Peguei.
Abri.
Notas de 500 euros.
Dezenas.
Centenas.
Indecente.
Sujo.
Delicioso.
âž»
â VocĂȘ sempre paga antes? â arqueei uma sobrancelha, mas era mais autoproteção do que deboche.
Ele sorriu.
Sorriso torto.
De quem jĂĄ sabe que venceu.
De quem nĂŁo j**a pra ganhar.
J**a pra destruir e depois escolher se quer reconstruir⊠ou não.
â **NĂŁo.
Eu pago pra nĂŁo deixar dĂșvidas.
Se vocĂȘ ficar⊠vocĂȘ sabe o valor.
Se quiser sair⊠leva o dinheiro.
Mas leva junto a vergonha de nĂŁo ter aguentado o jogo.
âž»
Fechei o envelope.
Joguei na mesa.
Claro como fogo:
NĂŁo tĂŽ aqui pelo dinheiro.
E agora⊠ele sabe disso.
âž»
Dante se move.
TrĂȘs passos.
Cada um mais letal que o anterior.
Parou tĂŁo pertoâŠ
que o calor do corpo dele fez meu ventre se contrair.
Mas ele nĂŁo me tocou.
Nem precisava.
Dante toca com presença.
Com olhar.
Com energia.
âž»
â VocĂȘ tĂĄ com medo? â perguntou.
Baixo.
Sabe aquele tipo de voz que nĂŁo soa no ouvido?
Ela b**e no osso.
No pulmĂŁo.
No meio da alma.
â NĂŁo. â menti.
Ele inclinou o queixo.
Levantou dois dedos.
Ergueu meu queixo com a delicadeza que se pega um cĂĄlice de cristal.
NĂŁo pra admirar.
Pra decidir se bebeâŠ
ou se quebra.
âž»
â VocĂȘ Ă© linda, Valentina. â ele disse.
â Eu sei. â respondi, firme.
Ele sorriu, lento, perigoso.
â **Mas beleza sem verdade⊠é sĂł enfeite caro.
E eu nĂŁo pago por enfeite.
Pago por controle.
âž»
Ele soltou meu queixo.
Deu um passo pra trĂĄs.
Cruzou os braços.
Sentou na poltrona.
Perna cruzada.
Postura impecĂĄvel.
Postura de quem nĂŁo discute.
Postura de quem ordena.
E soltou:
â Agora⊠ajoelhe-se.
âž»
O sangue?
Primeiro gelou.
Depois ferveu.
Depois⊠virou gasolina.
â VocĂȘ me paga pra te obedecer? â rebati.
Ele nĂŁo piscou.
Só inclinou levemente a cabeça.
Sorriso que parecia um crime disfarçado de charme.
â **NĂŁo.
Eu pago⊠pra vocĂȘ se lembrar que aquiâŠ
quem manda sou eu.
âž»
Ajoelhei.
**Mas nĂŁo como quem se rende.
Como quem entendeâŠ
que Ă s vezes quem se abaixaâŠ
Ă© quem tĂĄ prestes a virar o jogo.
Me sentei sobre os calcanhares.
Cabeça erguida.
Sem vacilar.
Sem desviar.
A camisola de seda grudou no corpo.
A fenda aberta, deixando a coxa quase inteira Ă mostra.
**E ele olhou.
NĂŁo com tesĂŁo vulgar.
Com cĂĄlculo.
Com aquela fome que nĂŁo quer sĂł carne.
Quer alma.
Quer rendição.
Quer pedaços que nem eu sabia que tinha.
âž»
â VocĂȘ se vende como um segredo caro. â ele disse.
â Mas, por trĂĄs dessa poseâŠ
tem uma mulher apavorada com a ideia de ser tocada⊠sem ser paga.
â E vocĂȘ acha que Ă© diferente? â rebati.
Ele riu.
Seco.
Sujo.
Perigoso.
â **NĂŁo.
**Eu sou pior.
Porque eu nĂŁo quero comprar seu corpo.
**Quero comprar sua verdade.
E vou arrancar ela de vocĂȘâŠ
nem que isso custe tudo.
âž»
Ele estendeu a mĂŁo.
Mas nĂŁo pra tocar minha pele.
Segurou meu pulso.
Firme.
Certeiro.
Sem força.
Sem violĂȘncia.
Apenas pra deixar claroâŠ
E disse.
Quase num sussurro que parecia uma sentença:
â **O que me excita em vocĂȘâŠ
nĂŁo Ă© teu corpo.
Ă ver vocĂȘ tentando fingirâŠ
que ele ainda Ă© seu.
E se alguém olhasse de fora⊠podia até achar que era só um toque.
Mas nĂŁo era.
Era um aviso.
Era um lacre.
Era uma coleira invisĂvel sendo fechada.
âž»
â Levanta. â A voz dele soou como uma ordem que meu corpo atendeu antes da mente processar.
Eu me ergui.
NĂŁo porque quis.
NĂŁo porque aceitei.
Mas porque negar⊠parecia idiota.
E parecia inĂștil.
Dante se levantou também.
E era surreal como, mesmo sem estar encostando, o corpo dele parecia ocupar mais espaço do que qualquer parede ali dentro.
Ele circulou.
Deu a volta em mim⊠como quem avalia uma joia roubada.
Ou uma arma carregada.
O cheiro dele â quase inexistente, quase proibido â grudou na minha garganta.
Notas de madeira escura, couro e⊠perigo.
âž»
Ele parou nas minhas costas.
TĂŁo pertoâŠ
que se eu respirasse mais fundo, o ar dele entrava no meu corpo antes do oxigĂȘnio.
A mĂŁo dele nĂŁo tocou minha pele.
Mas puxou devagar a alça da camisola.
Deslizou sĂł atĂ© fazer o tecido cair de um lado, expondo metade do meu ombro, da clavĂcula⊠e da minha sanidade.
â Sabe o que mais me irrita em vocĂȘ? â a voz dele desceu grave, direto no meu ouvido.
NĂŁo respondi.
Nem consegui.
â VocĂȘ anda pelo mundo como se ninguĂ©m fosse capaz de te parar.
Como se ninguém tivesse o direito de te segurar.
De te fazer ceder.
De te dobrar.
A mĂŁo dele subiu.
Ponta dos dedos quase, quase tocandoâŠ
Mas nĂŁo tocou.
Ele riu, baixo, sujo.
â **E o problema, ruiva⊠é que vocĂȘ tĂĄ certa.
Ninguém pode.
NinguĂ©mâŠ
Menos eu.
âž»
Virei o rosto.
Queria enfrentar.
Queria soltar alguma daquelas respostas afiadas que eu dominava melhor que qualquer idioma.
Mas nĂŁo saiu.
Porque, quando olhei pra eleâŠ
eu vi.
O perigo real.
A fome real.
O tipo de desejo que nĂŁo se mede em gemidos.
Se mede em rendição.
âž»
Ele segurou meu queixo.
NĂŁo com violĂȘncia.
Mas com domĂnio.
A ponta do polegar deslizou no meu lĂĄbio inferior, pressionando devagar.
Como quem testa se o objeto Ă© tĂŁo macio quanto parece.
â VocĂȘ acha que tĂĄ no controle, Valentina⊠porque aprendeu a fingir melhor que qualquer um.
Mas comigo⊠não existe mentira que se sustente.
âž»
Ele soltou meu rosto.
Deu dois passos pra trĂĄs.
E, com aquele tom que nĂŁo permite discussĂŁo:
â Deita.
De costas.
Agora.
O corpo respondeu antes da lĂłgica gritar que nĂŁo.
Subi na cama.
O tecido gelado dos lençóis encontrou minha pele quente como se fosse parte do castigo.
Deitei.
De costas.
Pernas semiabertas.
Braços ao lado do corpo.
Coração fora de ritmo.
Alma fora de controle.
Desejo⊠fora de qualquer contrato que eu jå assinei na vida.
âž»
Ele veio.
Devagar.
Predador que saboreia antes de morder.
Se ajoelhou na ponta da cama.
Me olhou como quem lĂȘ um mapa do tesouro.
E disse, arrastando cada sĂlaba como quem esculpe desejo na pele:
â **VocĂȘ nĂŁo entendeu ainda, nĂ©?
Eu nĂŁo te trouxe aqui pra foder seu corpo.
Eu te trouxe⊠pra foder sua cabeça.
Pra arrancar de vocĂȘ a Ășnica coisa que vocĂȘ nunca deu pra homem nenhum.
Sua rendição.
Sua verdade.
Seu controle.
E, inclinando sobre mim, boca a milĂmetros da minha:
â **E, meu amorâŠ
VocĂȘ vai gozar tanto⊠que vai implorar pra nunca mais fingir.