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CAPÍTULO 5 — ONDE ELA NÃO ERA BEM-VINDA

O primeiro choque foi o ar.

Ele entrou nos pulmões de Lyria pesado, denso, quase quente. Ela tropeçou ao sair do arco, como se a gravidade ali fosse diferente. Kael segurou seu braço antes que ela caísse.

— Não para — ele disse. — Eles sentem quando o portal é usado.

Ela piscou, tentando acostumar os olhos à luz.

O céu era escuro, mas não como noite. Era um cinza sujo, sem estrelas, cortado por rachaduras finas de brilho prateado. Torres de pedra negra subiam ao redor, conectadas por pontes suspensas. No horizonte, muralhas gigantes cercavam tudo, como se a cidade fosse uma prisão ou uma fortaleza.

Lyria engoliu seco.

— Isso… é o seu mundo?

Kael respondeu sem parar de andar:

— Uma parte dele. A parte que ainda aguenta ficar de pé.

Eles estavam num pátio de pedra, cercado por muros altos. Símbolos prateados marcavam o chão — círculos, linhas, marcas que ela não reconhecia, mas sentia como se vibrassem sob seus pés.

Um grito soou vindo de uma torre próxima:

— Portal menor ativado! Quem autorizou?!

Lyria congelou.

Kael puxou-a com mais força.

— Baixa a cabeça. Não fala nada.

Ela obedeceu, por puro instinto.

Dois soldados surgiram no alto da escadaria. Armaduras escuras, capas longas, lanças de luz. Desceram rápido, as expressões duras.

— Kael! — o primeiro gritou. — Você enlouqueceu? O conselho proibiu uso de fendas sem ordem!

— Eu segui uma ordem mais antiga — Kael respondeu, firme.

Os olhos do soldado desceram até Lyria.

E pararam.

Ela sentiu aquele olhar pesar sobre ela como uma pedra.

— Quem é essa? — ele perguntou. — Uma humana? Você trouxe uma humana pra cá?!

Kael deu um meio passo à frente, bloqueando a visão dela.

— Não é “uma humana”. É a herdeira.

O silêncio que veio depois foi quase palpável.

O segundo soldado riu, sem humor.

— Ela? Isso é piada?

Lyria sentiu o rosto esquentar.

— Eu estou aqui, tá? — ela murmurou, baixa.

Mas o primeiro soldado não estava rindo.

Ele analisava cada traço do rosto dela, cada linha, cada detalhe.

— Ela parece com ela — disse, por fim. — Com a traidora.

Kael cerrou os punhos.

— Não fala dela assim.

— A mãe dela quase destruiu os dois lados — o soldado rebateu. — Se isso é mesmo a filha, o conselho não vai aceitar fácil.

Um sino começou a tocar em algum lugar distante. Não era como os sinos da vila de Lyria. Era um som grave, metálico, repetido três vezes.

Kael fechou a cara.

— Já sabem que chegamos.

Ele se virou para Lyria.

— Fica perto de mim. Não responde nada que não precisar.

— Eu não sou criança — ela retrucou.

— Aqui, você é — ele respondeu. — Porque eles podem te matar só por medo.

Ela calou.

Kael conduziu-a pela escadaria, passando pelos soldados. O primeiro deles deu um passo para o lado, mas não antes de dizer:

— Vão levar vocês direto ao salão. O conselho já foi avisado.

Lyria engoliu o medo.

Salão. Conselho. Tudo isso cheirava a julgamento.


O interior da fortaleza era menos destruído do que ela esperava. Corredores longos, paredes lisas, tochas de luz fria presas nas pedras. Alguns guerreiros passavam, sempre em silêncio, sempre olhando demais para ela e para o medalhão.

— Por que todo mundo me olha como se eu fosse explodir? — Lyria murmurou.

Kael respondeu sem virar o rosto:

— Porque você pode.

Não ajudou em nada.

Eles chegaram diante de uma porta dupla de pedra, com o símbolo da meia-lua cravado no centro — o mesmo desenho da marca no pulso de Kael. Dois guardas abriram as portas sem serem avisados.

Lyria entrou com ele.

O salão era amplo, com um chão circular e degraus ao redor, onde figuras de mantos escuros estavam sentadas, como um tribunal. No centro, um espaço vazio. O lugar exato onde ela e Kael estavam.

Ela percebeu: estavam no meio de um julgamento que não pediram pra ter.

Uma mulher de cabelos presos e olhos frios se inclinou para a frente.

— Então é verdade — disse. — Você realmente a trouxe.

A voz dela ecoou nas paredes.

Kael manteve a postura ereta.

— Eu cumpri o juramento que o próprio conselho exigiu.

Um homem do lado esquerdo bateu a mão no braço da cadeira.

— O juramento era localizar. Não trazer para dentro da fortaleza sem autorização.

Lyria olhou de um rosto para outro, perdida.

— Alguém pode, por favor, dizer o que eu estou fazendo aqui? — ela explodiu. — Ou por que metade de vocês me encara como se eu fosse doença e a outra metade como se eu fosse prêmio?

Vários pares de olhos se voltaram para ela.

A mulher de olhos frios sorriu de leve.

— Ela tem a língua afiada como a mãe.

Lyria sentiu o coração falhar um segundo.

— Vocês realmente a conheceram? — ela perguntou.

— Conhecemos — a mulher respondeu. — E vimos como terminou.

Kael deu um passo à frente.

— Se vão falar dela, falem com respeito.

— Você está em posição de exigir alguma coisa, guardião? — o homem da esquerda cortou.

Kael calou, mas o maxilar dele travou.

A mulher voltou o foco para Lyria.

— Venha mais perto.

Tudo em Lyria dizia para não obedecer.

Mas Kael assentiu discretamente.

Ela deu alguns passos, parando sob a luz que vinha do teto.

A mulher a analisou como um objeto.

— Nome?

— Lyria — respondeu, seca.

— Nome completo.

Kael pareceu segurar o ar.

Lyria lembrou da voz do homem na porta.

Lyria Kaelith.

As palavras formaram um nó na garganta.

— Eu… não sei — ela disse. — Meu pai me registrou só como Lyria. Nunca usou outro sobrenome.

A mulher inclinou a cabeça.

— Mas você sabe que não pertence ao lugar onde cresceu. Sabe que algo em você sempre foi… deslocado.

Lyria quis negar.

Não negou.

— Eu… sempre senti que tinha alguma coisa errada — admitiu, baixo.

A mulher indicou o medalhão.

— Mostre.

Lyria levantou a corrente.

O brilho prateado encheu o salão.

Alguns membros do conselho se mexeram na cadeira. Outros se encolheram, incomodados.

A mulher se levantou.

— A pedra responde a ela — disse, como se confirmasse um diagnóstico. — Não há dúvida. Ela é a herdeira.

O homem da esquerda rebateu na mesma hora:

— Ser herdeira não significa que seja útil. Pode ser a maior ameaça que já passou por esse salão.

Kael falou, firme:

— Ela é a única chance que vocês têm de consertar o que fizeram com a barreira.

Um burburinho correu ao redor.

A mulher ergueu a mão e o salão silenciou.

— Kael foi treinado para protegê-la — disse. — E, se necessário, para matá-la.

Lyria engoliu em seco.

— Desculpa, o quê? — ela perguntou.

Kael não desviou o olhar dela.

— Se você perder o controle e colocar os dois mundos em risco, eu fui juramentado para te deter — explicou. — De qualquer forma necessária.

Ela sentiu o chão sumir por um instante.

— Então você está comigo… até o dia que decidirem que eu sou perigosa demais — ela concluiu. — E aí você mesmo me mata.

Silêncio.

Kael não confirmou.

Mas também não negou.

Lá em cima, a mulher concluiu:

— Antes de qualquer coisa, precisamos saber se o poder nela é estável ou se já nasceu quebrado.

Ela olhou para um dos guardas de canto.

— Preparem a câmara. Vamos testá-la hoje.

Lyria deu um passo atrás.

— Testar… como? — perguntou.

A mulher sorriu, sem humor.

— Vamos ver até onde você aguenta antes de quebrar.

Ela se virou para Kael.

— E você, guardião, vai assistir. Porque se ela falhar… queremos ter certeza de que você consegue fazer o que prometeu.

Os olhos de Lyria encontraram os dele.

E pela primeira vez, ela viu algo diferente ali.

Não era frieza.

Não era indiferença.

Era medo.

Medo não do que fariam com ela.

Mas do que ele talvez tivesse que fazer.

E logo.

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