem.
Lyria sentiu o calor rasgar sua pele.
O medalhão começou a pulsar freneticamente.
— Aguenta — Kael disse, firme, mesmo de longe. — Respira. Não luta contra o poder. Deixa ele reagir.
— O quê?! — ela tossiu. — Eu não sei reagir a nada!
— Você sabe — Kael respondeu. — Só nunca precisou.
A visão de Lyria começou a borrar.
O medalhão brilhou tão forte que cegou por um segundo.
A mulher observava sem qualquer emoção.
— Resistência baixa — murmurou. — Talvez instável.
— CALE A BOCA! — Lyria gritou.
E naquele grito — saiu luz.
Não luz suave.
O calor desapareceu na mesma hora.
Os guardas deram um passo para trás.
A mulher inclinou a cabeça.
— Interessante.
Kael exalou, como se estivesse segurando o ar há minutos.
Lyria ficou de pé, ofegante, suando, mas viva.
— Isso foi só o primeiro — a mulher disse. — Agora, o segundo.
Lyria gritou:
— NÃO! Não começa outro teste sem me explicar nada! Eu mereço saber o que vocês querem de mim! Eu não sou um bicho! Eu—
A runa acendeu sozinha.
Kael murmurou:
— Merda…
A mulher sorriu.
— Teste dois: Estabilidade.
Chão e teto se conectaram por colunas de luz, que se moveram como lâminas.
Ela se abaixou, desviou, pulou para trás.
— Se perder o equilíbrio, a luz atravessa — avisou o homem. — E se atravessar… não sobra corpo.
— VOCÊS SÃO LOUCOS — ela gritou.
Kael quase avançou. O guarda à frente levantou a lança.
— Guarda — disse a mulher — se ela cair, você age.
Kael olhou para Lyria.
As luzes desciam mais rápido.
Lyria escorregou.
— Lyria! — Kael gritou. — O medalhão! SEGURA ELE!
Ela segurou.
A luz mais alta travou no ar.
Depois, outra.
A câmara congelou num silêncio absoluto.
A mulher fechou a mão, irritada.
— Chega. Teste dois concluído.
Kael expirou, aliviado.
Lyria mal conseguia respirar.
— E agora? — ela arfou. — O que falta? Mais tortura?
A mulher sorriu sem humor.
— Falta o mais importante. O teste da Verdade.
Lyria não gostou do som disso.
Nem Kael.
O olhar dele endureceu.
— Não façam isso com ela. Ainda não.
A mulher rebateu:
— Então você cumpre seu juramento no lugar dela?
Kael ficou em silêncio.
O coração de Lyria gelou.
— O que é esse teste? — ela perguntou, a voz baixa.
A mulher respondeu:
— No teste da Verdade…
O chão tremeu.
A luz do medalhão explodiu.
Kael deu um passo em direção a ela.
— Lyria… se prepare.
— Pra quê?! — ela gritou.
Ele respondeu com a voz mais baixa que já usou:
— Pra ver o que você realmente é.
O salão inteiro apagou.
E a câmara mergulhou na escuridão total.
O teste final havia começado.







